Walter Laqueur prevê o fim da Europa

Historiador defende a tese de que o velho continente está fadado ao declíinio e vai transformar-se num parque cultural temático

Caio Blinder, NOVA YORK, O Estadao de S.Paulo

07 Julho 2029 | 00h00

Walter Laqueur escreve com tom sóbrio de quem já viu muita coisa na vida e na história. Mas este decano dos historiadores europeus (também com muita vivência nos EUA) faz parte da banda daqueles que vislumbram com pessimismo o futuro da Europa. É um vaticínio sem suspense em um livro de título fantasmagórico: Os Últimos Dias da Europa - Epitáfio para um Velho Continente (The Last Days of Europe - Epitaph for and Old Continent, Thomas Dunne, 244 págs., US$ 25.95). Laqueur já esteve lá. Nascido em 1921 em Breslau, na Alemanha, ele viu seu país afundar na República de Weimar e no nazismo. Depois, foi a vez daquela versão da velha Europa na 2ª Guerra Mundial. Laqueur foi em 1938 para a Palestina sob Mandato Britânico e sobreviveu ao Holocausto, mas os seus pais não. Ele tem uma obra monumental (mais de 20 livros) sobre Europa, Oriente Médio e terrorismo, com vida acadêmica nas melhores universidades do mundo e hoje reside em Washington. Desta vez, Laqueur olha para frente e não para trás. Seu pessimismo não é singular nas advertências sobre a Europa letárgica, mamando de um ?welfare state? anacrônico, em declínio demográfico (leia-se branco), afogada em um mar de imigrantes muçulmanos, dilacerada por tensões multiculturais e vítima de terrorismo. Autores histéricos falam na "Eurábia" e em "Londonistan". O livro, portanto, não é original, mas vale pela credibilidade e grife de Laqueur. Com sua autoridade, ele pode discutir imigração e seus perigos sem ser rotulado de racista. A tese é simples e direta: a Europa está fadada ao declínio por imigração e demografia. Como historiador, vê a longo prazo. Em uma das projeções, serão apenas 59 milhões de europeus em 2300. Mas, usando um termo maldito, trata-se de determinismo histórico. Quem sabe? A dama História dá voltas. Há sinais de uma renascença nas taxas de natalidade na França, Grã-Bretanha, Suécia e mesmo na Itália. Também é inimaginável que não ocorram reformas significativas no pacto social europeu. Talvez as mudanças não ocorram com a rapidez, mas o continente não está dormindo. A prova está na eleição do hiperativo Nicolas Sarkozy na França ou na ascensão do infatigável Gordon Brown na Grã-Bretanha. É pessimista, mas menos categórico quando fala da não assimilação de imigrantes, em particular muçulmanos: "Alguém pode apenas esperar que os recém-chegados, indiferentes aos valores europeus ou mesmo hostis a eles, gradualmente mostrem mais tolerância, senão entusiasmo, em relação a estes valores ou que o multiculturalismo, que tem sido uma decepção, talvez funcione a longo prazo." Há estatísticas e tendências que respaldam esse pessimismo: apenas 17% dos muçulmanos na Grã-Bretanha acreditam que os atentados do 11 de Setembro tenham sido obra da rede Al-Qaeda e estão aí as células terroristas (e o terrorismo) integradas por filhos do multiculturalismo britânico. E, na França, a política oficial de assimilação deu em baderna na periferia. Pelo menos seu pessimismo não desemboca no histerismo. Ele reconhece as contribuições dos imigrantes para sacudir a poeira européia e sabe que eles são necessários ao desafio demográfico. Tampouco vislumbra uma tomada muçulmana do continente. Ele espera tensões permanentes em vários países e a cristalização de uma subclasse étnica em cada sociedade que acolhe imigrantes da África do Norte, Oriente Médio e subcontinente indiano. Há mais uma resignação no tom de Laqueur, que escreve: "Em razão do encolhimento de sua população, é possível que a Europa, ou pelo menos partes consideráveis dela, transforme-se em um parque cultural temático, uma espécie de Disneylândia com um certo nível de sofisticação, para visitantes afluentes da China e da Índia." A nova Europa tem histórias de sucesso: a Irlanda, que décadas atrás parecia um caso perdido, e o ressurgimento de partes da Europa Oriental, que tivera o atestado de óbito assinado. Ademais, mesmo Laqueur já documentou no passado a capacidade de recuperação do Velho Continente após a 2ª Guerra Mundial. Mas ele insiste no tema da esclerose européia e na incapacidade de ajuste dos imigrantes muçulmanos, ao contrário do que ocorre nos EUA ou com levas anteriores de imigrantes na Europa. E aí está a experiência da Turquia, entre a Europa e a Ásia. Nas eleições de julho, firmou sua identidade islâmica consagrando o Partido Justiça e Desenvolvimento do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, enquanto tenta se assimilar à modernização. Há ajustes na história e quem sabe Walter Laqueur possa fazer um na próxima edição do seu epitáfio europeu.

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