Walderez de Barros, uma poeta

Atriz revela nova faceta em mostra de gravuras inspiradas em seus versos

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

07 de dezembro de 2007 | 00h00

A força da voz feminina se materializou em poemas e gravuras. Exposta a partir de hoje no Espaço Cultural Monte Bianco, ela se divide em 16 poemas inéditos da atriz Walderez de Barros, transformados em 21 calcogravuras - técnica feita com base em uma matriz em metal, no caso, o cobre.''''Chamo a exposição de a pequena Divina Comédia, porque ali está o todo da experiência humana: o céu, o inferno e o purgatório'''', diz a artista plástica Eoli de Natali. Experiência essa entendida e relatada pelo filtro da alma da mulher.A idéia de compor um álbum de gravuras nascidas da interpretação dos versos de Walderez surgiu em outubro do ano passado no ateliê calcográfico de Eoli, que conhece a atriz desde 1982 e tem o estúdio de criação há 27 anos. No começo dos anos 80, Eoli fizera a experiência inversa, a de traduzir por meio de poemas o resultado artístico do processo de gravação. No livro Eros, sobre o prazer sexual do amor, Eoli publicou a descrição poética de Walderez a respeito de uma das suas gravuras. Passariam 24 anos até que a atriz aceitasse revelar seu trabalho solitário e introspectivo de poeta. ''''Ela é tímida'''', revela Eoli.A artista plástica explica que a variedade de visões propostas pelos 21 gravuristas mostra o ponto de contato com a criação poética. ''''A gravura é como as palavras, você constrói frases diferentes, apesar de o a-e-i-o-u ser igual'''', ela diz.Houve casos em que dois artistas diferentes trabalharam em cima das mesmas estrofes, o que não impediu manifestações as mais diversas. De qualquer maneira, é a mesma técnica - a calcográfica - apresentando soluções criativas diferentes para os 16 poemas selecionados entre 21, escritos desde 1980.Os trabalhos expostos foram concebidos em água-forte (entalhe com ácido), em água-tinta (entalhe com ácido em material poroso), em ponta-seca (instrumento de aço ou diamante com ponta afilada) e em buril (ferramenta de aço com ponta cortante). A exposição, que é gratuita, conta com um texto explicativo sobre a técnica da gravura, que passou a usar os metais, originalmente a prata, como matrizes artísticas a partir do Renascimento. Um álbum de 39 páginas com as criações dos artistas plásticos, entre eles Ruth Sprung Tarasantchi e Heloisa Pessôa, e os poemas da Walderez estará disponível.Um dos cinco homens que participam com seus trabalhos é Gilberto Habib, curador do espaço cultural. Sua gravura retrata a poeta olhando-se no espelho, enquanto pondera sobre as coisas do mundo. É uma criação em que Walderez tem uma postura de ícone sacro e, ao mesmo tempo, revela sua condição humana. ''''Eu levei para a gravura a profunda reflexão que a Walderez faz sobre a existência'''', diz Gilberto.Segundo o gravurista, as feridas que aparecem nas mãos da atriz revelam sua humanidade. ''''As chagas representam a humanidade; quando o homem sofre, ele se torna humano.'''' Ao misturar símbolos teatrais e místicos, como a romã, Gilberto mira para desvendar as máscaras sobre os artistas, que também têm família, choram, riem, são felizes e se entristecem.Além das gravuras, um ensaio fotográfico assinado por J. J. Name completa a exposição. ''''Ele tem uma pesquisa fotográfica com o imaginário de São Paulo, faz algum tempo que ele capta o cotidiano das pessoas'''', diz Gilberto. Para ele, a atriz tem a cara da cidade e é uma figura urbana remanescente do tempo da boemia paulistana.Walderez completa 45 anos de carreira no teatro, no cinema e na televisão. Ela se iniciou no teatro estudantil, em um grupo ligado ao Centro Popular de Cultura da UNE no começo dos anos 1960. Teve sua formação artística ampliada em experiências no Teatro de Arena, no Oficina, no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia). Foi casada com o dramaturgo santista Plinio Marcos.Seu lado poético é o menos conhecido. ''''Eu sempre escrevi, mas nunca me expus'''', ela conta. Além das poesias, ela escreve contos, mas por enquanto não pretende estrear em livro. Desde agosto, ela está gravando Alice, série dirigida por Karim Ainouz e Sergio Machado para o canal pago HBO.

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