Vozes que encantam pela graça da mistura

Jussara, Teresa e Rita unem forças em Três Meninas do Brasil

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

13 de janeiro de 2009 | 00h00

Aplausos em discos ao vivo incomodam um pouco para ouvir em casa. Os DVDs de shows atuais parecem um tanto artificiais, não apenas pelo apelo comercial, mas porque o público parece querer "participar" demais. Os registros ao vivo antigos são outra coisa: o público ia aos concertos para ouvir, não para falar, fotografar e cantar mais alto que o artista. Mas há boas exceções atuais, que valem pelo conteúdo e o acabamento, como é o caso de Três Meninas do Brasil (Biscoito Fino).O show que reuniu Jussara Silveira,Teresa Cristina e Jussara Silveira, e ainda não chegou a São Paulo, foi gravado em agosto de 2008 no Teatro Municipal de Niterói e sai agora em duas versões: em CD (com 15 faixas) e DVD (com 21). De estilos peculiares, o trio - formado por uma mineira crescida na Bahia, por uma carioca e por uma maranhense, que se encontraram no Rio - se propõe a transitar por terrenos inéditos e a trocar impressões de ritmos, gêneros musicais e interpretação, além de readaptar o próprio repertório ao novo formato.Enfim, como diz a letra de Meninas do Brasil (Moraes Moreira/Fausto Nilo), são "três corações democratas" que encantam e se divertem "pela graça da mistura". São três personalidades de grande expressão, cada uma no seu estilo, criteriosas nas escolhas e quase com o mesmo tempo de carreira. Esporadicamente, seus caminhos já haviam se cruzado antes desse show coletivo, mas a admiração mútua já existia.O projeto teve início em dezembro de 2007, quando as três mais o músico e produtor Jaime Alem receberam a reportagem do Estado num estúdio carioca, onde ensaiavam. Na ocasião, elas contaram que canções como Mulher Nova Bonita e Carinhosa Faz Um Homem Gemer Sem Sentir Dor (Zé Ramalho/Otacílio Batista) e Pôxa (Gilson de Souza) não eram unanimidade entre elas. Rita já tem dado boas amostras de como aprimorar canções bregas (como o faz novamente em Impossível Acreditar Que Perdi Você, de Márcio Greyck, que gravou no álbum de estreia), mas realmente era difícil imaginar Teresa cantando Mulher Nova. Daí que a curiosidade aumenta: é um dos melhores resultados das vozes em trio, em arranjo e gravação superior ao original de Amelinha.O trio se joga num repertório eclético, que reúne compositores de diversas partes do vasto território nacional: os baianos Tom Zé, Roque Ferreira, Dorival Caymmi e Caetano Veloso, o pernambucano Dominguinhos, os cariocas Chico Buarque, Marisa Monte e a própria Teresa, os maranhenses Zeca Baleiro e Antônio Vieira, o capixaba Sérgio Sampaio. Entre as curiosidades estão Maiúsculo (de Sampaio, lindamente cantada por Rita) e a divertida Na Cabecinha da Dora (Antônio Vieira/Pedro Giusti), que Rita e Teresa emendam com Nega do Cabelo Duro (David Nasser/Rubens Soares), Maria, Mariazinha (Aloísio Ventura), com Rita e Jussara, e o forró Homem de Saia (Marcelo Reis/Eneas de Castro), cantado em trio.Jussara é a mais introspectiva das três e sua voz delicada se destaca em belezas como Para Ver as Meninas (Paulinho da Viola), Ludo Real (Chico Buarque/Vinícius Cantuária) e Dama do Cassino (Caetano Veloso). Teresa, que gravou Gema no CD Delicada, encara outra de Caetano, Nu com a Minha Música (grafado "nú" no encarte). De voz poderosa, Rita é que demonstra ter mais desenvoltura em qualquer estilo, mas quando as três, com sua "simpatia mulata", caem juntas no ritmo, como no bloco final, a partir de Chula Cortada (Roque Ferreira), é uma festa.

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