Vozes contemporâneas

Em seus segundos CDs, quatro cantoras independentes confirmam o potencial criativo e ressaltam o talento de novos compositores

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

27 de fevereiro de 2009 | 00h00

A nação das cantoras tem vozes para acordar uma galáxia. Elas são muitas e estão sempre chegando. Sem pressa nem compromisso comercial, vindos do fim de 2008, ainda por "acontecer", estão aí para ser apreciados os álbuns das paulistas Dani Gurgel e Cris Aflalo, da mineira Mariana Nunes e da gaúcha Marisa Rotenberg, repletos de boas ideias. As quatro, coincidentemente, estão no segundo trabalho e confirmam o talento revelado nas promissoras estreias. Além de trabalharem em esquema independente, todas têm em comum o fato de apostar em compositores contemporâneos seus, com uma ou outra revisão pessoal do cancioneiro de outras gerações, como fazem Mariana e Cris. Ouça faixas das cantoras no siteHá um senso de coletividade que se expressa nas produções atuais, das quais essas cantoras são catalisadoras, e que Dani já manifesta no título de seu CD, Nosso. Boa de voz e de letra, em algumas faixas, ela assina parcerias com o baterista Thiago Rabello e a pianista Debora Gurgel, sua mãe. É do trio a deliciosa Neneca, que narra com bom humor um domingo em família. Dani canta outras de Vinicius Calderoni, Ricardo Barros, Michi Ruzitschka e Giana Viscardi, entre outros com quem compartilha boas influências do jazz, a maioria presente na ficha técnica como músicos acompanhantes.A faixa que melhor define seu perfil musical é Samba do Jazz, de Dani Black e Breno Ruiz. Não é por acaso que ela tem pleno domínio da divisão do samba e do jazz: uma de suas maiores referências é Elis Regina (1945-1982). "Sempre fui instrumentista e foi pela Elis que comecei a ouvir mais cantoras, a conhecer tudo que hoje conheço e gosto de canção brasileira, até descobrir que minha praia era essa", diz a cantora. "Outra coisa que aprendi com ela foi buscar quem está do meu lado, quem está crescendo e aparecendo comigo, não obrigatoriamente olhando para cima. Acho que eu preciso olhar pros lados."Antes de lançar o EP, com quatro canções, que levava apenas seu nome, ela realizou a série de shows Dani Gurgel e Novos Compositores, que é também o mote de seu próximo CD, a ser lançado este ano. Nosso é uma (con)sequência desse projeto que começou em 2007. Esse exercício de parceria resulta na espontaneidade e na sofisticação que transparece em cada detalhe do CD, em clima de jam session. "De um disco para outro conheci um monte de gente nova e esse movimento está sempre crescendo. É isso que acho mais legal."Situação semelhante vivenciou Marisa Rotenberg. Residente em Porto Alegre, ela teve a oportunidade de trabalhar no Rio. O contato com músicos cariocas e visitantes foi determinante não só para o resultado do CD Boa Hora (produzido por Gastão Villeroy e Eugênio Dale), mas para abrir seus horizontes sonoros no geral. "No estúdio circula muita gente, então fui conhecendo, trocando figurinhas com outros músicos. Começaram a aparecer autores novos e o projeto do disco foi se modificando, meu ouvido (e os dos produtores) foi mudando muito rápido", conta. Influências desse movimento estão bem alocadas no CD. Do projeto inicial uma canção que ficou foi Maria, do gaúcho Tiago Rosa, de 25 anos, que "bebeu muito de Chico Buarque" e "tem muita música boa". Em Boa Hora, ela equilibra suingue de samba, levadas lentas e melancólicas, sonoridade acústica e eletrônica, rock, marcha e ritmos nordestinos. Em seu giro nacional, abriga compositores de origens diversas, do Maranhão ao Rio Grande do Sul. Entre eles estão Marcelo Frota, Luciana Pestano, Rodrigo Campello, Suely Mesquita, Zeca Baleiro (que deu a ela a inédita Ai Ai, Iaiá) e Pierre Aderne. "Além de novos talentos, é gente de todo o Brasil, o que tem a ver com minha formação musical", observa Marisa. "Sempre fui muito cosmopolita."O criativo Flávio Henrique é da turma de Mariana Nunes e seu nome predomina no bonito CD A Luz É Como a Água, do qual foi o produtor, arranjador e autor de algumas faixas. Além das inéditas, Mariana também transforma com sua voz cristalina clássicos de Milton Nascimento e Fernando Brant (Coração Civil), Tom Jobim e Chico Buarque (A Violeira), além de duas canções de José Miguel Wisnik. Jaques Morelenbaum, Vander Lee e Marco Antônio Guimarães (do Uakti) têm participações especiais.O ponto de partida para A Luz É Como a Água foi o conto homônimo do colombiano Gabriel García Márquez, a história da menina que engoliu um passarinho. Uma das canções de Flávio Henrique (Rositos de Maiz, inspirada numa viagem a Cuba) tem com um dos parceiros Vitor Santana, com quem Mariana fez o excelente projeto Abra Palavra. "Meu primeiro trabalho foi desenvolvido com um compositor e, de certa forma, essa continuação também. Estar acompanhada por um compositor e desenvolver uma determinada intimidade com aquele universo é uma característica que marca minha trajetória. Acho isso muito interessante porque é um grande diferencial."Há canções marcantes de sua história pessoal, o que "justifica a releitura", como é o caso da tocante Coração Civil. "Acho a letra linda, acredito nela, é o que eu gostaria de dizer para as pessoas." A partir do conto de García Márquez, Mariana diz que procurou criar um universo mágico, de realismo fantástico, muito bem ilustrado no projeto gráfico do CD. Tem seu lado lúdico, como o xote Rave no Sertão (Flávio Henrique), que faz par bem-humorado com Polícia, Bandido, Cachorro, Dentista (Sérgio Sampaio), um lado reflexivo e as relações entre pássaros (como Colibri, de Flávio e Vander Lee) e a voz da cantora.Cris Aflalo estreou em disco com o ótimo Só Xerêm dedicado à obra de seu avô. Mais urbana do que regional, em seu segundo passo, Quase Tudo Lá, ela revela sua bem-vinda porção compositora em 4 das 11 faixas. Uma delas (Aroeira) é parceria com o violonista Luiz Waack, que também divide com ela o trabalho de produção. Nas demais, recria com personalidade pérolas obscuras de Caetano Veloso (Um Tom) e Gilberto Gil (Língua do Pê), canta duas de Arnaldo Antunes (uma com Péricles Cavalcanti, outra com Paulo Tatit), mais Carlos Careqa, Lula Queiroga e parceiros."A escolha das minhas canções para este disco veio do que cai bem ao ouvido. Combinação de mensagem e ritmo", diz a cantora. "Qualquer repertório que faça passa pelo coração. Não é cerebral. Quando eu reparo, já estou cantando da minha maneira. Língua do Pê, Imaculada (Cris Aflalo), Sinto Seco (Tatto Ferraz/Julli Pop), pra mim, internamente, são emboladas. Meu avô me deu este gosto, brincar com as palavras, mas elas veem com uma melodia que me instiga.""Criada com diversas influências musicais", Cris diz que não se imagina gravando um álbum inteiro só com composições próprias e que este segundo disco "não existiria se não tivesse feito Só Xerêm". Ela se refere "ao aprendizado de estúdio, produção, arranjos e concepção artística". Como no trabalho de estreia, a parceria musical com Luiz Waack é "conceitual intuitiva". "Eu faço o violão dele e ele também faz a minha voz. Outro dia eu disse sem perceber: a voz dele é o meu violão."

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