Voz aos desenhos de Mira Schendel

Galeria Millan exibe monotipias da artista, que a partir de abril terá mostra no MoMA de Nova York, criadas entre 1964 e 1966

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

18 de março de 2009 | 00h00

A grande exposição com obras da suíça radicada no Brasil Mira Schendel (1919-1988) e do argentino León Ferrari que será inaugurada no dia 5 no MoMA (Museum of Modern Art) de Nova York é, inegavelmente, um dos eventos de mais destaque do ano para o cenário artístico brasileiro. Mas a ideia de que a consagração vem com o reconhecimento de uma instituição do exterior não vale para Mira. Ela nunca precisou disso. Em todo caso, há agora uma confluência de atividades em torno de sua obra - além da mostra no MoMA, a inauguração, hoje, de uma exposição de suas monotipias na Galeria Millan, que representa o espólio de sua família, assim como haverá outra, a partir de 30 de maio, na Stephen Friedman Gallery de Londres, e o lançamento próximo, pela editora Cosac Naify, de dois volumes sobre a artista.Há mais de dez anos o museu americano tinha interesse em exibir suas obras e, também em termos de mercado, a produção de Mira Schendel vem ultimamente até mesmo tendo mais sucesso no exterior, como diz o marchand André Millan - e ele cita que obras da artista estão presentes em acervos de instituições internacionais importantes, como o próprio MoMA, a Tate de Londres, o Museu Reina Sofia de Madri.É curioso como agora em São Paulo, neste momento de holofotes em torno de Mira Schendel, se faça uma "exposição mais simples" da artista, como diz Millan, com uma seleção de 30 monotipias. Esse continente de sua produção, obras feitas a tinta preta sobre papel de arroz desenhadas com ponta seca que Mira apenas realizou entre 1964 e 1966, é o mais conhecido pelo público e, também, como reforça o marchand, foi "o grande laboratório da artista". Esta é a terceira exposição que a galeria faz de obras de Mira e nas anteriores já foram mostradas de forma mais ampla a produção da artista - como trabalhos de sua série dos Sarrafos, as mandalas, as telas em que ela experimentou a cor. Agora é a vez de dar voz ao seus desenhos, que nos últimos cinco anos vêm cada vez mais sendo valorizados - se antes já custavam US$ 100, agora chegam a US$ 15 mil. "Mas ainda tenho vontade de fazer exposições com outros ramos mais desconhecidos de sua produção, como seus bordados e seus cadernos", diz Millan.Mira Schendel produziu compulsivamente e extensamente as monotipias em um único período e depois não as retomou mais. São desenhos livres, linhas que "pareciam nascer de dentro do papel", como afirma o crítico Rodrigo Naves: surgem neles palavras (algumas fazem menção a religião, em outros, há humor), construções de leve geometria, ou apenas traços pontuais. Na bela montagem da exposição na Millan, as monotipias estão suspensas, penduradas por finos fios, e formam uma linha contínua que atravessa toda a sala expositiva. O grande corpo da mostra se faz com as monotipias verticais, mais comuns dentro da produção da artista, mas há uma série de três horizontais, mais raras, expostas em vitrine. São todos desenhos que exigem o olhar cuidadoso do visitante, o mergulho se dá aos poucos no universo de cada papel. ServiçoMira Schendel. Galeria Millan. Rua Fradique Coutinho, 1.360, 3031-6007. 10 h/ 19 h (sáb. 11 h /17h; fecha dom.). Até 25/4. Abertura hoje para convidados

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