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Volpi ganha monumento em parque da zona sul

Doação do instituto que leva o nome do artista é uma obra criada pelo escultor paulistano Paulo Rebocho

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2015 | 05h00

Um monumento a Alfredo Volpi (1896-1988), de autoria do escultor paulistano Paulo Rebocho, deverá ser instalado na entrada do parque que leva o nome do pintor, extensa área que ocupa 140 mil metros quadrados no bairro Cidade Jardim. O Instituto Alfredo Volpi encomendou a obra a Rebocho, uma escultura em granito preto que traz a forma consagrada por Volpi em suas têmperas, um quadrado do qual foi retirado um triângulo, inversão do paradoxo do quadrado perdido de Curry – Volpi dizia que não pintava bandeirinhas, que elas eram a marca de Pennacchi. 

Seja como for, as “bandeirinhas” de Volpi estão representadas na escultura de Rebocho, reproduzida nesta página. O escultor tem vasta experiência na recuperação de praças em São Paulo, nem sempre reconhecida pelas sucessivas administrações da cidade. A exemplo do mineiro Amilcar de Castro, Rebocho promove a interação dos elementos vazios de sua escultura com o espaço circundante, resgatando a figura geométrica ausente nas bandeirinhas de Volpi.

Vale lembrar que o pintor resolveu a questão no espaço bidimensional, recorrendo a variações cromáticas. Também por isso o advogado Pedro Mastrobuono, diretor jurídico do Instituto Alfredo Volpi, pretende desenvolver um projeto de iluminação no parque que destaque esse diálogo formal e evoque o talento colorista de nosso maior pintor moderno, contando para isso com a ajuda do paisagista Marcelo Faiçal, parceiro de Rebocho na recuperação de cinco praças de São Paulo. 

Mastrobuono foi escolhido para, em nome da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), debater com integrantes da Câmara Municipal de São Paulo medidas de proteção ao meio cultural de São Paulo em face do Plano Diretor da cidade. Entre suas propostas, além da doação do monumento a Volpi, às expensas do Instituto Alfredo Volpi, estão a criação de uma creche em tributo aos esforços do pintor para sustentar 19 crianças adotivas em sua modesta casa do Cambuci, além da instituição de um prêmio com o nome do artista para iniciativas de desenvolvimento sustentável.

Como se sabe, Volpi foi pioneiro também nessa área. Artista independente, avesso a movimentos artísticos – a despeito de sua breve ligação com os artistas concretos – ele igualmente não aceitava depender dos fabricantes de material de pintura: fabricava as próprias telas (de linho rústico) e tintas com pigmentos de material orgânico e inorgânico trazidos de várias regiões do País por colecionadores de suas telas.

O monumento a Volpi, que terá quase cinco metros de altura com o pedestal, é uma versão ampliada de uma escultura de Rebocho exposta na primeira edição da feira Art Basel, em Miami, em 2002. O artista e advogado, de 68 anos, é também um ex-colecionador, que vendeu seu acervo há dois anos. Ele começou a esculpir nos anos 1990, sem intenções comerciais – “sempre sob influência de Volpi, que marcou toda a minha trajetória”. Ecologista de primeira hora, tentou fazer de pracinhas abandonadas lugares aprazíveis onde o paulistano pudesse conviver com a natureza e arte. Pagava do próprio bolso para funcionários cuidarem de praças como a Simon Bolívar, Califórnia e Debora Rebocho (mãe do escultor). O envolvimento com o parque Alfredo Volpi é também uma maneira de reafirmar seu compromisso com o meio ambiente. “Nem sempre os administradores municipais entendiam esse trabalho, chegando a me expulsar das praças”, conta.

Além do monumento, Volpi deve ganhar em agosto seu catálogo raisonné com mais de 4 mil obras, também iniciativa do Instituto Alfredo Volpi, que vai ainda publicar um outro livro, desta vez em homenagem ao crítico e colecionador de origem grega Theon Spanudis (1915-1986), cuja família fugiu de Esmirna, na Turquia, perseguida pelo governo local. Spanudis, psicanalista junguiano, chegou ao Brasil nos anos 1950 e se tornou um dos maiores divulgadores da obra de Volpi e de pintores como Judith Lauand e José Antonio da Silva.

Spanudis, pouco antes de sua morte, doou sua coleção de arte (mais de 300 obras) ao Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP). Entre as peças estão 22 telas de Volpi – o maior acervo público do pintor no Brasil. O crítico publicou o primeiro livro dedicado a Volpi e deixou um desses quadros para a Associação dos Amigos do MAC para que fosse vendido com o objetivo de custear um livro dedicado à coleção que deixou para o museu. A tela é um raro exemplar da fase concreta do pintor e participou da Bienal de Veneza de 1964. Hoje avaliada entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões, a pintura corria o risco de ser vendida para a edição do livro, segundo Pedro Mastrobuono. “A Associação dos Amigos do Museu de Arte Contemporânea, na pessoa de Roberta Matarazzo, nos procurou em busca de uma solução, para que a obra continue no acervo, e decidimos assumir a publicação do livro”, conta o advogado.

Tela rara do pintor não vai sair do MAC

Ao transferir sua coleção para o Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP), o psicanalista, crítico e colecionador Theon Spanudis deixou claro no termo de doação, segundo o advogado Pedro Mastrobuono, que uma das 22 telas de Volpi deveria ser entregue à Associação dos Amigos do MAC para bancar um livro sobre sua coleção. O processo de doação começou em 1984. Spanudis morreu em 1986. Pouco tempo depois, a doação foi finalmente formalizada e, desde então, a tela, raro exemplar da fase concreta do pintor, passou a integrar o acervo do museu, que, segundo Mastrobuono, não teria poderes legais para vender a obra, o que só seria viável se o MAC entrasse com pedido no Legislativo para tanto, uma vez que, legalmente, a obra pertence à associação de amigos do museu, não ao próprio, como as 21 telas restantes de Volpi.

Segundo a presidente da Associação dos Amigos do MAC, Roberta Matarazzo, quando Spanudis doou a obra, seu valor não era alto como hoje. “Há 30 anos, fazer um livro de arte custava mais que o preço da tela, mas a situação se inverteu e, atualmente, o valor da pintura cobre várias vezes a edição”, argumenta, justificando sua decisão de procurar o Instituto Alfredo Volpi para bancar o livro sem ônus para o museu, que vai ter a obra finalmente doada pela associação tão logo o Conselho da entidade der seu parecer jurídico sobre a transferência do quadro para o acervo permanente do MAC.

Há ainda outro entrave burocrático: o Conselho do MAC tem de aprovar a doação para receber a tela em sua coleção. O diretor do museu, Hugo Segawa, garante que é só uma formalidade. “Para nós é extraordinário manter a obra no acervo, pois em novembro pretendemos montar uma exposição com as obras da coleção Spanudis para comemorar seu centenário de nascimento”, conclui Segawa, esperando que a abertura da mostra coincida com a data de lançamento do livro do Instituto Volpi sobre a coleção do crítico e colecionador.

“Agora estou tranquila, mas fiquei inquieta com a possibilidade de levar a obra à venda”, revela Roberta Matarazzo. “Fico feliz por ter resistido ao leilão de uma tela cuja relevância museológica é atestada pelo próprio Instituto Alfredo Volpi”, conclui.

Enfrentando dificuldades financeiras também em razão da crise na Universidade de São Paulo, o MAC teve de cortar custos, mas não demitiu ninguém, segundo Segawa. No entanto, a direção do museu foi obrigada a cancelar duas mostras importantes programadas para o segundo semestre: a do artista sul-coreano Nam June Paik (1932-2006), pioneiro da videoarte, e do maestro alemão Hans Joachim Koellreuter (1915-2005), introdutor da linguagem serialista no Brasil e uma referência musical, mestre do compositor Tom Jobim, entre outros. “Não conseguimos captar o dinheiro necessário para as mostras”, resume Segawa.

Para publicar o livro da coleção Theon Spanudis, o Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna pretende fazer 40 reproduções da pintura do MAC, destinadas a colecionadores que colaborarem com a edição.

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