Viver em tempos mortos

Prezado Daniel,Desculpe incomodá-lo com um email que acho que será um pouco longo, mas li algumas coisas suas na internet sobre o assunto e senti vontade de lhe escrever. É que na quinta-feira retrasada fui ver essa excelente peça com a Fernanda Montenegro, Viver Sem Tempos Mortos, no Sesc Anchieta, e saí cheia de dúvidas e curiosidades. Para mim, que tenho 32 anos, Simone de Beauvoir era apenas mais uma daquelas feministas radicais que queimaram o sutiã nos anos 60, sei lá, e que hoje parecem mesmo do século passado. Eu achava que ela fazia parte daquela mulherada feia e mal-humorada que dizia que os homens eram dispensáveis, a maternidade uma prisão, o amor uma conspiração para nos manipular. Depois de vê-la reencarnada na Fernanda Montenegro, fiquei tão intrigada que passei a semana seguinte lendo febrilmente O Segundo Sexo, numa edição nova que comprei numa livraria na manhã seguinte. O livro é enorme, bem mais chato que a peça, mas me fez pensar e ver que Simone não era bem aquilo.Para ser direta, morri de inveja dela! Primeiro, porque, ao contrário da lenda, a vida dela girou bastante em torno dos homens. O monólogo mostra isso. Ela amou Sartre, eu diria até idolatrou, do primeiro momento em que o viu até o último instante de vida dele. E, apesar da relação bem menos convencional, ela dizia viver "em família" com ele e, como em tantas casas, teve uma vida erótica apimentada no começo que foi esfriando com o passar do tempo. Aí ela conheceu um sujeito bem diferente do Sartre, que era um desses franceses feiosos que falam difícil; o sujeito era um escritor americano, Nelson Algren, de quem eu nunca tinha ouvido falar. E ela disse que só com ele teve orgasmos de verdade, um prazer no sexo que não tinha muito a ver com admiração intelectual, e sim com maneiras, cheiros, químicas, sintonias. Acho que sei um pouco o que é isso, mas só um pouco. Feliz da mulher que teve as experiências amorosas que Simone teve!Também senti inveja dela, claro, quando falou dos tais "romances contingentes", o que a gente hoje chama de "sexo casual", expressão bem menos charmosa. Ela e Sartre tinham vários outros casos, ela inclusive com outras mulheres, e ambos consentiam nisso, embora ela diga que os dois sentiram ciúmes e brigaram várias vezes. Muitos pensam que minha geração é mais liberal, que não tem a mesma paranoia com fidelidade, mas você sabe, Daniel, que não é bem assim. Nos tempos de colégio e faculdade, é verdade, desencanamos mais... Só que no fundo fica sempre aquele medo, aquela vontade de que fosse diferente, de que aquele cara tão atraente não tivesse compromisso nenhum. Mulheres têm menos senso de aventura? Parece que nosso "chip" já vem com uns comandos, do tipo "não retribua elogios, no máximo agradeça" ou "saia pelo menos três vezes antes de transar". Aí vem uma cena de sexo como essa maravilhosa do filme Desejo e Perigo, do Ang Lee, e até os moderninhos se mostram caretas.Às vezes fico pensando que uma história que dure pouco, algumas saídas que sejam (e "os que olhos não veem", etc.), pode marcar tanto quanto o felizes-para-sempre; pode ser uma tatuagem na memória sexual e afetiva que só quem viveu enxerga. Simone não era contra essa educação, ou melhor, essa pressão social para que mulheres busquem relações "eternas"? Outro dia vi na TV uma matéria sobre um movimento dos "sem namorado", com pessoas ansiosas porque não têm sua "cara-metade", "metade da laranja" ou sei lá o que mais - e na maioria eram mulheres. Nesta semana teremos o tal dia dos namorados, uma data inventada pelo comércio; todos os restaurantes ficam lotados e ai de quem ficar sozinho nessa noite. Me pergunto o que Simone e Sartre diriam disso. Ou dessas mulheres - e cada vez mais homens - que claramente se aproximam dos outros em função da riqueza ou do status. Basta ser famoso e o "romance contingente" fica fácil, fácil...Mas ainda não falei do que me deixou mais angustiada. Não foi apenas a vida amorosa dela ou deles, mas a vida, ponto. Ou sua filosofia de vida, como se diz. Eram tempos muito mais interessantes! Fiquei sabendo, por sinal, que recentemente tiraram o cigarro da mão de Sartre na foto de capa de um catálogo na França. Eu não fumo, mas... eta mundo chato! Naqueles tempos eles - homens e mulheres - iam para os cafés e ficavam conversando horas e horas sobre todos os tipos de coisas, das mais mundanas às mais abstratas. Ideias, eles trocavam ideias! Simone, na peça, fala sobre o vasto mundo que Sartre abriu para ela. E isso era o mais importante, entende? No livro, ela fala sobre essa preferência dos homens pelas mulheres sorridentes e submissas, que falem pouco, sobretudo com outros homens. Hoje isso mudou um pouco, mas as relações continuam a se bastar nas superfícies, quer durem dois meses, quer durem duas décadas. As mulheres, por exemplo, valorizam humor nos homens, mas não nelas mesmas. Às vezes acho que nós vivemos em tempos mortos.Simone me fez ver que é preciso se abrir intelectualmente e sexualmente, mesmo que seja com uma única pessoa. Sim, vejo os muitos defeitos dela, como essas contradições entre sua defesa do feminismo e o papel dominante dos homens em sua vida. E há o fato de que não teve filhos. Eu quero muito ter filhos porque acho que é esse tipo de experiência que as doutrinas de Sartre ou de quem quer que seja não conseguem substituir e nem mesmo explicar. E não porque sou mulher: isso vale também para os homens. É que os existencialistas como Sartre e Simone, pelo que pude ler até agora, faziam pouco caso dos tais "condicionamentos biológicos", do instinto maternal e paternal. Mas esse é outro assunto e não muda o fato de que, apesar de tudo isso, Simone foi, sim, uma mulher livre, independente, com opiniões próprias, com autonomia - tanto que tomou a iniciativa com Algren.Ah, na livraria, naquele mesmo dia, comprei um livro de cartas de amor, você leu? O título é Para Sempre. São 50 cartas trocadas por pessoas como Voltaire, Chopin, Kafka, Fernando Pessoa. Só tem duas cartas de mulheres e, ainda por cima, uma delas é o bilhete de suicídio de uma esposa de samurai do século 17... Mas a maioria é melosa, boba demais, inclusive a da Katherine Mansfield. Só gostei do seu admirado Machado de Assis dizendo para Carolina que ela pertencia "ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir e pensar". Ele podia; afinal, ele também pertencia ao pequeno número de homens que ainda sabem amar, sentir e pensar. Pensei, aliás, em dar esse livro de presente para meu namorado no dia 12. Mas desisti; prefiro convidá-lo para conversar em algum café. Você não acha melhor?Me desculpe pelo desabafo, obrigada, Norma.DE LA MUSIQUEO CD da Sinfonia nº 2 de Brahms regida por John Eliot Gardiner é um marco não apenas pela interpretação dessa obra, mas também da Rapsódia para Contralto do compositor com a voz de Nathalie Stutzmann. Ela também é acompanhada por orquestra e coro em três peças de Schubert, duas delas arranjadas por Brahms. Gardiner recorre a uma expressão do argentino Jorge Luis Borges, "fogo e cristal", para descrever a sinfonia, num rigoroso colorido de toques pastorais que se relaciona diretamente com suas obras para voz. Indispensável.Para fazer Miramari, o pianista André Mehmari e o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi se juntaram no estúdio da casa do brasileiro e formaram por alguns dias um duo que tem o carinho da gravação caseira e o perfeccionismo de dois profissionais. O CD traz canções instrumentais de Mehmari, mais três de Mirabassi e duas de Guinga com parceiros. São valsas, chorinhos e outros ritmos da tradição brasileira interpretados com moderna sofisticação.POR QUE NÃO ME UFANONão é apenas a instituição de um terceiro mandato que faria mal à democracia; falar tanto nele também faz. Lula já se cansou de dizer que não quer nada disso, até porque - como raposa política que é, muito mais esperta que o tucanato acadêmico - sabe que vai sair com altíssima popularidade em 2010, o que o desgaste da outra hipótese jamais compensaria. Alguns oportunistas insistem em ameaçar com a proposta de tempos em tempos. Mas é óbvio que para "o cara" isso só ajuda, já que implica que o segundo mandato nem entre em discussão. Repito: o terceiro mandato que interessa a Lula é a eleição de Dilma. Então vamos mudar de assunto, OK? Aforismos sem juízoSó quem dorme bem pode desfrutar de uma insônia.

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