Viver a música

O compositor santista Gilberto Mendes, sempre ligado à vanguarda musical do País, lança livro que é misto de memórias, relatos de viagens e reflexões sobre sua arte

Luiz Zanin Oricchio e João Luiz Sampaio, SANTOS, O Estadao de S.Paulo

28 de fevereiro de 2009 | 00h00

"Ele é ele, e pronto!" O compositor santista Gilberto Mendes está se referindo ao colega russo Igor Stravinsky, mas poderia muito bem estar falando de si próprio. Como classificar sua atuação na música brasileira do século 20? É certo que foi um dos nossos principais nomes de vanguarda, ajudando a redefinir por aqui a ideia de música não apenas com sua produção, mas também com a realização, ao longo de quatro décadas, do Festival Música Nova. Em suas composições, conviveram desde o experimentalismo mais radical até o lirismo embalado pelo jazz norte-americano. Mas o fato é que não há escola em que se possa encaixar seu trabalho. Gilberto Mendes é Gilberto Mendes. E pronto.A mesma sensação se tem na leitura de seu novo livro, Viver Sua Música - Com Stravinsky em Meus Ouvidos, Rumo à Avenida Nevskiy (Edusp/ Realejo, 373 págs., R$ 55). Misto de memórias, relato de viagens e reflexões sobre a música, é a cara de seu autor, alternando com naturalidade passado, presente e considerações sobre o futuro da composição musical. Na entrevista a seguir, feita em seu apartamento em Santos, cidade que não troca por canto nenhum do mundo desbravado por sua obra, ele fala sobre o livro, relembra a juventude e define os caminhos atuais de sua produção. SANTOS... O COMEÇO DE TUDO"Eu vivia no Parque Balneário Hotel, tinha uma boate, coisa de sonho. O pianista que tocava era o Robledo, que veio ao Brasil com uma orquestra argentina. Nesse tempo os argentinos faziam música melhor que nós. Ficaram aqui uns dois anos. O Robledo era um pioneiro daquele estilo moderno de piano, um piano muito gostoso, com uma harmonia mais impressionista. E tinha o Stan Kenton. O pai do Roberto Sion morava aqui perto, na Avenida Washington Luiz, e ficou sabendo que o navio do Kenton ia parar em Santos. Era engraçado isso. Numa dessas, o Clark Gable desceu do navio, pegou o ônibus e foi a São Paulo. A mãe de uma amiga da minha irmã chegou em casa contando que viajou do lado de um homem bonito e que todo mundo ficava encarando. Era ele, e isso nos tempos de E o Vento Levou... Mas o Stan Kenton passou na casa do Sion e explicou sua técnica de piano. Essas histórias ficaram, ajudaram a me formar." ERA DO RÁDIO"A memória está muito presente na minha música, mas não só na minha. É que vivi coisas muito especiais, são memórias fortes. Imagina que conheci o Tommy Dorsey aqui no Clube XV, lá no Gonzaga. Foi em 1953, era uma noite quente, jantar dançante. Fui muito influenciado pela música americana, desde criança. Eu fui educado pelo rádio, por programas de música erudita. Era gostoso aquilo, ficar na sala ouvindo Beethoven. A gente ouvia muito rádios argentinas, a Rádio Província, a Rádio Municipal de Buenos Aires. Mas só pegava bem mesmo era de noite, deve ter algo a ver com a atmosfera. Minha mãe ficava comigo, adorava também. Na Semana Santa, a rádio Gazeta transmitia a Missa em Si Menor de Bach, gravação da Sinfônica de Londres com regência de John Barbirolli. Mas eram dois dias, a peça era longa. No Natal, era o Messias. Quando meu pai morreu eu tinha 4 ou 5 anos, era o caçulinha da família, então minha mãe ficava muito comigo, me levava a concertos, cinema."NO PRINCÍPIO, O PIANO"Eu não ia ser músico. Comecei a cursar o pré-jurídico no Largo São Francisco. Fiz dois anos, mas passei muito mal. Eu sofro de asma e São Paulo é ruim para gente assim. E também naquela época comecei a fumar um pouquinho, o que não ajudava. Até que o marido de uma de minhas irmãs, que era advogado em Santos, me disse: o que você está fazendo em São Paulo? Você não percebeu que é músico? Voltei para Santos e entrei no conservatório. E estudei com a grande pianista Antonietta Rudge. Ela costumava dar aulas só para os últimos anos, mas acho que simpatizou comigo. Mas aí a vida foi ficando mais difícil, precisava ajudar minha mãe. E também já estava velho para ser pianista, tinha 19 para 20 anos: para ser compositor dava, mas, como pianista, estava atrasado. E, no piano, o que eu gostava mesmo era de ficar inventando minhas coisas."BANCÁRIO"Eu precisava trabalhar e fui ser bancário. Prestei concurso na Caixa Econômica e entrei. Eu pegava aquelas notas de empréstimo, de financiamento de casa, e ficava rascunhando atrás, fazendo anotações, escrevendo ideias musicais. Teve até uma aluna da PUC que fez tese sobre minhas anotações bancárias (risos). Fui bancário a vida toda, 34 anos, mais um de licença prêmio, e me aposentei. Meu melhor ordenado ainda é o que ganho como bancário aposentado." MOVIMENTO COMUNISTA... E UMA DANÇA COM CACILDA"A Rússia desde cedo era para mim aquele sonho maravilhoso que infelizmente fracassou. Santos, aliás, tinha um movimento comunista muito forte, era conhecida como Porto Vermelho. Tinha uma metade com cabeça bem aberta e outra provinciana, rançosa, que é quem domina a cidade hoje, aliás. Foram vários movimentos, o nosso de música, mas tinha também de teatro, grande parte dos atores brasileiros saiu de Santos. Eu fui colega de classe da Cacilda Becker, ela queria ser bailarina. Lembro que fui dançar com ela uma vez no cassino da Ilha Porchat. Também dancei com a Pagu (risos). O grupo do Paulo Autran e do Adolfo Celi veio para Santos e a gente, depois da peça, foi no Monte Serrat, onde dancei com Pagu. Dançava bem a Pagu, sabia? E eu não era mau bailarino, não (risos). Tive momentos deliciosos com essa turma do teatro naqueles tempos em que acabara de voltar a Santos, mas eu era muito recatado, tinha 19, 20 anos. Fomos uma vez à Ilha Porchat e eu pedi um copo de leite! Morreram de rir de mim, ficavam jogando bebida no meu leite." ENCONTRO COM A VANGUARDA"Comecei a estudar música não só meio tarde, como também durante a 2ª Guerra. Foi uma época em que a vida cultural ficou meio paralisada. E eu, morando em Santos, estava isolado. Minha fonte de aprendizado era uma revista chamada Vamos Ler, do Rio. Lá escrevia um cara de nome esquisito, H.J. Koellreutter, compositor europeu que tinha fugido da guerra para o Brasil e trazia muita novidade do que era feito por lá. Eu sempre gostei do moderno, acho esse termo mágico, é um nome dos anos 20. Tinha um livro de um musicólogo chamado Adolfo Salazar no qual ele explicava a música moderna, falava de um tal de acorde místico de Scriábin ou de um acorde rotacional de Schoenberg. Eu olhava aquilo e aprendia muito. É interessante, quando ninguém te ensina, você acaba tendo que inventar algumas coisas. E assim eu fui seguindo."BRIGA COM OS NACIONALISTAS"Eu não tinha nada contra o Camargo Guarnieri, até tentei estudar com ele quando cheguei em São Paulo, mas não consegui. Na verdade, sou autodidata por falta de opção mesmo, mas acho que isso foi bom. O Guarnieri tinha uma personalidade muito forte, depois era aquela luta para se livrar dessa influência, é só perguntar para o Almeida Prado. O Koellreutter também era forte, queria me marcar muito, mas acabei escapando. Pessoalmente, não tinha nada contra o Guarnieri, mas ele era o líder dos nacionalistas e eu fazia parte de uma turma que achou necessário firmar uma posição contra a hegemonia da música dele, que dura até hoje, eu acho. Aí lançamos o Manifesto Música Nova e começou a discussão na imprensa. Toda vanguarda é agressiva, polêmica, quebra o pau e eu me liguei a gente muito agressiva. Mas fiz pouco nessa linha e me arrependo do que fiz. Não acho que só eu tenha razão, eu estava ligado à vanguarda mas não tem essa coisa de grupo. Eu virei amigo do Osvaldo Lacerda, que mantém até hoje essa linha do Guarnieri. Ele me manda cartão de Natal."

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