''Vivemos de mentiras essenciais''

Em seu segundo romance, Pássaros de Vôo Curto, Alcione Araújo cria personagens que romantizam a história recente do País

Entrevista com

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

10 de setembro de 2008 | 00h00

Entre março de 2003 e novembro do ano passado, o escritor e dramaturgo Alcione Araújo entregou-se a um projeto ambicioso: costurar a trajetória de personagens diversos que viveram no Brasil nos séculos 19 e 20 e, por isso mesmo, se confundiram com importantes momentos históricos. O desafio, na verdade, era ainda maior - sem controle do narrador, a trama se compõe de uma série de capítulos que viajam pelo tempo. Assim, do período pós-ditadura militar (anos 1980), o leitor é transportado, apenas com a mudança de um parágrafo, para a modernização da corrida do ouro em Minas Gerais, no longínquo século 19. O resultado é um livro audacioso e caleidoscópico, Pássaros de Vôo Curto (420 páginas, R$ 52), recém-lançado pela editora Record.Aparentemente complexa, a obra se impõe como uma prazerosa novela graças à riqueza de seus personagens, como o engenheiro britânico George Chalmers, que chega ao Brasil no momento em que Belo Horizonte cresce e se prepara para assumir a sede do governo mineiro; ou a cantora lírica Diva Bustamante que, no comando da caravana, carrega sua dama de companhia Orlanda, o motorista Zé Bolero e o pianista Ralph Conway para o interior do País, todos viajando no estranho veículo 14 Bis, misto de ônibus e trailer. Na verdade, Pássaros de Vôo Curto tem a forte dramaticidade de uma ópera, como as cantadas por Diva, como revela Alcione Araújo na seguinte entrevista. Ele, aliás, conversa com o público e autografa o livro no Sesc Vila Mariana, a partir das 19h30.Os personagens do livro são complexos. Eles surgiram para cumprir o enredo ou a trama se moldou a partir dos personagens?A idéia não me ocorre inteira e acabada. Às vezes, surge pálida e trêmula, apenas imagem turva e abstrata, ou um sentimento difuso, porém, sempre povoada de personagens - estes, sim, me ocorrem um pouco mais definidos. Nunca parto com verdades acabadas para demonstrar uma tese. Com a isca inicial, jogo o anzol n?água cheio de expectativas, mas não sei o que vou pescar. Quando acho que fisguei uma piaba, assoma um tubarão. Ou o contrário, a montanha parteja e nasce um rato. É como vôo sem rota, ou navegação sem radar - vem daí a graça e a emoção da aventura de escrever. Por isso, não costumo começar pelo enredo. Primeiro surgem as personagens, que crescem, se exibem e me seduzem. Se me rendo aos seus encantos, caprichos e contradições, elas me possuem. Desse amor, que se desdobra lentamente na escrita, elas ganham vida própria: são elas, e estão em mim, são fulgurações minhas. Cada uma é uma, mas em cada uma o processo se repete. Quando partem para realizar seus desejos é que surgem vestígios de enredo. Elas vão se amoldando à história e a história se ajustando a elas. Por isso nunca sei qual é o tamanho da história, nem quantas páginas terá o livro, mas sei a hora que terminou, que tudo está dito e não há mais nada a acrescentar. No caso de Pássaros de Vôo Curto, eu tinha um engenheiro inglês, que chega ao Brasil no fim do século 19, e uma cantora de ópera brasileira da segunda metade do século 20. Entre eles, um século e a possibilidade de um romance.O passar do tempo é um elemento importante em sua obra, especialmente nesse livro. Por quê? Tenho uma questão pessoal com o tempo. O romance anterior, Nem Mesmo Todo o Oceano, de 800 páginas, é contado num encontro de 15 minutos num banheiro coletivo, e narra o percurso de uma vida, quem sabe até mais... Não sei explicar, mas o implacável fluir do tempo, que não se define nem existe, não obstante, flui, desloca-se no sentido contrário do refluir da memória. Sinto-me aniquilado com esse paradoxo: tudo o que sou é constituído de passado, um passado predisposto a se lançar ao futuro. Porém, tudo o que tenho é o presente, intangível e fugidio - mal conclui essa frase, e ela já se amontoa no passado. E o futuro não é uma certeza, é apenas uma possibilidade. Isso me provoca surtos irracionais de inconformismo ocioso e suicida. Além disso, a memória não é linear nem uniforme. Claro que a experiência de escrever roteiros de cinema me deu uma certa liberdade para comprimir e dilatar o tempo, facilitando com que se contemple um século em pouco mais de 400 páginas.Também a mentira parece ser uma condição essencial para o existir. Falar em mentira exige de imediato falar de verdade, que é inacessível. Restam-nos as migalhas das versões. Posto de outro modo, vivemos muitas mentiras, que são essenciais. O esquecimento é uma suave mentira que move a vida: nos esquecemos de que vamos morrer porque a espera da morte nos paralisaria. Também esquecemos quem somos: me sepulto nos meus recônditos tão profundamente que preciso de um psicanalista para ajudar a me desenterrar. Se me olho ao espelho e pergunto quem sou eu, não consigo responder. Quando Édipo quer saber quem de fato é, Sófocles o pune com o horror trágico. A cultura social me impõe papéis que são mais necessidades dela do que minhas, e eu os represento. A ficção é uma mentira que o meu imaginário quer acreditar porque, insatisfeito na moldura estreita da minha vida pessoal, quero ser muitos outros, adquirir vivências do que não vivi nem viverei. Enfim, no limite, a vida é um constructo da cultura - apenas o nascimento e a morte são realidades, e há controvérsias sobre a existência de uma essência humana: somos superposições de camadas como cascas de cebola.As palavras fazem mover as coisas? As palavras são perigosas? O que move as coisas é o desejo humano. Arquimedes disse que com uma alavanca e um ponto de apoio move-se o mundo. As palavras são a mais extraordinária criação humana, criação coletiva, atemporal e universal, e, no entanto, não são mais que uma convenção. Bela, genial e útil convenção que, na linguagem, como quer Wittgenstein, delimitam o mundo apreensível. Ou como quer Roland Barthes: o que não sei verbalizar, ainda não sei. Mas as palavras são vazias: como cacos de vidro transparente, têm a cor do ambiente e o valor que lhe atribui quem olha, mas são perigosas porque podem cortar e sangrar. Mas, a despeito de tudo, as palavras não são um fim, são um meio.A julgar por esse livro e comparando-o ao anterior, é possível dizer que você se tornou mais cético? Entre os dois, escrevi filmes, peças de teatro, ensaios, artigos e crônicas. Vivi alegrias e dores, perdas e ganhos, e aprendi: a vida é um enigma, uma dádiva sagrada a ser celebrada. O romance anterior exala o inconformismo de quem teve a primavera da vida nublada pela ditadura, e o ideal do país justo adiado. Em Pássaros de Vôo Curto, o escritor pega as personagens pela mão, e olha o horizonte: os pássaros não voam quanto querem, mas quanto podem. Fiquei mais cético quanto ao homem, mas tenho mais compaixão por ele. Somos frágeis e erráticos. A consternação pelo absurdo da morte não pode tirar a alegria de viver, nem eliminar momentos de plenitude. O poder é provisório, o sucesso, temporário e a vida, precária. Mas o amor, a amizade e a arte são eternos. TrechoDepois da terceira ou quarta dose, Ralph põe o copo à direita do teclado e, meio ausente, dedilha acordes que parecem aleatórios, até que, atraído, se senta. Parece que, sentado ali, todas as suas histórias se encontram e, sem ganhar nitidez, vagam misturadas, criando emoções confusas que buscam formas para se expressar (...) De olhos fechados, entrega-se de corpo e espírito à música, enchendo o ambiente de acordes pungentes. Suas mãos parecem movidas pelo coração.ServiçoAlcione Araújo. Sesc Vila Mariana (131 lug.). Rua Pelotas, 141, telefone 5080-3000. Debate hoje, às 19h30. Grátis

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