Vivacidade em vez de didatismo e duas atrizes que se embelezam em cena

Existem filmes pequenos, independentes, que conseguem furar o bloqueio do cinemão e viram êxitos inesperados. Alguém Que Me Ame de Verdade é perfeito para exemplificar a tendência. Nos EUA, foi descoberto pela crítica e ganhou uma projeção que parecia impossível para uma produção feita com tão pouco dinheiro. Para o espectador brasileiro, que vai ver Alguém... em meio aos noticiários de TV e jornais sobre a atual escalada de violência no Oriente Médio, poderá até parecer uma fantasia - um moderno conto de fadas.Stefan C. Schaefer e Diane Crespo são documentaristas. Cercaram-se de cuidados para contar sua história da maneira mais verdadeira possível. "Nos aproximamos de nossas personagens com o mesmo respeito e preocupação pelo detalhe como se fosse um documentário. Ficção ou documentário, o importante é que as pessoas existam na tela" - eis aí uma boa definição sobre as fronteiras entre ambos, feita pelo codiretor. Duas garotas, uma judia ortodoxa, a outra muçulmana, tornam-se amigas. A mãe da garota judia parece mais antipática e chega a pedir à filha que mande embora a colega, sob pena de isso produzir comentários desfavoráveis da vizinhança que se reflitam na busca, em que a família está empenhada, de um noivo para ela.Todos os encontros de Rochel, a garota judia, com seus pretendentes são muito divertidos. As reações de ambas à interferência da diretora da escola podem apontar para um certo conformismo da dupla de diretores (e das próprias protagonistas). O aluno cego é quem vê melhor. A sutileza da construção está na forma como as heroínas viram o jogo e usam a tradição a seu favor. Alguns críticos andaram rotulando o filme como ?didático?. Simples questão de ponto de vista. O tal didatismo, como a tradição, é quebrado pela vivacidade do relato - e do elenco.O primeiro pretendente de Rochel é tímido de doer. O segundo entra pela casa como um furacão. Numa cena, o espectador compartilha o desconforto de Rochel quando acompanha a prima que se afastou da família na festa. Algumas pessoas são revolucionárias, outras, reformistas. E existem as que pregam o diálogo. Schaefer e Diane respeitam isso. Francis Benhamou, que faz Nasira, é linda desde sua primeira aparição. Zoe Lister Jones, a Rochel, faz-se cada vez mais bela em cena. As duas merecem ser amadas de verdade.

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