Viva la Vida e a habilidade pop

Coldplay e Brian Eno enchem novo CD de cobertores felpudos de guitarras, órgãos, violinos e pérolas

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

09 de junho de 2008 | 00h00

Na tarde de sexta-feira, uma das maiores bandas de pop rock da atualidade, a britânica Coldplay, abriu inteiramente seu novo disco, Viva la Vida or Death and All His Friends (EMI) para que os fãs pudessem ouvir na internet. É a segunda banda-colosso que toma atitude semelhante - a diferença é que os também britânicos do Radiohead fizeram isso para vender música diretamente ao ouvinte, e os Coldplay apenas deixou que ouvissem tudo antes mesmo de o disco chegar às lojas.Tudo aponta para uma mudança de atitude em relação ao comércio da música - a internet agora sendo vista como uma aliada, e não mais como inimiga. O lançamento chega três anos depois de o Coldplay ter lançado um dos discos de maior sucesso planetário da década, X&Y.Mas o que se espera agora é uma avaliação crítica do novo álbum do Coldplay, e o que se pode dizer, de antemão, é que Viva la Vida é um agradabilíssimo disco de pop rock, um fruto da árvore mais generosa da música popular.A produção é de Brian Eno, um dos cientistas malucos da música pop desde os anos 1970. O título e os grafismos do álbum, que fazem referência à revolução francesa e à pintora mexicana Frida Kahlo, lembram também um álbum antigo dos Pretenders, Viva el Amor! (1999).O álbum abre com um tema instrumental, Life in Technicolor, que cria um clima meio que para purificar o ar do salão. Nada muito envolvente (o grupo americano The Killers fez uns intros bem mais legais em seu disco Sam''s Town). Logo a seguir, a banda entra direto com um som levemente funky na batida, folk na alma, mais inquieta, em Cemeteries of London.As faixas parecem carregar deliberadamente sabores de bandas pop bem-sucedidas ou menos famosas do passado. Por exemplo, a abertura de Lovers of Japan/Reign of Love parece evocar diretamente algo do Dexys Midnight Runners e do pop oculto dos anos 1980. Já a faixa Yes, aquecida por um cobertor felpudo de guitarras, brinca com instrumentações clássicas. Foi inspirada pela banda climática Goldfrapp, e o ouvinte saberá imediatamente qual é a conexão.Há momentos mais breguinhas, como em Lost, cuja cadência é repetitiva, os vocais e coros e o órgão de igreja são enfadonhos. Violet Hill, não por acaso, foi a faixa que a banda liberou mais cedo, no MySpace, e é realmente uma das melhores do grupo, tremendamente relacionada com o universo lennoniano. Mas perde para 42, essa sim a mais forte do disco.Para quem lembra, 42 foi a resposta que o supercomputador construído no livro O Mochileiro das Galáxias, deu para a pergunta ''qual é o sentido da vida?'', após passar séculos pensando. Brian Eno não peca pelo excesso, embora use muita coisa nas músicas - em Viva la Vida, por exemplo, deliciosos violinos emolduram o som.Certo que o universo de referências intelectuais de Chris Martin, o cantor e compositor do Coldplay, é um tanto esquizofrênico. O título remete à pintora mexicana Frida Kahlo, mas é difícil entrever a aproximação entre um mundo e outro.Mas é fácil saber se o disco funciona: coloquem para tocar ele inteirinho durante uma viagem, por exemplo, pela rodovia Carvalho Pinto, em direção às serrinhas de Campos do Jordão. Não vai ter nem como trocar, é trilha perfeita. Vocês vão encontrar uns dois ou três desmancha-prazeres que vão dizer que bom mesmo é o grupo Man or Astroman, mas não deixem de ouvir o Coldplay só porque ele faz sucesso. Eles têm mesmo boa mão para a coisa.

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