Vitus retrata as dificuldades de ser uma criança prodígio

Filme suíço de Fredi M. Murer mostra os problemas das crianças precoces quando as expectativas sobre elas são excessivas

Luiz Zanin Oricchio, O Estadao de S.Paulo

12 de março de 2009 | 00h00

Vitus é um garoto superdotado. Faz contas como um Malba Tahan e toca piano como um pequeno Glenn Gould. Mais tarde se mostrará capaz de especular na bolsa como um George Soros. Mas o que ele deseja mesmo é brincar com o avô meio maluco (Bruno Ganz), um marceneiro fixado em aviação. Vitus pode também tentar ser um Ícaro e isso será sua desgraça, ou a sua salvação. Interessante, esse filme suíço sobre o menino prodígio. O diretor Fredi M. Murer opta pela simplicidade, faz um trabalho simpático e tenta contrariar alguns estereótipos em relação a essas crianças especiais. Assista ao trailer do filme VitusVitus (Fabrizio Borsani, depois Teo Gheorguiu) tem todos esses talentos, mas no fundo é apenas um garotinho, com desejos bastante simples. Vive oprimido pelo excesso de expectativas que os pais, em especial a mãe, depositam sobre ele . Tudo o que almeja é um pouco de paz, e de sonho. Na família, apenas o avô tem o equilíbrio suficiente para dar ao menino aquilo que ele necessita. Como trama paralela, corre uma certa crítica à sociedade contemporânea, cujos valores supremos são o lucro e o sucesso. Sim, sempre iremos encontrar quem os defenda e acuse os críticos de passadistas, "românticos" ou coisa que o valha. Em especial quando a história se ambienta em país tão desenvolvido, com um índice de bem-estar capaz de causar inveja aos vizinhos europeus. Essa trama fala do pai, que trabalha numa grande empresa mal das pernas e vê seu emprego ameaçado por outro executivo ambicioso. Coisa de adultos. O outro estereótipo que o filme procura desfazer é o que considera essas crianças como seres insuportáveis. Millôr Fernandes dizia que não existe nada mais chato do que criança precoce e velhinho assanhado. O superdotado seria um precoce levado à enésima potência. Mas nem por isso Vitus é um chato. Pelo contrário. Apesar dos seus problemas, parece uma criança adorável. Chato mesmo é o mundo ao seu redor. O filme não tem nada de mais; mas talvez nada de menos. Murer filma de maneira ok, talvez um tanto limpinha a mais para certo gosto. É um cinema sem erros, mas que também passa ao largo dos acertos, pois estes se fazem sempre em zona de risco, de turbulência. E o que Murer não faz é se arriscar. Tudo é luminoso, higiênico, sem deixar de ser agradável. Bom filme, mas não deixa lá muito resíduo no espectador. ServiçoVitus (Vitus, Suíça/2006, 100 minutos.) - Drama. Direção Fredi M. Murer. Livre. Cotação: Bom

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.