Vitrines de paradoxos

Em tempos de ?receshionismo? evento sustenta ideia original de felicidade

Lilian Pacce, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

Esta edição da São Paulo Fashion Week, com os lançamentos para o outono-inverno 2009, colocou na vitrine alguns paradoxos da moda. O tema inicial era Felicidade. Veio a crise, o evento logo se adaptou ao receshionismo (fashionismo de recessão) e lançou o tema Brasileirismos, que mantém implícita a ideia original de felicidade e alegria e que pontuou a cenografia da Bienal durante uma semana.Aliás, as quatro salas de desfiles montadas na Bienal nunca estiveram tão concorridas já que as marcas optaram por cortar custos com locações externas e também com grandes cenários. A maioria dos desfiles se valeu de pequenos recursos cênicos usando basicamente passarelas em preto ou branco.Enquanto bolas coloridas e com o símbolo do Smiles pululavam nos corredores da Bienal, nas salas havia uma ode à monocromia. Além das passarelas neutras, os estilistas mostraram coleções também neutras e mais sóbrias, onde a primazia do preto era ameaçada apenas por cinzas, beges e brancos.Celebridades na primeira fila à parte (como Alice Braga, Deborah Secco, Fernanda Lima, Larissa Maciel e Reynaldo Gianecchini, entre outros), a crise jogou todas as luzes em um único ponto: a roupa - o que indica um bom sinal de amadurecimento do mercado.Com isso, muitos estilistas resolveram mostrar o que são essencialmente, e mergulharam em seu universo com muita cautela: Lino Villaventura, Gloria Coelho, Dudu Bertholini e Rita Comparato (Neon), por exemplo. Outros foram mais atrevidos nesse mergulho, como Oskar Metsavaht (Osklen), o coletivo Oestudio, Isabela Capeto, Alexandre Herchcovitch, Huis Clos, as meninas da Amapô, a 2nd Floor, Reinaldo Lourenço e a Forum de Tufi Duek.Mas ninguém ousou tanto quanto Ronaldo Fraga, indo na contracorrente com a coleção Tudo É Risco de Giz. Se o SPFW se conteve nos cenários, Ronaldo teve o mais "rico" deles, colocando na passarela sonhos que mesclam passado e futuro representados por grandes marionetes do teatro de bonecos Giramundo. E se a beleza esperada num desfile são grandes tops e new faces-revelações, Ronaldo subverteu os padrões e colocou idosos (e crianças) como modelos. Idosos de 65 a 90 anos, cada um com seu estilo, seu andar e sua dignidade. Usavam sapatilhas-camisa, paletós de lã natural (sem tingimento), leggings esburacadas e vestidos soltos bordados com flores de linha ou com relógios que parecem um grande despertador contra o tempo. Um tempo que insiste em apagar rugas e congelar expressões como se todos tivéssemos de ter eternamente 18 anos. Ao lançar moda para velhos, ao individualizá-los, Ronaldo lança um paradoxo pós-moderno-fashion.

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