Visão portuguesa sobre um invasor

Napoleão Bonaparte, de Lúcia Bastos, apresenta pesquisa primorosa sobre um tema mais sugerido do que investigado

Lilia Moritz Schwarcz, O Estadao de S.Paulo

06 de dezembro de 2008 | 00h00

Em 1810, Thomas O?Neil, tenente da esquadra que levou d. João e sua família à distante colônia portuguesa na América, legou relato dramático, tendo dois objetivos expressos: elevar o caráter heróico dos feitos britânico e denunciar o perfil "vil" dos franceses e, mais especificamente, do "ogro da Córsega": Napoleão Bonaparte. No entanto, por ter sido transferido logo na partida, O?Neil só rumou para o Brasil muito depois dos regentes. Ou seja, o tenente nem acompanhou o príncipe, e muito menos desembarcou em Salvador; foi direto para o Rio de Janeiro. Mas o que mais importa é atentar para a descrição opositiva que estabelece entre os ingleses e os franceses, mesmo não tendo presenciado tais acontecimentos. Enquanto a Inglaterra representaria os bons espíritos do Ocidente, já a França personificaria o próprio inferno instalado no coração da Europa.E O?Neill não estaria só. Em Portugal, depois de junho de 1808, quando finalmente d. João decreta guerra contra a França, novas imagens formam-se sobre a terra do Iluminismo. Em vez das luzes, agora são as chamas que se colam à definição desse país, e em especial de seu dirigente. Na verdade, paira certa ambivalência no imaginário político da época, marcado por duas imagens opostas. Entre o herói libertador, ou o déspota tirano, até hoje as paixões se dividem.É por isso que neste ano de celebração da chegada da Família Real é muito bem vinda uma obra que se afasta do coro monocórdio. Se a maior parte dos estudos vem se voltando para os feitos de d. João no Brasil, vale a pena olhar um pouco mais longe e perceber como a política portuguesa não ficou suspensa, aguardando a resolução das coisas por aqui. Em Napoleão Bonaparte: Imaginário e Política em Portugal, Lúcia Bastos apresenta pesquisa primorosa acerca de um tema até então mais sugerido do que investigado. Elege como objeto de análise o imaginário português e seleciona fonte especial: os panfletos, em boa parte antinapoleônicos, produzidos em Portugal no período que vai de 1808 a 1810. Trata ainda da situação dos lusitanos no período em que a corte de d. João permanecia no Brasil. A temperatura andava alta e o sentimento era de uma orfandade nacional, com o rei fora de casa. O livro apresenta, também, excelente análise acerca da crise do Antigo Regime, sem descurar dos temores que assolavam as populações. Como dizia o historiador Jean Delumeau, esses eram "medos recíprocos"; manifestavam temores antigos, porém ainda em vigor, situação típica de uma sociedade tão pouco secularizada como Portugal. Velhos receios eram recuperados, então, e relidos a partir dos novos impasses: se o país sempre esperara por d. Sebastião, o que dizer destes inícios do século 19, quando os portugueses perdiam seu lugar como império europeu?Divertido, o livro mostra como os insidiosos panfletos converteram-se em obsessão, e num bom documento para pensar as representações de Portugal acerca da França. Paralelamente à trama dos acontecimentos que marcavam os anos 1810, uma série de metáforas, símbolos e mitos serviram para registrar um embate que no plano político e ideológico opunha forças conservadoras e renovadoras.Já em Portugal, sociedade dilacerada pela guerra e pelo domínio estrangeiro, a efervescência mitológica é reveladora: aponta a presença do perigo, mas também de esperanças redobradas. Ancorados numa luta entre bem e mal, proliferaram panfletos salvadores, todos revestidos de um caráter apolítico e apoiados em visões do sagrado, secularmente partilhadas. A história se cruzava com o mito e era impossível dizer quando se tratava de realidade ou apenas metáfora. Lúcia Bastos mostra como foram criadas duas lendas paralelas, a despeito de excludentes: a lenda dourada de um general genial e a lenda negra do usurpador medíocre. E foi a segunda versão que ganhou desenvolvimento fértil nesse Portugal humilhado em função da ameaça de tantas potências estrangeiras. Em panfletos, proclamações oficiais, artigos de jornal, a França aparecia como uma terra de complôs milenares e de promessas não realizadas. Junte-se a isso a idéia de um Império das trevas, e de um Napoleão anticristo, e temos os condimentos necessários para entender a versão portuguesa da Revolução. Maçons, jacobinos, pedreiros livres passavam a ser considerados agentes sediciosos; sinônimos vivos dos maléficos "francesismos".O fato é que a partida da Corte, elemento essencial para o funcionamento da engrenagem do Antigo Regime, deixara Portugal numa situação inusitada, e nesse terreno arenoso das representações políticas reinava a oscilação entre o sentimento de abandono e a idéia da salvação. Fiel a essa monarquia simbólica permaneceu o imaginário das camadas populares, que passavam a se sublevar contra o invasor, pensando conduzir uma nova cruzada. Aí estavam cosmologias cruzadas, as quais, na longa duração, eram agora ressignificadas: o estandarte da Santa Cruz havia sido destinado a arvorar Portugal, e o francês assumia o lugar do mouro infiel. Nesse mundo mental do Antigo Regime, em vez da racionalidade cidadã apregoada pela moderna Revolução, em Portugal era a religião que dava subsídio a estruturas de fôlego mais alargado. Desse embate, a monarquia portuguesa, mesmo que simbólica, saía reforçada e o rei, no lugar de estar ausente, permanecia "encoberto", como d. Sebastião.Foi através desse jogo de símbolos que Portugal entrou na trilha da modernidade. O caminho foi tortuoso, já que profundamente marcado pelo peso de concepções herdadas de outros momentos e leituras sacras de toda ordem. O que se aguardava era um salvador que viria redimir o Reino. Esse não seria d. João VI, que voltou a Portugal em 1821 e foi obrigado a jurar a Constituição. Mas quem sabe o lugar poderia ser ocupado por d. Miguel, líder dos absolutistas; ou por d. Pedro, um exemplo para o grupo liberal. O fato é que na imaginação romântica esse posto continuava, até por definição, vacante.Partindo das análises de Raul Girardet, Lúcia Bastos revela de maneira cristalina como "o mito político é fabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusável do real". Não se discute que o mito se presta à fabulação política e lhe confere nova eficácia. Mas quem sabe se possa arriscar mais. Como diz Claude Lévi-Strauss, antes de "esconder", o que os mitos fazem é "anunciar". Não deformam, mas extremam, e sua matéria-prima é a contradição que os funda. Entre o anseio por um salvador e a recusa do vilão, escorrega boa parte das cosmologias, inclusive as contemporâneas.Se a Revolução Francesa criou a política no sentido moderno - como a política dos indivíduos -, neste livro Lúcia Bastos mostra de que maneira o imaginário popular sempre constituiu a política, e vice-versa. Estamos acostumados a ver os "outros" como criadores de mitos. No entanto, mais difícil é entender como "nós" mesmos nos movemos a partir de sistemas coerentes de crenças. A História (com H maiúsculo) é nossa cosmologia de plantão, ao ordenar acontecimentos e conferir a eles uma inteligibilidade em que nos reconhecemos. Para uso interno, ela nos faz confiar nas nossas próprias certezas. Nos termos de Lévi-Strauss: "Os mitos se falam entre si, e por meio de nós." Lilia Moritz Schwarcz é professora titular do Departamento de Antropologia da USP e autora, entre outros, de O Sol do Brasil, Nicolas-Antoine Taunay e As Desventuras dos Artistas Franceses na Corte de D. João (Companhia das Letras, 2008)

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