Visão irônica de vidas absurdas

Irmãs Person fazem comédia na qual os personagens correm riscos como um trapezista no salto triplo

Crítica Jefferson Del Rios, O Estadao de S.Paulo

05 Novembro 2008 | 00h00

Intérpretes talentosos, textos inteligentes e direção precisa. Com essa alquimia apurada se faz um espetáculo divertido. Pausa: divertido é pouco. Há uma epidemia chamada stand up comedy (o pessoal não deixa por menos, é direto em inglês. Expressão para definir solos ou esquetes que o veterano José Vasconcellos já fazia, e muito bem, há mais de 40 anos). Ménage é um espetáculo de três episódios de fundo cômico aproximado ao Teatro de Absurdo, sobretudo o de Eugene Ionesco, este romeno que olhou o mundo com ironia e ceticismo. A encenação mostra situações cotidianas e conjugais naquele momento em que um grão de areia se infiltra na paz e harmonia de viver. Microscópica poeira que faz até um relógio Patek Phillipe parar. O título é sutilmente ambíguo: ménage, literalmente, é a rotina da casa. Já "ménage à trois" muda tudo de figura, e nem é preciso explicar.Mas aqui estamos diante do homem e da mulher, já casados ou tentando uma aproximação. O achado dos textos - dos norte-americanos Joe Pintauro e David Ives e dos brasileiros Ivo Muller e Guilherme Solari - consiste em traduzir questões existenciais de um jeito leve e sem perda de conteúdo (enquanto a stand up comedy tem a validade de uma piada). Esses autores mostram que a supermodernidade em si, sem rumo, resulta em anomalias sociais e a cultura do Prozac. Ménage revela também como a diretora Marina Person, acostumada ao universo televisivo jovem/pop - no qual tudo é muito "gracinha" ou "doidão" -, tem visão crítica das coisas.O começo, com Rex, de Joe Pintauro, é digno de As Cadeiras, de Ionesco. Um casal discute o que comer e como comer, pois são vegetarianos, mas surge um faisão nessa convivência robótica e aí se instala a paranóia bem norte-americana diante do politicamente correto e dos direitos individuais. Em seguida temos Fogo, de Solari e Muller, em que a fantasia sexual adquire uma dimensão ridícula, ou patética, como o casal maduro e corrompido de Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos. A diferença é que a clássica peça francesa espelha a imensa alienação de uma aristocracia na véspera da revolução que levaria seus desmandos à guilhotina. Já em Fogo o que desponta é a infantilização de jovens atuais, cansados de tudo antes mesmo de começarem qualquer coisa, até o sexo. É brincadeira e também não é. Nessa brecha mínima, o espectador pode pressentir um abismo em que estão todos os supermoderninhos de fachada. Finalmente Tudo Bem, de David Lies, faz um miniestudo de não-comunicação entre dois jovens que se encontram casualmente. É a obra mais próxima do realismo porque, afinal, abordagens amorosas acontecem todo dia. A comicidade surge da seqüência de lugares-comuns que aflora quando se quer nervosamente aparentar profundidade; ou das pequenas manias de cada um. A mentira total pode ter bom efeito, enquanto a verdade desmonta a conversa, e vice-versa. Para que esse castelo de cartas se mantenha em pé entre a tristeza e o riso, são necessários intérpretes em completa identificação e ritmo, como dançarinos. Um se atira, o outro segura e devolve em um jogo com silêncios calculados. Porque o riso pelo riso é o pastelão, enquanto Ménage quer ilustrar uma frase de Cenas de Um Casamento, de Ingmar Bergman: "Às vezes, parece que um casal fala em linhas telefônicas cruzadas. Às vezes, parece que estamos ouvindo dois gravadores programados."Domingas Person e Ivo Müller chegam a essa química exata. Ela tem uma beleza imponente, economia sutil de gestos e um olhar em que se pode pressentir melancolia em meio a tanto riso. Müller segue a mesma contenção com um traço de sarcasmo agressivo, vagamente ameaçador. Nessa linha tensa, o espetáculo segue como um trapezista no salto triplo. Só o fundo musical com ópera não funciona seja como contraste ou comentário. Marina Person reafirma no palco a criatividade que demonstrou em curtas-metragens e no recente documentário Person sobre o cineasta Luiz Sérgio Person, seu pai e de Domingas. Com essas qualidades, Ménage vai além do modismo da stand up comedy. Voltando a Ionesco, pode-se dizer que cada personagem saiu de um romance do dramaturgo do absurdo: O Solitário. ServiçoMénage. 60 min. 12 anos. Sesc Avenida Paulista. Espaço 12.º andar (60 lug.). Av. Paulista, 119, 3179-3700. 4.ª, 21h30. R$ 12. Até 5/11

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.