Virgínia Rosa mora na filosofia do versátil Monsueto

Cantora revê obra do compositor, ator, cantor e pintor no suingado Baita Negão

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

15 de dezembro de 2008 | 00h00

Virgínia Rosa anda dizendo que já sente falta de uma guitarra, mas continua fazendo bem para o samba. Depois do bem-sucedido Samba a Dois (2006), ela se dedicou a colocar a bela e calorosa voz a serviço do cancioneiro de Monsueto (1924-1973). Baita Negão é o nome do CD (realizado pelo Sesc) que tem 11 faixas, cada uma com um produtor. Entre outras virtudes, cantora e autor têm em comum o suingue e a versatilidade. Monsueto, além de compor, cantar e ter fama de gozador, foi ator cômico de cinema e pintor de estilo primitivista. Tinha trânsito livre em todas as escolas de samba, por não vestir a camisa de nenhuma. Virgínia vem de bandas antológicas. Fez muita gente dançar com a suingueira da Mexe com Tudo e integrou a Isca de Polícia, de outro "baita negão" genial, Itamar Assumpção (1949-2003).O "comandante" Monsueto, como era conhecido, teve seu primeiro êxito musical em 1952 com Me Deixa em Paz, na voz de Marília Batista, canção recuperada por Milton Nascimento em dueto antológico com Alaíde Costa 20 anos depois. No mesmo ano de 1972, Caetano Veloso recriava Mora na Filosofia, em outro registro histórico. Além destes, Virgínia retomou outros clássicos como A Fonte Secou, Lamento da Lavadeira (tema de cunho social regravado por Marisa Monte em 1991) e Ziriguidum. Mas também foi atrás de raridades, como Despejo da Saudade, Maria Baiana (parceria com Chico Anísio) e Faz Escuro, Mas Eu Canto, esta com letra engajada, de Thiago de Mello, que Nara Leão (1942-1989) registrou em 1966."Monsueto tem canções maravilhosas que todo mundo conhece, mas depois que você se aprofunda na obra, vê que tem outras coisas muito legais. Além disso, era um cara que, nascido no morro, conversava tanto com o pessoal de lá como com os intelectuais. Ficou conhecido por essas sacadas da filosofia do dia-a-dia. Mas ninguém mais gravou suas composições", diz Virgínia. Uma dessas jóias raras do grande sambista é Mané João, que a cantora registrou com o Quinteto em Branco e Preto. Dentre os outros produtores estão Celso Fonseca, Che, Geraldo Flach, Quinteto da Paraíba, Swami Jr. e Jair de Oliveira. Nem todos acertam a mão. Martinho da Vila dialoga com ela em Eu Quero Essa Mulher Assim Mesmo (produção de Skowa e Janja Gomes) de maneira didática, publicitária, "vendendo" o perfil de Monsueto com graça forçada. É faixa para ser esquecida. A mania de certos produtores de tentar "atualizar" a esmo certos clássicos dá em equívocos como o recém-lançado Cartola Para Todos. Parte de Baita Negão cai na armadilha, justamente nas canções mais conhecidas de Monsueto, impregnadas de muzak eletrônico. Virgínia e a cadência do samba (que afinal dão unidade ao CD) chegam a tempo de salvá-las. O pot-pourri final, produzido e arranjado por Proveta, é o grande achado.

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