''Virei um brasileiro para filmar denúncias''

É o balanço que Hector Babenco faz de sua obra, a partir de hoje no Canal Brasil

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

18 de agosto de 2009 | 00h00

Todo Babenco estará a partir de hoje no Canal Brasil, que durante duas semanas, de terça a sexta, estará prestando um tributo ao diretor.Todo? Na verdade, quase, pois o próprio Hector Babenco informa que, apesar de todos os esforços, não foi possível conseguir os direitos de exibição de um filme que não foi feito em sua produtora. Ironweed, adaptado do romance de William Kennedy, entrou num desses buracos negros provocados por imbróglios de herança ou massa falida. Ninguém sabe exatamente com quem estão os direitos. Os de Brincando nos Campos do Senhor, outra adaptação - desta vez do livro de Peter Matthiessen - , foram fáceis de conseguir. "Liguei para o Saul Zaentz (produtor) e ele liberou sem cobrar nada. E ainda me mandou uma mensagem afetiva."A programação começa hoje com Pixote, a Lei do Mais Fraco, que será seguido pelo documentário Pixote In Memoriam, do próprio Babenco, sobre Fernando Ramos da Silva,o garoto que o diretor escolheu para fazer o papel e depois seguiu uma carreira no crime, que levou à sua morte prematura. Pixote é de 1980. Foi o filme que deu projeção internacional ao artista, ganhando os principais prêmios do anos nos EUA. "Só não fomos para o Oscar", lembra o diretor. A entrevista foi feita,à tarde, no sábado anterior à abertura do Festival de Gramado. Babenco recebeu o repórter na sede de sua produtora, na Vila Olímpia, uma casa pequena, mas muito simpática. Ele brincou: "A crise me atingiu. Estava muito caro manter o escritório anterior e eu preferi alugá-lo."Como surgiu a ideia do tributo?Há tempos havia a cobrança de que os meus filmes chegassem à televisão e o meu desejo de que isso ocorresse. O problema é que sempre me ofereciam um pagamento ridículo.Conversei com o Paulo (Mendonça, diretor geral do canal brasileiro) e lhe disse que, por uma oferta que não fosse aviltante, poderíamos conversar. A maioria dos filmes também não havia sido lançada em DVD e o selo Europa inicia já neste mês uma coleção Babenco que vai colocar todos os filmes no mercado. Quer dizer, todos menos Ironweed ,mas a distribuidora ainda não desistiu de conseguir a liberação para DVD.Fale do privilégio de dirigir Meryl e Jack Nicholson em Ironweed.E eu vi Meryl acordar da morte, o que foi uma das coisas mais impressionantes da minha carreira. Ironweed tem a cena, depois da morte dela, em que Jack Nicholson faz uma longa fala, refletindo sobre a vida. Filmei aquilo durante horas, testando diferentes soluções para o monólogo de Jack. Quando terminei, sentei-me numa poltrona para relaxar, fumando um charuto, e tomei um susto. Meryl estava jogada no chão. Havia ficado todo tempo ali. Para atingir a temperatura da morte, ela havia colocado sacos de gelo sob a roupa. O gelo havia derretido e virado água. Vi-a sair daquele estado de catalepsia. É uma grande atriz e uma mulher afetiva.Meryl, Jack e também Marilia Pêra, William Hurt, que ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes e depois o Oscar por O Beijo da Mulher Aranha. Imagino que o William Hurt deva chorar hoje ao ver como ele foi bom naquele tempo...Encontrei-o em Toronto, quando fui ao festival para mostrar O Passado. Cheguei de mansinho, disse "William!", ele se voltou e, ao me ver, juro!, teve uma reação que me desarmou. Chorou convulsivamente. Não dizia nada, só chorava. William Hurt é um grande ator, mas também é uma das pessoas mais autodestrutivas que já vi. Era bem nascido, mas tinha ódio de ser norte-americano. Carregava uma culpa pelos crimes de seu país...Disso você entende, Hector. Você diz que é mais fácil fazer seus filmes que transmitem indignação social, como Pixote e Carandiru. Difíceis são os outros, os que vêm de dentro (Coração Iluminado e O Passado).Que são os que você não gosta, eu sei. Coração Iluminado foi o filme mais difícil que fiz. Estava doente e foi esse filme autobiográfico que me manteve vivo. Hoje que a minha vida é outra, eu talvez o fizesse diferente e não matasse a personagem de Xuxa (NR - Xuxa Lopes, com quem o diretor era casado). A doença (câncer linfático) marcou um período muito difícil de minha vida e carreira. Convivi diariamente com a morte. Isso deixa sequelas.Seu primeiro longa de ficção, O Rei da Noite, de 1975, respira a cultura do tango. É o filme que um diretor argentino faria, e você fez, no Brasil. Incomoda ser tratado como argentino naturalizado brasileiro, como se você fosse um estrangeiro?Mas eu não sou.Tenho uma cidadania brasileira que me iguala a você e a todos os que vivem me lembrando que nasci na Argentina. Fiz-me brasileiro em 1997, porque só assim achei que poderia falar da violência e da corrupção em Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia. Não queria ser o de fora,o estrangeiro como você disse, vindo aqui para denunciar os problemas do País. O Rei da Noite é a crônica de uma decadência. Descobri que a cultura do tango era muito forte nos ambientes marginais brasileiros, nas primeiras décadas do século passado. O Rei da Noite foi importante porque provou, para mim, que sabia e podia fazer cinema. Lúcio Flávio enfrentou outra luta, contra a censura, que também me mostrou que eu era aguerrido. E ambos são filmes que devem muito a seus atores. Paulo José, Reginaldo Faria... Reginaldo é visceral,uma força como Lúcio Flávio...Você tem essa fama de exigente e turrão e não faz parte das igrejinhas do cinema brasileiro. É difícil ser Hector Babenco?Com todas as dificuldades e a quebra que a doença representou em minha carreira, tenho conseguido fazer os filmes que quero, como quero. Às vezes é difícil conseguir financiamento. Outras vezes você tem um produtor como o Saul Zaentz, que é um gentleman e só interfere para o bem. Nunca me beneficiei de fazer parte de um grupo, é uma questão de temperamento. Sou reservado. Minha produtora é essa casinha que você está vendo. Uma secretária/assistente, eu e a contadora que revisa as contas. Só. Mas não estou reclamando. É o preço da independência. No Brasil, quanto mais você faz e mostra que sabe fazer, mais difíceis as coisas se tornam. Já estou acostumado.No que você trabalha atualmente? Qual o próximo filme?A bilheteria que um filme faz reverte num adicional que volta para o diretor, para o desenvolvimento do próximo projeto. Ganhei um dinheiro com O Passado que está me permitindo escrever esse roteiro com dois diretores - André Klotzel e Guilherme de Almeida Prado. Está sendo uma experiência muito interessante. É um filme que mescla as duas vertentes. A indignação pelo cinismo que parece ter tomado conta do Brasil e essa coisa visceral, de dentro. Vamos ver no que dá...A Programação na TVHOJE: 22 h -Pixote, A Lei do Mais Fraco e Pixote in MemoriamAMANHÃ: 22 h - O Rei da NoiteQUINTA:22 h - O Beijo da Mulher-Aranha e making of do filmeSEXTA: 22 h - Lúcio Flávio, O Passageiro da AgoniaDIA 23:18 h -Retratos Brasileiros - Hector BabencoDIA 25:22 h -Brincando nos Campos do Senhor e making of do filmeDIA 26:22 h - Coração IluminadoDIA 27:22 h -Carandiru e o documentário Carandiru.DocDIA 28:22 h - O Passado

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