Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Virada Sustentável: Cartuns do cicloativista Andy Singer são expostos na Paulista

Trabalhos do artista americano tratam principalmente da relação entre motoristas e ciclistas, tirando sarro da ideia de carros como um sinal de sucesso e status

Entrevista com

Andy Singer

André Cáceres, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 18h12

O cartunista americano Andy Singer é conhecido por suas tirinhas que abordam a temática do trânsito nas cidades. Seus cartuns tratam principalmente da relação entre motoristas e ciclistas, tirando sarro da ideia de carros como um sinal de sucesso e status. Trazendo à tona as contradições implícitas no convívio urbano, a obra de Singer estará em exposição justamente na artéria mais importante de São Paulo: a Avenida Paulista.

“Essa questão é mundial, a relação entre pedestres, ciclistas e motorizados. O maior deveria respeitar o menor”, comenta Martin Montingelli, tradutor dos cartuns de Singer, cuja exposição faz parte da 10ª edição da Virada Sustentável, em cartaz no canteiro central da avenida até o dia 15 de novembro. O Estadão é o portal oficial da Virada Sustentável 2020, que neste ano completa dez anos.

“O que as obras do Singer fazem é justamente o recorte com relação a esse respeito. Infelizmente muitas vezes a pessoa que está por trás do volante passa um ar de superioridade, e o trabalho do Andy conscientiza que ter um carro não traz nenhum tipo de superioridade.”

Um exemplo de sua ironia é o cartum em que ele contrapõe o “bem-sucedido” homem de negócios estressado no trânsito e o “fracassado” pedestre caminhando serenamente. “Tem duas palavras nesse cartum, mas ele traduz uma questão geracional. A geração atual não dá tanto valor a ter um automóvel”, comenta Montingelli. “Ele traduz situações reais complexas que acontecem no mundo inteiro em uma simples imagem.”

É com esse tom crítico que seus cartuns lançam um olhar bem-humorado sobre o trânsito que funciona muito bem para uma metrópole como São Paulo, há tantos anos discutindo o lugar da bicicleta nas ruas. Para facilitar a visualização do trabalho de Singer, Montingelli conta que selecionou para a mostra cartuns com menos texto. Dessa forma, segundo ele, mesmo quem estiver passando na Paulista de carro poderá apreciar o humor de Singer. “Vão ter tempo suficiente parados no trânsito para ler”, brinca o tradutor.

Singer respondeu as seguintes perguntas do Estadão:

Qual é o papel do humor na conscientização para os problemas das mudanças climáticas?

O meu jeito de tolerar a realidade é dar risada dela porque, se não fizesse, isso ficaria louco. Mas não tenho certeza que esse é o melhor caminho para conscientizar as pessoas dessas questões. Eu faço humor porque realmente há algo de maluco sobre o trânsito, mas também é triste. Se eu soubesse a melhor forma de convencer as pessoas a mudar seu estilo de vida, certamente eu faria.

A pandemia encorajou alguma mudança na forma como lidamos com nosso estilo de vida?

Sim. A quantidade de pessoas dirigindo caiu dramaticamente no mundo, então as emissões de carbono também foram reduzidas. Pessoas não estão consumindo tanto. Elas estão percebendo que as reuniões podem ser feitas remotamente, quando até poucos meses atrás estavam queimando carbono para enviar representantes para reuniões do outro lado do mundo. As pessoas também estão tomando consciência da importância de se ter mais contato com a família. Não sei o quanto essas coisas vão durar, mas acho que algumas delas serão duradouras. 

Desde que você começou a publicar cartuns sobre o trânsito e o cicloativismo, essa causa melhorou ou piorou?

Ficou um pouquinho melhor, em parte por conta das pessoas reivindicando, mas também pela forma como é a realidade no trânsito. É como voar de avião: a ideia era fantástica, estar lá em cima, mas hoje em dia se resume a ficar apertado em um assento desconfortável, sendo que muitas vezes não temos escolha, pois viajamos a trabalho. Não há mais aquela mística ou o fascínio que já existiu. Com os carros é a mesma coisa. Eles eram bonitos, as pessoas se encantavam por eles, mas hoje em dia não existe mais o fetiche por um automóvel como já houve.

A revolução dos carros autônomos pode mudar esse panorama de alguma forma?

A chamada revolução de carros que se auto dirigem é uma mentira, um mito perpetrado pela indústria automobilística para manter aquecido um mercado que já existe há cem anos. Mesmo que eles possam funcionar, o que já é um problema de engenharia complicadíssimo, eles não resolveriam diversos problemas de poluição na forma como seriam fabricados, no descarte de suas peças, na emissão de carbono do asfalto e do concreto, que correspondem a 5% das emissões globais. Nós precisamos pensar em design e em ambientes em que não se precisa de carros, em que não precisemos consumir tanto espaço para chegar nos lugares. Esta é a única maneira de fazer a diferença quanto aos problemas trazidos pelas mudanças climáticas: consumir menos. 

Uma cidade caótica como São Paulo pode oferecer condições para a coexistência de carros e bicicletas no trânsito?

Sim, desde que o prefeito e os legisladores se comprometam a tornar a cidade segura para essa coexistência. Se algumas pessoas pensam que é inseguro andar de bicicleta em São Paulo hoje, imagine há dez anos, antes das ciclofaixas implantadas pela cidade. Eu vivo em uma ‘São Paulo do Norte’, Saint Paul, em Minnesota. Temos uma cidade vizinha que é como uma irmã gêmea, Minneapolis. Lá, o prefeito e o conselho da cidade se comprometeram com essa questão nos últimos anos, e isso fez crescer o número de ciclistas, então eles fizeram ainda mais ciclovias. Isso tornou o tráfego de bicicletas mais seguro, com menos acidentes apesar de haver hoje mais ciclistas. 

 

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