Violino e malandragem domam crianças

Mautner não acreditou quando viu a platéia: 300 garotos armados com aviõezinhos

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

28 de abril de 2008 | 00h00

Das coxias, Jorge Mautner espiou pela cortina do palco e ficou assombrado. Quase 300 crianças, com idades ali entre 6 e 10 anos, o aguardavam na platéia do CEU Azul da Cor do Mar, na Cidade AE Carvalho. "Mas minha música não é para criança", disse entredentes, meio atônito. "O que se pode fazer? Vamos lá", afirmou, para em seguida ir ao camarim.Ao voltar, 15 minutos depois, já para se apresentar na ponta mais remota da Virada Cultural, a 45 quilômetros do Centro de São Paulo, Mautner veio preparado. Sacou do bolso do colete canções de amansar uma classe de meninos armados com aviõezinhos de papel, como a canção folclórica Sapo Cururu, que ele conheceu em 1959; e a fantástica Clementina, Cadê Você, de Elton Medeiros.Foi assim, com o violino em punho, sangue frio e generosidade, que o velho guru tropicalista levou a criançada ao delírio com versos como "Esse sapo cururu não anda de bicicleta, mas ele vive me dizendo que a Lua é careca/Ah, se a Lua fosse careca, ela usava cabeleira". Ou então: "Tu és manjar de reis/Dos mais finos canapés/Mas agora é a minha vez, de te fazer mil cafunés".Mautner laçou lá do fundo do baú Lenda do Pégaso ("Era uma vez, vejam vocês, um passarinho feio/Que não sabia o que era, nem de onde veio/Então vivia, vivia a sonhar em ser o que não era". Ou então, Morre-se Assim: "Morre-se assim/Como se faz um atchim/E de supetão/Lá vem o rabecão."De vez em quando, escapava um restinho de seus discursos prolixos ("No Hino do Carnaval Brasileiro, Lamartine já falava do amálgama das raças"). Mas, para a maior parte do seu público, amálgama poderia ser apenas um novo tipo de goma de mascar.

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