Violência juvenil e ideologia no novo thriller de Bellotto

Escritor deixou o detetive Bellini de lado para falar sobre ricos, favelados, Farc, Che e Samora Machel em Os Insones

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

27 de setembro de 2007 | 00h00

Fala-se muito sobre como convivem no Rio de Janeiro a classe média e o morro. Há quem veja lirismo na relação, ainda mais quando se dá conta de que a praia de um hotel de luxo na Avenida Niemeyer é a mesma do pessoal do Morro do Vidigal. Mas há uma inquietação tão forte nesta convivência, que poderíamos fantasiar o que aconteceria se apenas uma pluma desequilibrasse a balança. Se os playboys resolvessem, por exemplo, subir o morro não para comprar a droga de cada fim de semana, mas para se unir a chefes kamikazes do tráfico e fazer o sistema refém. Tony Bellotto fantasiou assim o seu novo livro, Os Insones, que lança hoje na Livraria Cultura em São Paulo.Há tempos o autor, um estrangeiro paulista muito bem acolhido pelos cariocas, sentia a maresia mais pesada e queria transpor isso para o papel. É claro que o Rio, talvez mais do que qualquer cidade grande brasileira, oferece matéria-prima farta para um escritor de romances policiais, mas a aventura de escrever sobre os crimes cariocas não é fácil. ''''O (diretor americano) Brian de Palma falou uma vez ''''vocês têm as histórias de suspense e de violência mais incríveis aqui. Há, sim, muitos casos incríveis que poderiam servir de base para ficção, mas ao mesmo tempo é difícil inserir a realidade na ficção e conseguir ser mais chocante do que a própria realidade'''', considera o escritor, em entrevista ao Estado. ''''Resolvi encarar o desafio de fazer uma crônica dessa cidade linda, violenta e charmosa, mesmo correndo o risco do clichê. O escritor policial no Rio ou consegue superar esse desafio ou sucumbe.''''Tony não cai no clichê, da mesma forma que não vem com um livro policial clássico, o primeiro romance sem Remo Bellini, personagem que consolidou então apenas guitarrista do Titãs como escritor. ''''Eu escrevo numa boa sem ele. Quando acabei o último Bellini (Bellini e Os Espíritos, 1995), tive a sensação de que não tinha mais vontade de escrever como o Bellini e comecei a me mover em outro sentido. São livros narrados em primeira pessoa'''', argumenta Bellotto. ''''Agora, não sei dizer qual será o próximo projeto literário. Fico com medo de não conseguir mais escrever como ele. Não é muito lógico, mas não posso me sentar a qualquer momento e escrever como Bellini.''''Os Insones é um thriller que conduz o leitor por uma série de assassinatos brutais em ritmo frenético. Começa em torno do aparente sumiço de Sofia, filha do publicitário Renato, que voltou um tanto estranha do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, mas acaba indo além, ao montar uma crônica bem construída sobre juventude, violência e ideologia - ainda que um ou outro personagem ''''mais adulto'''' perambule como um zumbi pela narrativa. ''''Passei a pensar muito sobre isso quando a minha filha Nina, de 25 anos, foi ao Fórum Mundial. Eu observava por ela e por um sobrinho alguma coisa desse comportamento de hoje, de como essas referências são absorvidas, a foto do Bob Marley, do Che Guevara, a expressão da rebeldia com uma certa superficialidade ideológica'''', conta o autor. ''''Para mim, isso é muito representativo da falência dessas referências revolucionárias, mas dá para ver que a chama da rebeldia ainda é cultuada.''''Aí está um dos pontos altos de Os Insones, que leva a pensar sobre como as referências ideológicas, agora requentadas das velhas utopias, batem como eco nas mentes jovens, baseadas em aforismos. Chama a atenção o personagem Samora Machel, um garoto negro de classe média alta que, talvez por causa do nome ou por um espécie de rebeldia no DNA, mistura Che Guevara, Panteras Negras, Subcomandante Marcos e Bob Marley e sai em busca da própria revolução.''''Foi esse personagem que possibilitou o livro, que eu comecei a pensar em 2004. A situação de violência no Rio começou a me inquietar demais, mas ao mesmo tempo percebo que essa situação é manjada, e oferece mais dinamismo nas matérias que você lê no jornal do que no uso que você pode fazer dela na ficção'''', explica o autor. ''''Queria usar essa ligação entre os jovens de classe média e os jovens do morro e, de repente, tive a idéia do Samora. Um menino de família rica que pudesse querer buscar suas origens negras na favela, mas que tem uma ideologia ingênua mas genuína, que vem de dentro dele.''''Samora deixa seus amigos da escola britânica, o quarto com ar-condicionado, e sobe o morro. Quer conhecer Mara Maluca, uma chefe do tráfico de 19 anos - ''''meio bonita, meio feia, meio negra, meio índia, meio mulher, meio homem'''', personagem forte e asquerosa que saltou das páginas dos jornais numa observação do autor - que espera a visita de um emissário das Farc. Samora quer aprender com os guerrilheiros, quer ser Che Guevara. Como? Nem ele saberia dizer, nem o autor. O importante é a luta, não a causa. ''''Ele não tem mesmo idéias mais aprofundadas, é um Dom Quixote. Quando fica sabendo que os traficantes estavam em contato com as Farc, pensa em ir para a Colômbia aprender com a guerrilha. Queria chegar a algum lugar, queria tentar.''''

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