Villela quebra a lógica e desmonta Rodrigues

Em Vestido de Noiva, diretor e figurinista faz um curioso jogo de sensualidade entre a indumentária feminina e masculina, questionando os papéis sexuais de cada um

Fausto Viana e Rosane Muniz, O Estadao de S.Paulo

28 de maio de 2009 | 00h00

Na última Quadrienal de Praga (2007), a curadoria brasileira escolheu Nelson Rodrigues como tema para a sua Mostra Nacional. Além de revelar a importância do dramaturgo mais encenado do País no universo internacional do teatro e sua contribuição aos cenógrafos, iluminadores e figurinistas, com as várias possibilidades criativas que oferece em seus textos, a exposição mostrou os principais trabalhos cenográficos realizados nos quatro anos anteriores a partir de sua obra. Uma polêmica surgiu à época: como a dramaturgia de Nelson traz o âmago das questões, o texto, na sua base interior, dispensa maiores aparatos externos. No que diz respeito ao figurino, é necessário repensar.O espetáculo Vestido de Noiva traz, de imediato, uma peça de indumentária em seu título. É verdade que a simbologia desse traje vem mudando de ideal máximo do universo feminino para coadjuvante de cerimônias de destino incerto. Da mesma forma, o rito teatral que o diretor e figurinista Gabriel Villela impõe ao espectador é também gerador de ansiedades e incertezas. Destruídos, misturados, desestruturados os planos - mental, alucinação e realidade - que garantiram o sucesso da montagem inicial em 1948, com direção de Ziembinski, "arquitetura cênica" e figurinos de Santa Rosa, surge um novo tempo-espaço, introduzido ao público por têxteis de diversas modalidades.A provocação de Villela exige a conceituação do que é um têxtil para que se entenda - ou não - o universo de Alaíde: uma mulher confusa, enlouquecida e fantasiosa. Não só perturbada no seu inconsciente, mas com desejo de fuga da realidade. Realidade que, afinal, pode ser apenas ilusão. Parece ser essa a questão de provocação do diretor, que incita o espectador a pensar o que é aquilo que cobre o rosto dos atores, tornando o "coro" irreconhecível e uniforme. Plástico bolha não é têxtil, mas cumpre a função de um para Villela. Esse material artificial também aparece como o véu dos vestidos de noiva das protagonistas.O assistente de direção César Augusto já revela, no texto do programa, elementos básicos para os espectadores, meticulosamente calculados para instruir, mas que instigam a buscar o que mais está por trás de todo aquele discurso. E pode-se, da mesma forma, referir-se ao texto, da maneira que Villela o trata. Há inclusões e alterações que favorecem o ponto de vista do diretor, mais uma vez chocando pela interferência na obra quase sacralizada de Nelson Rodrigues (e sacro em Rodrigues só faz sentido diante dos novos fatos sendo descortinados na Igreja Católica). O autor sabe dominar as complexidades dramatúrgicas de cada cena, de cada diálogo, de cada minúcia psicológica. Villela quebra a lógica e desmonta Rodrigues, fazendo com que alguns comentem ao fim: Nunca vi um Nelson assim... um "Nelson Villela".Há seios expostos e trajes que lembram os de Pina Bausch, notadamente em Two Cigarettes in the Dark (1985). Há trajes "cariocas" no que mais parece um texto universal. Há até Gabriel Villela em referência a si próprio e tantas de suas realizações anteriores com as asas do ???anjo - caído, não importa em que, se desgraça, se desespero, se amor, se dor. Caído o anjo de Leandra Leal e suas asas vermelhas, iguais às dos anjos de procissão das procissões do Brasil. Mas um anjo de asas vermelhas teria saído exatamente de qual lugar dos céus? Ou do inferno? Um anjo de asa torta, quebrada, que teria dito a Alaíde que fosse gauche na vida.Aparece, sobretudo, um curioso jogo de sensualidade entre os trajes masculinos e femininos. A saia com torso nu é um elemento muito bem explorado como elemento masculino. Faz parte do sonho/fato erótico de Alaíde, evocando talvez Jean Paul Gaultier. Os contrapontos femininos também estão bem registrados nos vestidos femininos, de pedraria (trazidos exatamente de Paris, segundo informou Fernando Neves, da Cia. Os Fofos Encenam e amigo de Villela) nos peitos desnudos e nas vozes retumbantes de Leandra Leal e Luciana Carnieli, a Madame Clessi do espetáculo, cujos figurinos mostram o que é a definição de estonteante na mente de Alaíde.Mas a intersecção das sexualidades se revela presente, e o ápice do conflito da indumentária masculina e feminina não se dá nas interpretações femininas por atores do sexo masculino, novamente inspiradas em Pina Bausch, mas desta vez em Die 7 Todsünden (1983). Acontece na personagem Namorado, que adota um visual gótico ou emo, para soar mais contemporâneo (ainda que as duas coisas sejam diferentes), e veste o casaco de estilo Paul Poiret (e como Poiret remete ??à Tarsila...) de Madame Clessi. Um Tim Burton à brasileira. Não há dúvida de que Villela questiona os papéis sexuais de cada um.A cenografia de J.C. Serroni - ao contrário de Santa Rosa que, "desdenhando o cenário e construindo a arquitetura cênica (...) ficou sendo uma espécie de coautor" e realizava 140 mudanças de cena, com muitas e rápidas trocas de figurino - é estática, com elementos cênicos de destaque e que, com o jogo dos espelhos, serve de funeral, hospital, delírio, etc. Um tecido que cobre o cenário "descortina" a cena e nos dá a ilusão do acesso ao interior de Alaíde. Tem um quê expressionista, uma atmosfera Schall und Rauch (Ruído e Fumo - o teatro cabaré de Max Reinhardt) com as esculturas dos túmulos dos endinheirados de São Paulo e Rio de Janeiro. O lírio gigante no canto do palco comumente usado em velórios por oferecer o sono tranquilo e proteção espiritual, remete também ao ramo de lírios de Santo Antonio, é claro, o "santo casamenteiro", bem oportuno para as irmãs. Mas acima de tudo, apresenta-se como um símbolo fálico.Como provoca a montagem, o entendimento de tudo aquilo que está ou não acontecendo vagueia, na medida em que tudo pode ser uma alucinação de Alaíde ou mesmo sua... O espectador adquire o direito de pensar e entender o que aconteceu, da forma que lhe convier. E já que estamos falando de estética e da técnica como diferencial na leitura de um Nelson Rodrigues, tracemos um paralelo com outra montagem do autor em cartaz na cidade. Esta introspecção e aprofundamento do inconsciente que acontece em Vestido, segue, entre outras, em Senhora dos Afogados.Os vizinhos de Clarinha fazem as vezes dos jornalistas interessados na morte de Alaíde, cumprindo a função dos coros gregos nos dois espetáculos, que começam com a morte de uma mulher. Para Villela, o plano de Alaíde já começa na miscigenação dos planos, o "anjo" de asas vermelhas queima em sua loucura. Já a filha morta de Senhora dos Afogados não aparece em cena, mas sim a família em luto, em paralelo com o cortejo fúnebre das mulheres do cais, em um visual inspirado na referência estética de Edward Munch.Os figurinos das prostitutas de Senhora são detalhadamente construídos pelo diretor e figurinista Zé Henrique de Paula em tamanha riqueza de detalhes que marca a cena. As flores utilizadas minuciosamente em diferentes partes do corpo, se transformam na coroa de flores em volta de Misael Dummond na hora de sua morte, em um delicado gesto realizado pelas prostitutas. Significativa é a mudança do luto de Eduarda para o vestido branco com o qual aparece depois de sua morte.Para irmos um pouco além dos trajes e cenografia, os trabalhos de corpo de Inês Aranha (Senhora) e Rosely Fiorelli (Vestido) compõem a cena. Na parte musical, Fernanda Maia selecionou 11 músicas brasileiras (Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento e Djavan, entre outros) acentuando o caráter lírico e trágico de Senhora. Já Daniel Maia faz com que a confusão mental de Alaíde seja reforçada com boleros, tangos e afins.A religiosidade familiar como elemento vital, a angústia e a tensão sexual como focos preponderantes aproximam o paralelo com Munch traçado por Zé Henrique, com o Villela, mineiro e rebuscado por natureza e os universos de Nelson, apesar de Senhora ser parte das "peças míticas" do autor e Vestido, das "peças psicológicas". "Obras capazes de produzir o tifo e a malária na plateia." Neste século 21 de gripes suínas e sinais de fim dos tempos, o teatro desagradável, o "colocar a mão na ferida", parece ser a intenção dos dois diretores/figurinistas. ServiçoVestido de Noiva. 100 min. 14 anos. Teatro Vivo (290 lug.). Av. Chucri Zaidan, 860, tel. 7420-1520. 6.ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 60 e R$ 70 (sáb.). Até 5/7Senhora dos Afogados. 120 min. 14 anos. Teatro Imprensa (452 lug.). Rua Jaceguai, 400, Bela Vista, tel. 3241-4203. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 30/R$ 40. Até domingo (31/5)

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