Vila-Matas esbarra na morte para viver a vida

Escritor conta como foi a traumática pesquisa do livro Suicídios Exemplares

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

A Espanha pode ter registrado um crescimento demográfico expressivo depois de 1991, mas isso se deve exclusivamente aos movimentos migratórios, e não ao livro Suicídios Exemplares, lançado naquele ano. No entanto, seu autor, o premiado escritor catalão Enrique Vila-Matas, de 61 anos - por paradoxal que possa sugerir o título de seu livro - desconfia ter ajudado nessa composição demográfica. Em conversa telefônica com o Estado, da Espanha, ele conta que temia ser acusado de incitar pessoas ao suicídio por causa do livro, mas aconteceu justamente o contrário: "Recebi inúmeras cartas de leitores que queriam se matar e desistiram da ideia após sua leitura, o que me deixou bastante aliviado, porque também pensei em suicídio ao pesquisar para o livro."   Leia trecho do livroO título, claro, é mais um jogo referencial de Vila-Matas, que o autor depois aperfeiçoaria em A Viagem Vertical, Bartleby e Companhia, O Mal de Montano e Paris Não Tem Fim, também lançados pela Cosac Naify, editora que agora publica Suicídios Exemplares (tradução de Carla Branco, 208 págs., R$ 45). Nessa brincadeira erudita e saborosa, o escritor cita trechos inventados de autores reais e chega mesmo a batizar alguns de seus personagens com nomes de escritores preferidos. Em Suicídios Exemplares, o garoto Horácio, amigo do potencial suicida no primeiro dos dez contos do livro, Morte por Saudade, é uma referência ao escritor uruguaio Horacio Quiroga (1878 -1937), cuja primeira esposa e seus três filhos se mataram. No livro, também a família de Horácio divide o mesmo destino trágico: um tio se mata no hospital roubando uma dose de cianureto, uma tia abre o gás, uma prima se atira de um lugar alto e o pai segue o exemplo da sobrinha. Parece história inventada, diz no livro um professor de redação. Com ela jamais se poderia redigir um conto convincente, argumenta a criatura, desafiando seu criador Vila-Matas a seguir adiante.O livro, de fato, poderia nem existir se ele não elegesse a morte para falar da possibilidade de uma vida diferente - e, nesse particular, o espanhol não cansa de elogiar o texto da orelha que o argentino Alan Pauls escreveu para Suicídios Exemplares. O autor de O Passado defende que o suicídio, nesses contos, jamais é fruto de uma desistência. Eles, segundo Pauls, podem ser "raivosos, mas nunca amargos nem sem esperança". O título do livro, revela Vila-Matas, é tanto uma referência às Novelas Exemplares do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616) como às vidas que se perdem no lírico Mulher de Porto Pim e Outras Histórias, do italiano Antonio Tabucchi, livro que fala de personagens fictícios e reais, como o deprimido poeta Antero de Quental (1842-1891), que se matou com dois tiros num banco de jardim, nos Açores, sua terra natal.A exemplo de Tabucchi, tradutor de Fernando Pessoa (1888-1935), Vila-Matas é um apaixonado por Portugal e usa no livro a palavra "saudade" - em português, já que é intraduzível - para definir a melancolia dos patrícios. "Como o livro surgiu da leitura de Tabucchi, que eu acabara de ler, é natural a presença portuguesa, pois, como ele mesmo diz, Lisboa é uma cidade de mirantes, ideal para suicidas, que costumam pular dos lugares mais altos da cidade ou, quando desistem, ficam sentados nos píeres olhando o nada."Esses solitários cheios de nostalgia não são só portugueses. No conto Rosa Schwarzer Volta à Vida, uma vigia do Museu de Düsseldorf sente o chamado do sedutor africano pintado pelo suíço Paul Klee em O Príncipe Negro (1927) - tela em que o personagem de olhos arregalados carrega o espectador para o fundo do quadro, para o lugar mais primitivo, o país dos suicidas. Ela resiste e desvia o olhar para outra obra de Klee na mesma sala, Monsieur Perlenschwein - trocadilho que cruza as palavras pérola e porco -, para se refugiar no tom rosáceo do quadro e não pensar mais em suicídio, como quando completou 50 anos de tédio e desilusão.A exemplo de Rosa, quase todos os personagens de Suicídios Exemplares flertam com a morte, mas escapam com vida de seus planos para acabar com ela. Só um morre do coração, dois minutos antes de consumar o ato. Vila-Matas admite que pode parecer engraçado, mas ele mesmo ouviu uma história absurda que lhe serviu de inspiração, a de um poeta húngaro decidido a se matar, que deitou nos trilhos do trem e milagrosamente escapou - a máquina parou a alguns centímetros do suicida fracassado. O livro, conta Vila-Matas, começou como uma pesquisa sobre escritores que se mataram - mesma estratégia de O Mal de Montano, que exploraria mais tarde a vida de autores subitamente tentados a parar de escrever. Mas, ouvindo nas ruas histórias tão loucas como a do trem "salvador", o escritor concluiu que "a vida real é mais surreal que a ficção".Para reforçar o parentesco com a escola surrealista, Alan Pauls cita na orelha do livro o nome do francês Raymond Roussel (1877-1933), que já no começo do século passado era dado a jogos linguísticos - e, aliás, se matou com uma overdose de barbitúricos num hotel de Palermo. Vila-Matas, contudo, não se considera surrealista, apesar de o suicida do conto O Colecionador de Tempestades - o tal que morreu de um ataque do coração dois minutos antes do ato - construir numa cripta um cenário hollywoodiano para encenar sua morte.Vila-Matas não desconsidera o parentesco com Roussel, mas diz que a palavra surrealismo é "um tanto maltratada" nos dias que correm. "É certo nos apropriamos de tudo, pois quando tomo o ônibus ou o avião fico com os ouvidos atentos ao que dizem, embora creia que minha afinidade é mesmo com o checo Franz Kafka (1883-1924), talvez por ser o mais depressivo, fundamental entre os autores." O escritor reconhece-se na figura do camponês citado no prólogo, que emigra para Fez, no Marrocos e, deslocado, sobrepõe o próprio itinerário à topografia hostil da urbe. Ele também se orientou no "labirinto do suicídio", traçando um mapa literário para sair do território da morte. Só escapou dela por ter concluído que apenas os suicídios fracassados podem ser contados - com generosa dose de humor. O resto é silêncio.

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