Vik Muniz reúne em livro esculturas, fotos e desenhos criados entre 1987 e 2015

Artista plástico completa 54 anos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2015 | 16h00

RIO - Vik Muniz, que faz 54 anos neste domingo, dia 20 de dezembro, começou há sete a planejar o inventário de sua obra, iniciada em 1987. Já não se recordava dos primeiros trabalhos e pensou: “Se eu mesmo não me lembro, quem é que vai lembrar?”. Em 2010, saiu seu primeiro catálogo raisonné, que abarcava os iniciais 22 anos de trajetória artística e se esgotou dois anos depois. Tudo Até Agora - 1987 a 2015, que está sendo lançado pela editora Capivara em dois volumes bilíngues (português/inglês), que totalizam 1.400 obras em 900 páginas, veio satisfazer não só aos colecionadores e admiradores, mas também ao próprio artista. 

“Existe uma necessidade prática que tem a ver com a posteridade. Você começa a entender o que fez até agora, para ver o que vai fazer depois. As obras dos três primeiros anos foram as mais difíceis de achar. Aí você publica e descobre um monte que ficou de fora”, disse Vik, em entrevista no escritório carioca, na Gávea, perto da casa onde vive dois terços do ano com a mulher, Malu, a filha caçula, Dora, e Francesco, filho de Malu, que trata como seu. Quatro meses Vik passa viajando e em sua casa no Brooklyn, Nova York, cidade na qual se radicou em 1984, saído da faculdade de publicidade em São Paulo.

Ele sabe que raisonnés (publicações da produção inteira de um artista) não são infalíveis. No caso de um criador vivo e prolífico, o risco de incompletude se eleva. Ao reencontrar em Nova York as obras do começo da carreira, época em que era moldureiro, morava “num apartamento minúsculo” no East Village e vislumbrou na arte uma forma de sustentar o bebê que a primeira mulher esperava - Gaspar, hoje com 25 anos -, Vik transportou-se emocionalmente no tempo: “Consigo enxergar até a minha confusão naquele momento sobre qual direção tomar. Nos primeiros anos, a preocupação é virar um artista. Depois, isso não é suficiente. Com o tempo, minha preocupação não era criar produtos, objetos, mas criar processos. Meu trabalho não são essas peças, mas as histórias que elas contam”.

A narrativa começa nas esculturas de materiais como vidro, borracha e madeira dos anos 1980, já em Nova York. Passam por O Melhor da Life, reproduções de imagens icônicas da revista norte-americana Life, caso do beijo dado por um casal em Times Square, em agosto de 1945, que se tornou símbolo do fim Segunda Guerra Mundial. Na década de 1990, viriam as séries, como os desenhos de areia. O ano de 1996 é o de Crianças de Açúcar, considerada a série de maior relevância artística, uma guinada conceitual em sua produção. 

Depois viriam os trabalhos com chocolate, com brinquedos, geleia, pasta de amendoim, macarrão e molho de tomate, sucata, diamantes, folhas de revistas, caviar, terra, os materiais sempre retratando figuras de reconhecimento imediato pelo público, de Elizabeth Taylor a Che Guevara, da Mona Lisa a Frankenstein. 

Nos anos 2000, o homem de família pobre que se virara em Nova York como faxineiro, atendente de posto de gasolina, funcionário de supermercado e pintor de parede, que viveu ilegalmente por quatro anos, virou pop star, o artista plástico brasileiro de maior trânsito internacional, com nome inscrito nas coleções dos principais museus das Américas, Europa e Ásia.

Vik criou abertura de novela das 21 horas da TV Globo (Passione), foi retratado no documentário Lixo Extraordinário, sobre a interação com catadores do lixão de Gramacho (Baixada Fluminense), indicado para o Oscar em 2011, cobriu com seu trabalho uma estação de metrô no Upper East Side (ainda em andamento, em Nova York). Este ano, realizou um dos projetos mais íntimos, a Escola Vidigal, construída na favela carioca homônima e na qual sonha promover inclusão social por meio de educação criativa a crianças pobres em fase de alfabetização, com foco em arte e tecnologia. 

As diferentes fases e iniciativas são explicadas nos livros por textos de Vik, organizados, como as fotos, pelo editor Pedro Corrêa do Lago. Ao descrever a criação de Crianças de Açúcar, que expõe o paradoxo entre a doçura do alimento e a dureza das vidas que dependem do trabalho na lavoura de cana em Saint Kitts, Caribe, conta que aquela era uma época de problemas financeiros e tinha dúvidas se conseguiria pagar as contas. “Expus as seis obras da série na sala dos fundos de uma pequena galeria do Soho. Foi um sucesso. De alguma maneira, o momento fundador de minha carreira, ocasião em que, pela primeira vez, senti que produzira algo importante e inovador.”

Vik já foi criticado por quem considera que seu sucesso se deva à repetição de uma fórmula bem-sucedida forjada nas três décadas em atividade. Responde com o catálogo em mãos: “Não existe fórmula, não dá para fazer um livro de 900 páginas com uma fórmula só. Estou procurando o maior número possível de formas de dizer a mesma coisa: como a gente vê uma coisa na outra? Nunca pensei em ficar rico, que teria estúdio, gente trabalhando para mim. Eu era sedento de experiências.” 

Ele também rechaça o rótulo de artista midiático, superexposto. “Superexposição de artista plástico? Superexposição é a da Kim Kardashian. Tenho vontade de viver as coisas. Tenho um amigo pintor que entra no estúdio às 9h e sai às 17h. Não sou assim. Fazer uma abertura de novela significa que diariamente 40 milhões de pessoas vão ver seu trabalho.” 

O artista controla o preço de suas obras, de modo a espalhá-las pelo mundo. “Prefiro fazer mais obras com preço menor. Tenho muito orgulho de ter colecionadores pequenos começando com obras minhas.” O que não quer dizer que sejam trabalhos “fáceis”, como aponta a crítica Ligia Canongia no texto que abre o primeiro volume, pois fundem “realidade e ficção, matéria e pensamento, humor e crítica”: “Paradoxais, por excelência, as obras do artista substituem a empatia inicial do espectador por desorientação. O trabalho arma e desarma simultaneamente nossas expectativas e coloca em debate o poder da informação que hoje nos domina, incluindo o poder da própria história da arte”.

Inquieto, Vik atua em várias frentes: além de se envolver na Escola Vidigal, em sistema de soft opening, estrutura a cerimônia de abertura das Paralimpíadas do Rio, em agosto de 2016, com o escritor Marcelo Rubens Paiva e equipe. Finaliza duas exposições, no High Museum, em Atlanta, e em Haia, Holanda. A intensidade do trabalho faz com que não consiga mais se concentrar para ler um livro grosso - prefere a fluidez dos contos, novelas de TV e séries como House of Cards, True Detective e The Knick.

 

VIK MUNIZ - TUDO ATÉ AGORA

Catálogo raisonné 1987-2015

Editora: Capivara (902 págs.; R$ 270)

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