Vigilância contra as facilidades da escrita poética

João Cabral de Melo Neto alia consciência social a um rigoroso acabamento literário em A Educação pela Pedra

Antonio Carlos Secchin, O Estadao de S.Paulo

31 de maio de 2008 | 00h00

Os quatro livros enfeixados no volume A Educação pela Pedra - Quaderna, Dois Parlamentos, Serial e o próprio A Educação pela Pedra - correspondem ao período mais rigorosamente construtivista da poesia de João Cabral de Melo Neto. Publicados no transcurso de apenas seis anos (1960-1966), representam, em alto grau de excelência, a aliança entre extremado acabamento literário e vigorosa consciência social. O teor mais intenso de engajamento na obra cabralina nunca abriu mão de uma severa vigilância frente a possíveis facilitações da escrita, resguardando-se de um risco que ronda a poesia social: às vezes, ela é tanto mais engajada quanto menos poética, alimentada pela premência ideológica de estampar suas ''verdades'' à revelia do trabalho formal.No poema de abertura de Quaderna - Estudos para Uma Bailadora Andaluza -, irrompem simultaneamente dois espaços que a partir de então se desdobrariam como grandes eixos das obsessões temáticas do autor: o corpo feminino e a terra espanhola - esta, em geral, pautada em registros de sintonias ou dessemelhanças com a geografia nordestina, em particular a de Pernambuco. Se o Nordeste habitou, quase em exclusividade, sua poesia da década anterior, com O Cão sem Plumas, O Rio e Morte e Vida Severina, agora não apenas se amplia o espectro referencial, sob o impacto da experiência da cultura espanhola vivenciado pelo escritor-diplomata, como também, no que tange à presença feminina, tratará João Cabral de se defrontar com um duro desafio: falar da mulher sem recorrer ao veio lírico-amoroso a que o feminino costuma associar-se. Optou, então, por elaborar uma série de poemas eróticos em que o ''eu'' se exclui enquanto parceiro, para afirmar-se apenas sob forma de um puro e distanciado olhar, infenso ao sentimento, atraído unicamente pelo espetáculo plástico do corpo anônimo que contempla ou rememora: ''De flanco sobre o lençol, /paisagem já tão marinha, /a uma onda deitada, /na praia, te parecias.'' (Imitação da Água).Dois Parlamentos - sátira feroz ao discurso do poder público frente à miséria nordestina - é o derradeiro poema longo de Cabral dedicado ao tema, na seqüência de Morte e Vida Severina. Num tom extremamente ácido, ('' - O cassaco de engenho/ quando o carregam, morto: / - É um caixão vazio/ metido dentro de outro.''), deputados e senadores, de Norte e Sul do País, discorrem com frieza sobre a subumanidade a que a se condena o trabalhador agrário do Nordeste.Os 16 poemas de Serial constituem a materialização daquele que talvez seja o mais obsessivamente elaborado (e concretizado) projeto de arquitetura literária de nossas letras, centrado no número 4. A começar pelo total de peças que integram o volume - 16, ou quatro ao quadrado - percebe-se na produção em série de Serial uma espécie de planta baixa com balizas prévias (poemas que conterão quatro partes, quatro tipos de estrofação, quatro tipos de esquema rímico-métrico, quatro perspectivas de relação entre o sujeito e o objeto descrito), balizas que, portanto, direcionam toda a escrita dos poemas. Nesse livro implacavelmente ''pré-moldado'', avulta a convicção cabralina de que o poético reside antes numa estruturação rigorosa do que no resultado aleatório que a inspiração venha a fornecer. A ressaltar ainda, para os que buscam vincular o poeta a alguma linhagem brasileira de escrita, a constatação de que genealogias não devem ser investigadas nos limites de um só gênero literário. Senão, leiamos Graciliano Ramos: ''Falo somente do que falo:/ do seco e de suas paisagens, /Nordestes, debaixo de um sol/ ali do mais quente vinagre.'' Trata-se de poema-homenagem, cujo título consiste, exatamente, no nome do ficcionista alagoano, acrescido, porém, do sinal tipográfico de dois pontos, como se a fala de Cabral se retraísse para fazer fluir a voz desse outro - um outro que, na verdade, é a manifestação de valores éticos e formais abraçados pelo próprio poeta.A Educação pela Pedra é o fecho do que a crítica considera a primeira (e mais importante) fase da obra do autor, a que se seguiu o silêncio de uma década, rompido com Museu de Tudo. Na esteira de Serial, é livro de extremada pré-configuração, alicerçada sobretudo em princípios binários: comporta duas partes (Nordeste/Não-Nordeste), com dois tipos de estrofação (estâncias curtas/longas), e cada poema se divide em dois segmentos. Esta coletânea, que estampa as grandes fixações do poeta (Pernambuco, Espanha, o feminino), inclui alguns de seus mais famosos textos, a exemplo de Tecendo a Manhã, que costuma ser interpretado, num viés diretamente social, como o elogio do trabalho solidário: ''Um galo sozinho não tece uma manhã:/ ele precisará sempre de outros galos.'' Podemos lê-lo, também, numa fatura metalingüística: um poeta sozinho não tece uma literatura; ele precisará sempre de outros poetas. Mas, sozinho, pode, sim, transformá-la. É quase impossível compreender nossa produção contemporânea sem freqüentar ''a educação pela poesia'' legada por João Cabral de Melo Neto.Antonio Carlos Secchin, poeta, ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras, é professor da UFRJ

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