Vidas secas, de Norte a Sul

Um amigo que acabou de chegar da Nova Zelândia se encantou com a beleza desse país.

Milton Hatoum, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Wellington é uma cidade linda, ele disse. As montanhas nevadas e a cor esverdeada do oceano são também maravilhosas.

Ele morou por algum tempo com os maoris, saboreou comidas exóticas, como poha titi e kai moana, participou de uma matariki (a grande festa maori), e se sentiu um maori na ilha em que conviveu por dois meses com "o povo da terra". As descrições do meu amigo eram tão vivas que eu me desloquei de São Paulo para Auckland e Wellington, depois voei até à Ilha Sul, senti o sabor da carne do pássaro "titi", contemplei um horizonte de carneiros e por pouco não me senti um neozelandês da cepa.

E você?, ele me perguntou. Por onde andou?

Fui a Macatuba, respondi.

Macatuba?

Meu amigo paulistano não tinha ouvido falar dessa pequena cidade do interior de São Paulo. Na região de Macatuba, a lavoura de café foi substituída por vastas plantações de cana-de-açúcar. No ar puro se intromete a fuligem da queima dos canaviais, mas a cidadezinha, de fisionomia simples e interiorana, me pareceu muito digna. Porque são dignos o casario baixo e a praça arborizada no centro histórico, e também a biblioteca pública, as padarias antigas, os moradores educados e hospitaleiros.

Em Macatuba ou Wellington, deve haver um punhado de pessoas grossas e brutas, mas não conheci essas pessoas, e delas quero distância. Ia esquecer um detalhe paisagístico que me impressionou: no canteiro central da avenida que atravessa a cidade há uma fileira de palmeiras imperiais, plantadas durante a administração de algum prefeito visionário. Não há periferia na cidade, cujo limite não é um aglomerado de favelas, e sim um campo verde e levemente ondulado.

Falei sobre literatura para estudantes e professores de uma escola pública. Havia também crianças, um grupo de operários, funcionários da biblioteca Carlos Drummond de Andrade e da Secretaria Municipal de Educação. Em algum momento pensei que poderia estar em Alvarães, Urucurituba Velha ou outra cidadezinha do Amazonas.

Lugares pequenos e isolados aparentam alguma semelhança entre si, mas cada lugar é único, com sua personalidade, sua cultura e história próprias.

Tentei responder às perguntas que me fizeram, e quase no fim do evento, uma estudante pediu para que eu comentasse sobre Vidas Secas, um dos livros lidos e estudados durante o semestre. Logo me lembrei da primeira leitura desse romance de Graciliano Ramos. Eu estudava no colégio Pedro II em Manaus e devia ter a mesma idade da estudante que me fizera a pergunta. Para um amazonense ou paulista, Vidas Secas causa estranhamento porque é ambientado numa região totalmente diferente do Norte e Sudeste, uma região em que a aridez da paisagem é inseparável da penúria. Homens e animais tentam sobreviver num ambiente de escassez extrema; a fome e o sofrimento da cachorra Baleia não são menos tocantes do que a miséria de Fabiano, sua mulher e seus filhos. A humilhação de Fabiano diante da brutalidade do "soldado amarelo" é outra cena inesquecível, que diz muito sobre a violência no Brasil. Mas há também, em Fabiano e seus filhos, uma sede de saber, de aprender a ler e escrever, uma vontade de compreender o mundo por meio da palavra escrita. Esse é o abismo na vida de inúmeros brasileiros.

Na segunda parte do belo poema Reinos do Amarelo, João Cabral escreveu estes versos: O amarelo de ser analfabeto, de existir aguado. O poeta pernambucano por certo se refere aos Fabianos do Nordeste, homens e mulheres cuja existência "aguada" lembra as personagens de Vidas Secas.

O fato de um mesmo romance ser lido com prazer e interesse por jovens amazonenses em 1966 e por jovens paulistas em 2009, revela que a boa literatura tem o poder de viajar no tempo e no espaço. E é uma prova de que o romance é um dos modos de ver e conhecer o mundo, e também uma maneira de conhecermos a nós mesmos e aos outros.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.