Vida nova para antigos bonecos

Sobrevento retoma arte dos pupi da Sicília para encenar Orlando Furioso

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

16 de outubro de 2008 | 00h00

A julgar pelo ensaio acompanhado pelo Estado na noite de segunda-feira vem aí uma belo espetáculo de bonecos para adultos realizado pelo experiente grupo Sobrevento. Mais que isso, eles desta vez eles adaptam o poema épico Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto (1474-1533) e o fazem por meio uma técnica de manipulação raramente vista no Brasil, oriunda da Sicilia e chamada Pupi - bonecos de madeira de 90 cm que pesam 3,5 quilos e são movimentados por vergalhões. Dirigido por Luiz André Cherubini, com 19 bonecos e música ao vivo executada pela banda formada por Renato Vida (percussão), Carlinhos Amaral (violão) e Iuri Salvagnini (acordeom)sob a direção musical de João Poleto, Orlando Furioso estréia amanhã no porão do Centro Cultural São Paulo. Escrito durante toda uma vida, esse poema épica tem 46 cantos e 40 mil versos rimados. Trata-se de uma grande epopéia que mescla as aventuras de cavalaria que povoavam o imaginário popular a diferentes mitologias. Ao mote central - a trajetória de Orlando, paladino do Rei Carlos Magno, em suas batalhas contra os mouros - o autor vai unindo várias tramas."Claro que tínhamos de optar por um recorte", argumenta Cherubini. Daí, nesse espetáculo, desde o prólogo o espectador é avisado que acompanhará as aventuras de Orlando que deixa os cristãos liderados pelo Rei Carlos Magno em situação de perigo ao abandonar a batalha contra os mouros por conta de seu amor por Angelina. Disputada por vários guerreiros, essa princesa oriental, salva por Orlando, acaba nos braços de um soldado raso, e mouro, e provoca a loucura do guerreiro. "Ele perde o juízo e Astolfo, um outro paladino, vai buscar na lua, onde estão guardadas todas as coisas que os homens perdem na Terra", diz a atriz Sandra Vargas, que fundou junto com Cherubini o Sobrevento em 1986, e junto com ele assina a adaptação. Curiosamente, os ?juízos? perdidos estão guardados dentro de uma garrafa. "Orlando literalmente ?toma? seu juízo e fica lúcido novamente. Daí a expressão tomar juízo e lunático", observa Cherubini.Toda a ação é vista por meio de ?janelas? que se abrem num cenário móvel, criado por André Cortez, um cubo de 3 metros nas laterais e 3,6 metros de altura. Ali dentro, escadas permitem aos atores - Sandra, Cherubini, Maurício Santana e Anderson Gangla - dar movimento e vozes aos bonecos em diferentes alturas. As janelas vão receber ainda projeções de imagens que remetem aos diversos ambientes pelos quais transitam os personagens.Ressalte-se que a técnica dos pupi, trabalhosa porque o grupo teve de buscar especialistas, confeccionar todos os bonecos, não foi escolhida ao acaso, por simples capricho. "Já havíamos trabalhado com esse tipo de boneco, porém menores, cujo efeito era delicado. A simples ampliação da escala, do tamanho deles, já provoca outro efeito, de gestos duros, marcados, fortes. A mecânica é a mesma, mas a expressão é outra, bem própria à violência da batalha."AÇÕES E EFEITOS QUE SÓ BONECOS PODEM REALIZAR NO PALCO VIOLÊNCIA: Bonecos podem literalmente ter braços, pernas ou cabeças arrancados pelo inimigo num campo de batalha. Assim, uma guerra encenada por eles dá ao espectador a dimensão da carnificina de luta sem escatologia e sem provocar horror, o que amplia a possibilidade de reflexão. Tal recurso, de distanciamento crítico por excelência, é muito bem utilizado no desfecho de Orlando Furioso num raro amálgama de sutileza e contundência . Fique de olho.EFEITO: Só um boneco pode entrar voando no palco. Nada mais natural que um anjo voe, mas se ele é representado por um boneco, como o Anjo Gabriel nessa encenação do Sobrevento, é possível fazê-lo plainar sem lançar mão de recursos sofisticados e com muita naturalidade. Sendo um guerreiro, o Anjo Gabriel traz, além das asas, sua espada e uma pesada armadura de metal. INGENUIDADE: Nada mais difícil para um ator do que fazer um personagem bonachão e ingênuo sem ficar tolo. Ou cantar uma música inocentemente maliciosa, apimentada, satírica, sem cair na grosseria ou simplesmente tornar-se um bobão constrangedor. Pois um boneco, bem esculpido e bem manipulado, pode se dar ao luxo de ter inocente malícia, sem parecer infantilizado. Em Orlando Furioso, um alegre siciliano tenta animar o protagonista triste pela perda da amada. Mas o que consegue, intencionalmente, é descontrair o público que solta gostosas risadas com sua graça interiorana.CÓPIAS: A solução para uma cena pode estar na duplicação de um boneco. Um clone serve tanto para criar ilusão como para quebrá-la numa brincadeira de linguagem, como no caso dessa encenação. Num dado momento dessa aventura o protagonista, Orlando, enlouquecido, tira sua armadura e a joga por terra. Mais adiante, em outra cena, já nu da cintura para cima, ?recupera o juízo? e decide voltar a guerrear contra os mouros. O grupo, espertamente, brinca com a velocidade com que ele se veste deixando clara a duplicação.

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