Vida Em Exposição

Alguém precisa urgentemente trazer ao Brasil a exposição que o Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona organizou no segundo semestre do ano passado (de 22 de julho a 2 de novembro) em homenagem ao escritor, JG Ballard, Uma Autópsia do Novo Milênio. Com curadoria de Jordi Costa e tendo como consultor Marcial Souto, a mostra foi a maior e mais inteligente homenagem que James Graham Ballard certamente vai receber em vida.Usando todos os recursos tecnológicos possíveis para traduzir as obsessões do escritor - cenários teatrais, instalações audiovisuais, a obra completa de Ballard em áudio e cinema, documentários e longas nela baseados - o centro também foi atrás de artistas-arquitetos (Dani Freixas com a colaboração de Pep Anglí) para interpretar os grandes temas ballardianos, de sua teoria do "espaço interior" às relações entre tecnologia e pornografia.Um automóvel enferrujado e enterrado num deserto de areia introduz o visitante nesse universo pós-apocalíptico, em que a arquitetura asséptica das comunidades suburbanas, dos tecnoparques e shoppings é deixada de lado. Entra-se num mundo árido, numa sala hospitalar com instrumentos cirúrgicos, em que os livros de Ballard são examinados nos mínimos detalhes a um simples toque do espectador, que pode apertar, por exemplo, uma palavra e descobrir o que ela significa no vocabulário experimental do autor, bem no monitor à frente do corajoso visitante. O próprio Ballard aparece na tela recitando seu credo niilista (leia ao lado), escrito justamente em 1984, o ano da distopia orwelliana.Ballard é partidário da ideia de que o desastre atrai o ser humano não como resultado de sua ânsia de autodestruição, mas como promessa de uma mudança radical que o conduzirá ao nirvana psicológico. Desligada de seus instintos primários, a humanidade caminharia para o abismo ansiando por momentos de extrema violência que a tirem de sua letargia. Não é nada animador, ainda mais quando você vê Ballard diante da câmera, como um profeta, anunciar numa entrevista que os neobárbaros estão chegando. Difícil não lhe dar razão quando deixamos a mostra e entramos no mundo real.

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