Vida de Carlos Gomes é recriada em peça dirigida por José Renato

Sangue Selvagem intercala dramaturgia com trechos em vídeo de obras do autor

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

18 de junho de 2009 | 00h00

Belém do Pará, 1896. Carlos Gomes 60 anos, muito adoecido. Fala com dificuldades. A anotação inicial de Carlos Gomes - Sangue Selvagem, peça de Erné Vaz Fregni que estreia hoje no Teatro dos Arcos, nos leva aos instantes finais da vida do compositor brasileiro, autor de óperas como O Guarani, antes de voltar ao primeiro momento decisivo de sua carreira, quando, na juventude, decide abandonar a Campinas natal e ir estudar música no Rio. Começava ali uma carreira de sucessos, recontada na peça, que tem direção de José Renato e direção musical do maestro Julio Medaglia.A mudança para o Rio levaria Carlos Gomes, eventualmente, em direção à Itália, onde teria carreira de sucesso; a volta ao Brasil, no fim da vida, o coloca na lista de artistas brasileiros que, reconhecidos lá fora, amargaram destino cruel por aqui (patrocinado por d. Pedro II, Gomes acabou se tornando símbolo da monarquia, a ser rechaçado com a proclamação da República). Essa dualidade - sucesso lá fora, descaso em sua terra -, além de noções como "compositor italiano nascido no Brasil", povoaram o imaginário em torno do compositor. Mitos, lendas e ideias preconcebidas, no entanto, não dão conta da importância de Gomes para a ópera da segunda metade do século 20: ele não apenas fez sucesso com suas obra - ao escrever títulos como Fosca foi um dos principais responsáveis pela renovação do gênero na Itália, introduzindo elementos que mais tarde seriam base do movimento verista, do qual seriam símbolos autores como Mascagni e Leoncavallo.É com o objetivo de "limpar" a figura de Gomes desses mitos e lendas, atribuindo a ele voz própria na recriação de sua trajetória, com base em extensa pesquisa em sua correspondência, que surgiu o espetáculo idealizado por Ernê Vaz, na mesma linha de Aroma do Tempo, peça sobre a vida do poeta Arthur Azevedo, indicada ao Prêmio Coca-Cola Femsa como melhor espetáculo jovem, melhor autor e melhor direção musical, em 2006. Em Carlos Gomes - Sangue Selvagem, a narrativa respeita a sequência cronológica e é entremeada por trechos de obras de Gomes, retirados de montagens gravadas pelo maestro Julio Medaglia na Bulgária há alguns anos. César Negro vive Carlos Gomes, encabeçando um elenco que conta ainda com André Latorre , Michelle Zampieri, João Ribeiro, Marta Caetano, Jorge Julião, Walter Portela, Alceu Nunes, Roberto Giusti, Wagner Vaz, Milton Machado, Regis Silva, Elis Menezes, Fania Espinosa, Marllos Silva e Luis Sandei. Os cenários e figurinos são de Cyro Del Nero. ServiçoCarlos Gomes - Sangue Selvagem. 120 min. 12 anos. Teatro dos Arcos (140 lug.). Rua Jandaia, 218, Bela Vista, 3101-7802. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 19h. R$ 25. Até 20/8

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