Marcelo Chello/Estadão
Marcelo Chello/Estadão

'Vício Impune': Exposição reúne obras de coleções pouco vistas

Mostra coletiva organizada por Gabriel Pérez-Barreiro aborda o tema do colecionismo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2021 | 05h00

Curador da 33.ª edição da Bienal Internacional de São Paulo (2017/18), o espanhol Gabriel Pérez-Barreiro tem larga experiência em colecionismo. Como diretor da Coleção Patricia Phelps de Cisneros, ele criou vínculos com instituições – aqui e no exterior – que o consagraram como um dos grandes conhecedores da arte latino-americana. No sábado, 25, uma exposição coletiva organizada por ele foi aberta em duas galerias, a Millan e Raquel Arnaud, abordando justamente o tema colecionismo. Chamada Vício Impune – referência ao artista neoconcreto Willys de Castro, que cunhou o termo para designar o hábito do colecionar –, a mostra reúne nove artistas de ambas as galerias e obras de suas respectivas coleções, revelando curiosas afinidades entre eles e seus objetos do desejo.

É fácil explicar a razão de Tunga (1952-2016) ter colecionado desenhos eróticos do dadaísta francês Marcel Duchamp (1887-1968), inventor do conceito “ready-made”: o escultor pernambucano atualizou seu legado com obras de nítido apelo sexual, interferindo em seus originais (um dos desenhos de Duchamp, exposto na Galeria Raquel Arnaud, ganhou uma pérola real agregada ao papel por Tunga). Já a atração do escultor construtivo carioca Sérgio Camargo (1930-1990) pelas paisagens rurais do pintor naïf Hélio Melo (1926-2001), um seringueiro autodidata do Acre, é mais difícil de explicar. Pérez- Barreiro arrisca um palpite: pode se tratar de um caso não incomum de atração pelo antípoda. Camargo era um escultor sofisticado, cerebral. Hélio Melo, que, além de seringueiro, foi catraieiro, era um homem simples, que retratava o mundo como o via.

O circuito da exposição Vício Impune é fácil de percorrer. As duas galerias ficam na Vila Madalena a uma distância que pode ser vencida a pé. Na Galeria Millan estão reunidos os artistas Artur Barrio, Sérgio Camargo, Iole de Freitas, Tatiana Blass e Thiago Martins de Melo. Na Galeria Raquel Arnaud, quatro outros artistas: Waltercio Caldas, Willys de Castro, Paulo Pasta e Tunga.

São inúmeros os exemplos de artistas colecionadores que têm em seus acervos particulares peças pouco afinadas com a própria obra. Pérez-Barreiro cita o caso do norte-americano Jeff Koons, autor de obras paródicas que começou colecionando o pop Lichtenstein e acabou se voltando para artistas dos séculos 18 e 19, em particular Fragonard.

No caso dos nove artistas da exposição Vício Impune, nem todos, ao contrário de Sérgio Camargo, revelam aproximação por contraste com os eleitos de suas coleções. Paulo Pasta expõe pinturas ao lado de Volpi (1896-1988) e Mira Schendel (1919-1988), com os quais dialoga. Waltercio Caldas, que coleciona edições raras e livros de artistas, mostra alguns deles assinados por nomes históricos da modernidade como Lucio Fontana, Man Ray e Picasso. Ainda na mesma Galeria Raquel Arnaud, o neoconcreto Willys de Castro (1926-1988) aparece com dois de seus ‘objetos ativos’ – a maior criação do movimento, segundo o curador – ao lado de sua coleção de arte indígena, peças impregnadas de elementos geométricos, que inspiraram sua arte.

Tal afinidade, porém, passa por um filtro temporal que separa a arte dos ancestrais dos contemporâneos. O curador, ao se referir às relações entre eles e a arte indígena, lembra que a última não pode ser classificada como abstração. E cita o exemplo do pintor uruguaio construtivista Torres-García, que resgatou do esquecimento a arte pré-colombiana, mas manteve sua autonomia formal.

Ao definir o conteúdo de cada uma das mostras das duas galerias, Pérez-Barreiro diz que o da Raquel Arnaud é “mais histórico”, enquanto o da Galeria Millan é “mais afetivo”, por evidenciar uma ligação íntima entre os artistas e as obras de sua coleção, caso da pintora Tatiana Blass. Ela tem em seu acervo telas abstratas de seu tio-avô, Rico Blass, artista de origem alemã com o qual estabelece uma ponte em alguns trabalhos.

Já no caso do luso-brasileiro Artur Barrio, também artista da Millan, sua coleção é insólita o bastante para admitir comparações. Ele coleciona grãos de areia. Isso mesmo: desde 1983, Barrio acumulou 3 mil grãos de areia em um pequeno pote, em que cada grão é o registro de um mergulho realizado por ele. Ao contrário de Barrio, Iole de Freitas coleciona objetos de arte. E exibe um acervo raro de desenhos modernistas de Tarsila do Amaral. Thiago Martins de Melo participa da mostra com sua coleção de desenhos de amigos artistas.

“O que chama a atenção nas coleções brasileiras é que elas são organizadas conforme o gosto pessoal”, diz o curador, revelando que, no exterior, elas seguem uma outra lógica. São o que ele classifica de “coleções ativistas” – seus donos propõem novas leituras da arte para repensar a sua história. No caso da Coleção Cisneros, que dirige, Pérez-Barreiro tem a convicção de que esse acervo “serviu de inspiração para outros colecionadores, ao dar visibilidade à arte indígena, à arte sacra colonial e aos artistas viajantes do século 19, em diálogo com a arte moderna e contemporânea”. 

 

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