Viagem bucólica pelas videiras da Catalunha

Autor de O Físico e Xamã, Noah Gordon volta após oito anos com história de um homem que quer criar vinho de qualidade

Entrevista com

Suzana Uchôa Itiberê, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2008 | 00h00

O escritor norte-americano Noah Gordon estava na meia-idade quando foi para a Europa pela primeira vez. Entre todas as maravilhas que viu e experimentou, o prazer de beber um bom vinho foi para ele uma descoberta tão marcante que o inspirou a escrever La Bodega (Rocco, 328 págs., R$ 39,50), seu retorno à literatura após um hiato de oito anos. Gordon ganhou fama pela trilogia composta por O Físico, Xamã e A Escolha da Doutora Cole, a saga de uma família com vocação para a medicina. Desta vez, ele troca médicos por viticultores.Josep, o protagonista, vive na Catalunha do fim do século 19, em uma Espanha convulsionada pela guerra civil. Ele é o segundo filho do proprietário de um vinhedo na fictícia aldeia de Santa Eulália, e sabe que a tradição catalã estabelece que dois terços da terra fiquem para o primogênito. Tornar-se um soldado lhe parece, então, a melhor opção de trabalho. A narrativa começa com Josep em Languedoc, ao sul da França, onde cuida das vinhas de um senhor Mendes - sinal de que algo de errado ocorreu em sua carreira militar. A notícia da morte do pai motiva seu retorno à Catalunha e, a partir daí, o enredo se alterna entre presente e passado para desvendar uma história de amor, conspiração e assassinato.Embora um crime movimente parte da trama, não há grandes rompantes dramáticos ou reviravoltas. Através da trajetória de um homem simples, cujo maior sonho é cultivar a terra e fabricar um vinho de qualidade, Gordon traça um minucioso painel da cultura espanhola e suas peculiaridades. O escritor conversou com o Estado por telefone, desde sua casa em Boston, no Estado de Massachusetts.O senhor costuma falar sobre a grande importância da medicina em sua família. É curioso que, embora se tenha formado jornalista e se tornado escritor, sua fama literária esteja ligada a uma trilogia sobre um clã de médicos.Sabe que até como jornalista atuei na área médica? Fui editor de ciência no Boston Herald. Era uma época fervilhante na pesquisa e fiz grandes matérias históricas sobre o campo da medicina. Quando deixei o jornal e passei a escrever romances, mudamos para uma pequena vila nas montanhas, a oeste de Massachusetts, e não havia médicos na cidade. Você acredita que estudei por um ano e tirei certificado de técnico em medicina para poder trabalhar em ambulâncias? Acho que sempre tentei realizar o desejo de meus pais.Havia oito anos que o senhor não lançava um novo livro e agora retorna com uma obra sobre vinhos?Não sei o porquê deste intervalo tão longo, acho que a vida quis que fosse assim. Todo o mundo estranhou a ausência de médicos, mas foi ótimo ir para outra direção. Meu romance anterior, O Último Judeu (de 2000), era ambientado na Espanha de 1492, período em que os judeus foram expulsos ou obrigados a se converter. Foi um livro sombrio. Acontece que tenho passado muito tempo na Espanha, pois meu filho mora lá, e tenho sido tratado com tanto carinho que comecei a ficar incomodado por ter retratado um momento tão negro do país. Queria escrever um livro alegre sobre a Espanha e o vinho, por ser um veículo de amizade, tinha de ser o centro das atenções.Já era um conhecedor de vinhos?De forma nenhuma. Não entendia nada, embora já gostasse de vinho. Agora meu paladar está mais sofisticado, mas cresci num ambiente de total ignorância em relação à bebida. Quando criança, o único vinho que conhecia era o que bebíamos nas festas judaicas e era muito doce, nada bom. Só na Europa senti quanto ele pode ser delicioso. Imagine meu prazer durante o período das pesquisas, ao fazer degustações em cada vinhedo que parava para conhecer.Quando foi que o senhor se apaixonou pela Catalunha?Foi à primeira vista, nos anos 1980. Descobri a Europa quando estava na meia-idade. Certa vez, almoçava com a minha editora espanhola e, ao olharmos o cardápio, ela sugeriu uma antiga receita catalã. Quando vi aquele prato de carne reconheci uma comida judaica que marcara minha infância. Não sei por que motivo, mas tudo se volta à boa mesa e, naquele instante, eu me senti em casa.Josep é um personagem fictício construído em cima de um momento histórico bem delineado. Por que situou a trama no final do século 19?O que me levou até aquele período foi o ataque da praga filoxera, que se alastrou no último quarto do século 19 e devastou grande parte da viticultura mundial. A filoxera que atingiu as videiras espanholas veio da França. Outra coisa interessante é que, naquele tempo, o vinho espanhol era ruim, enquanto os franceses já produziam vinhos excelentes. Também fiquei chocado ao ver documentos que atestavam a preferência pelo primeiro filho e seu direito como herdeiro da terra. Achei absurdo, e inspirador, o fato de os irmãos terem de procurar outro trabalho. Muito da cultura da Espanha moderna remonta àquelas propriedades rurais do passado.O senhor parece ter enorme prazer na descrição de paisagens.Gosto de escrever sobre lugares sim, mas no fim o que mais importa são os personagens. Sem eles, a história não se movimenta. Dedico muito tempo a sua concepção.No seu livro, o cultivo da uva e a produção do vinho são retratados de forma artesanal, com calma e meticulosidade. Essa tranqüilidade faz parte de seu temperamento?Eu ficaria muito feliz em concordar, mas a opinião da minha esposa é bem diferente.Poderia dizer se existe uma conexão entre a evolução de Josep como pessoa, a tradicional competição dos castelos humanos e a elaboração de um bom vinho?Interessante. Os castellers - e Josep se torna um deles - vinham de vilas agrárias, nas quais o trabalho exigia minúcia e paciência, assim como o ritual de fazer as torres humanas, que é uma tradição popular em toda a Catalunha. A conexão pode estar lá sim, mas não havia pensado nisso.Embora a trama inclua assassinatos e história de amor, La Bodega não tem na sua história grandes dramas ou reviravoltas.Era exatamente isso que eu queria. Um pequeno livro, não uma saga, mas a história de um homem simples e correto, que trabalhava a terra. Conheci pessoas assim e elas são especiais. Exigem pouco da vida e têm muito valor.O senhor pretende escrever um outro livro em breve?Vou fazer 82 anos em novembro. Tenho muitas idéias, mas acho que não terei tempo para transformar cada uma delas em romances. Então o meu próximo livro deve ser de contos.

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