Vértebras verbais

"Eu estava perdido em tempos invertebrados", diz o narrador, Hans van den Broek, no começo do livro Terras Baixas, de Joseph O"Neill (Netherland, Alfaguara, trad. Cássio de Arantes Leite), um dos melhores romances que li nos últimos anos. Ele é um executivo de origem holandesa que vive entre Londres e Nova York, foi abandonado pela mulher depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 e recebe a notícia de que seu amigo Chuck Ramkissoon foi encontrado morto num canal. Chuck, nascido em Trinidad, tinha vários negócios, como um restaurante japonês e uma loteria clandestina, e jogava críquete com Hans num clube do Brooklyn. Hans passa então a lembrar esses tempos, num estilo de evocações e digressões que chamou atenção - inclusive a de Barack Obama, um presidente que gosta de ler - para O"Neill, irlandês de 45 anos que morou em cinco países antes de se mudar para a Big Apple. E que, como enredo e biografia demonstram, conhece como poucos a realidade multicultural de hoje.

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Os dramas pós-coloniais têm marcado boa parte da melhor ficção contemporânea - vide J.M. Coetzee, Orhan Pamuk, Michel Ondaatje e tantos mais, com precursores como V.S. Naipaul e Salman Rushdie -, mas O"Neill trouxe uma voz mais íntima a essa tendência. É como se ele estivesse a meio caminho entre esses relatos de imigrantes e a literatura de um Philip Roth, Ian McEwan ou John Banville (irlandês como ele), para citar três ficcionistas que não podem ser enquadrados na categoria. Os atritos étnicos não dominam seu tom; fazem parte de um mundo em que outras questões estão igualmente envolvidas. Hans vê seu casamento se desmanchar à medida que convive com essa figura de magnata sabe-tudo que é Chuck, o qual tanto lembra o Gatsby de Scott Fitzgerald. Ele diz a Hans, a certa altura, para rebater a bola no ar e justifica: "Isto é a América." E então, naquele gramado geométrico pontuado de indianos e antilhanos, numa primavera de rápidos enriquecimentos no mercado financeiro, ele rebate de primeira e se sente "naturalizado".

O que o romance mostra é que ninguém se naturaliza nem mesmo em sua terra, que a vida jamais se fixa de modo definitivo, que nos apegamos "a um familiar e pouco crível senso do mundo e de nosso lugar nele" porque a realidade é mais dolorosa. Pátria é um acervo de memórias pessoais e os laços afetivos que vivemos no momento, no lugar que escolhemos ou nos foi dado para viver; não é uma entidade, uma lei escrita em pedra. O"Neill, além de nos fazer ler páginas e páginas sobre um esporte que desconhecemos, é um craque da narrativa porque conta uma série de acontecimentos sem que nos importemos com o desfecho banal do fato inicial (Chuck foi assassinado? Por quem?). O final é um passeio de Hans pelo Google Maps, onde vê os EUA e depois Manhattan e o Brooklyn e enfim o campo de críquete; volta à visão geral do planeta e observa que tudo naquela tela parece imóvel e desumano. Somos todos nômades, mas, por isso mesmo, jamais indiferentes ao que nos cerca e cativa.

RODAPÉ

Ok, Sempé é bacaninha, com seu Marcelo Pedregulho, menino discriminado por enrubescer, mas meus filhos se divertiram mesmo foi com os livros de Shel Silverstein, Fuja do Garabuja, Leocádio, Quem Quer este Rinoceronte?, A Árvore Generosa e Uma Girafa e Tanto (todos também publicados pela Cosac Naify). Silverstein, que escrevia, desenhava e compunha, nunca foi politicamente correto. Suas histórias têm uma tristeza de fundo e ao mesmo tempo um humor absurdo e lírico; fazem as crianças sorrirem e também ficarem em dúvida. E pensar que ainda hoje há tanta gente fazendo historinha infantil com "mensagem".

CADERNOS DO CINEMA (1)

Não vai mal, por sinal, a vida cultural das crianças. No feriado fomos ver Up, o décimo filme da Pixar. É um enredo cheio de imaginação, que tem cenas bonitas da casa suspensa por balões, mistura referência à era dos dirigíveis e aos animais em extinção, calibra ação, afeto e humor. Não gosto muito do clichê de HQ que são os cachorros que falam e acho que filmes como Ratatouille, pela espirituosidade e pelo acabamento, e Wall-E, pela melancolia da "terra devastada" da abertura, são superiores - para não falar dos mais antigos, como Procurando Nemo, uma odisseia paternal. Mas Up é façanha igual pelo modo como cria os personagens, sustenta a história o tempo todo e trata desse eterno conflito entre aventura e rotina.

CADERNOS DO CINEMA (2)

Nas duas primeiras partes de Anticristo, de Lars von Trier, fiquei me perguntando o que as pessoas tinham visto de "repugnante" no filme. Até ali era um subdrama psicológico, com muitos clichês (a simultaneidade entre orgasmo e morte na abertura, o nome Éden para o jardim, etc.) e falas pomposas ("É preciso se expor ao medo para vencê-lo" ou coisas parecidas), sobre um casal que perde o filho e decide se isolar numa floresta para que ele (Willem Dafoe), terapeuta, trate dela (Charlotte Gainsbourg), escritora que pesquisa assassinatos de mulheres no século 16. Mas daí vem a senha para a parte final, que se parece com um filme de horror B, com closes de sangue ejaculado, violência explícita e automutilação, além de uma raposa falante, um parto de cervo e um corvo que não morre - um grandguignol, corajoso e nada sutil. Embora o homem saia prejudicado por sua arrogância em querer controlar o caos, a mulher não lembra nada senão uma bruxa, histérica, descontrolada, julgando-se a própria força da natureza. Excluído o impacto das cenas, portanto, o filme continuou sendo uma encenação ultrakitsch e misógina de conceitos psicanalíticos que já caíram de velho. Lars von Trier se leva tão a sério que só nos resta rir de tanta afetação.

ZAPPING

O problema de Caminho das Índias, que terminou fazendo sucesso como toda telenovela termina, não foram as faltas de verossimilhança e coerência, cuja lista precisaria de muitas páginas de jornal. Foi sua falta de força como folhetim mesmo. A vilã de Letícia Sabatella não cresceu como deveria, tanto que passou a ser auxiliada pelo sedutor golpista. Como Marcio Garcia não tem recurso para ser protagonista, Juliana Paes e Rodrigo Lombardi pelo menos foram eleitos os mais sexy do Brasil. E mesmo as cenas de humor, que recorreram até a Chico Anysio, não aliviaram. Além das beldades, a novela viveu dos bordões modistas ("hare baba", etc.), dos cartões-postais (mesmo que do Projac) e de temas "corretos" (como esquizofrenia ou a delinquência dos filhinhos de papai). Os personagens marcantes e a relação com sua época, que definem as melhores novelas para além dos "amores impossíveis" e da "luta do bem contra o mal", passaram longe.

POR QUE NÃO ME UFANO (1)

Ali Kamel e Humberto Werneck prestaram grandes serviços ao Brasil de hoje ao se dedicarem às extensas pesquisas do Dicionário Lula (Nova Fronteira) e O Pai dos Burros (Arquipélago Editorial). O primeiro mostra todas as platitudes e contradições do presidente, sempre se adaptando como Zelig à plateia que o escuta. O segundo lista todos os lugares-comuns e frases feitas que ouvimos e lemos muitas vezes a cada dia (faltou "País do futuro", mas não "Nunca antes neste país"). Sim, boa parte da pesquisa poderia ter sido feita em parceria... Mas é bom separar os políticos e as pessoas "comuns", certo?

POR QUE NÃO ME UFANO (2)

Como o modelo do pré-sal, rechaçado por potenciais investidores e considerado por jornais como o Financial Times algo típico de países sem consistência institucional, a compra de caças, submarinos e helicópteros da França levantou mais dúvidas que patriotadas. Por que o Brasil quer ter uma indústria bélica se não tem nem mesmo uma naval? Por que o pacote inteiro de um país só? Por causa da transferência de uma tecnologia que ninguém quer comprar? E por que o preço mais alto? No Libération, a compra foi descrita como um "bilhete premiado" tirado por Sarkozy para seus amigos da quase falida Dassault. Mas, assim como precisou recuar na urgência do pré-sal, o governo voltou e disse que a concorrência ainda estava aberta. Afinal, se no caso do petróleo não houve audiência pública, na compra de armas não se enviou projeto ao Congresso, como se faz em país civilizado. Mais que a retórica ufanista, esse governo lembra os tempos de Médici e Geisel pela forma como quer sempre tomar decisões importantes sem consultar a sociedade.

POR QUE NÃO ME UFANO (3)

Coitada da natureza, é sempre a culpada das tragédias urbanas. Foi assim na implosão da cratera do metrô e foi assim agora de novo nas enchentes que fizeram de São Paulo o caos da quarta passada. Há tempos reclamo aqui da má manutenção da cidade, especialmente da sujeira, com as bocas-de-lobo entulhadas de lixo. Quando vi as obras da marginal do Tietê, me lembrei também do geógrafo Aziz Ab"Saber alertando que, quando chove, o rio quer tomar seu curso de volta e, como as margens não são permeáveis, a inundação é certa. O resultado se viu mais uma vez.

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