Verônica ressalta os descontroles da vida

Andréa Beltrão vive a professora que protege um aluno contra traficantes

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

06 de fevereiro de 2009 | 00h00

A trama soa familiar - cansada dos alunos, professora é obrigada a cuidar de um deles, depois que traficantes assassinaram os pais do garoto. Pior: ela precisa fugir, pois os bandidos querem um pen drive com arquivos comprometedores que ficou com o menino. Quem se lembrou de Glória, de John Cassavetes, não se enganou. "Mas também não errou quem pensou em Central do Brasil, O Garoto ou O Profissional", comenta o cineasta Maurício Farias. "Todos têm uma semelhança no tema com o nosso filme, ou seja, o descontrole da vida."Farias é o diretor de Verônica, que estreia nacionalmente hoje com grandes chances de se tornar um grande sucesso graças à química perfeita entre enredo e elenco. Ele e o roteirista Bernardo Guilherme pretendiam contar a história de uma heroína popular. E, a julgar pela qualidade do ensino público no Brasil, não tiveram dificuldade em eleger uma professora de classe média baixa. "São elas que ajudam o País a tentar manter sua integridade, daí sua condição de heroínas", disse o diretor, interessado também em outro drama social, os órfãos do tráfico.O enredo foi rapidamente montado, porque Farias tinha um curto prazo para utilizar uma pequena verba que ganhara. Como pretendia trabalhar novamente com a equipe de A Grande Família - O Filme, que acabara de dirigir (ele também é responsável pela série na TV), o projeto logo tomou forma. Mas a essência de tudo estava na intenção de oferecer um grande papel para sua mulher, a atriz Andréa Beltrão.Versátil, ela utiliza seus infinitos recursos artísticos para migrar com facilidade do drama para a comédia, o que a torna o eixo principal de Verônica. "Eu me senti muito à vontade no papel, pois sou filha de professora, além de ter estudado em escola pública", conta Andréa que, por conta desse background, não precisou passar por nenhum período de adaptação em uma escola para melhor compor o papel. "Como Verônica, eu procurei passar as mesmas alegrias e frustrações que via em minha mãe."Com a adesão da equipe técnica, o filme foi rodado em regime de cooperativa com baixo orçamento (cerca de R$ 500 mil) e só saiu do papel quando o Sistema Anglo decidiu patrocinar o trabalho. O outro lado da moeda é que o tempo se tornou curto e muitas vezes o roteiro foi sendo adaptado à medida que ocorriam as filmagens. "Como praticamente rodamos seguindo a linearidade da história, isso foi possível", lembra Maurício Farias.E o que poderia assustar qualquer ator indisposto a enfrentar o imprevisível tornou-se um estímulo para o elenco de Verônica. "Achei o máximo, pois o desafio era maior", confessa Marco Ricca, cuja ambiguidade de seu personagem, o policial Paulo, é essencial para o mistério da história. "Ele é namorado da professora e aparentemente quer ajudá-la a escapar dos traficantes. O problema é que o pen drive que o menino carrega também compromete a polícia."Ricca lembra-se que a definição do destino de Paulo foi uma das últimas modificações do roteiro e a cena foi rodada poucos dias antes de o filme ficar realmente pronto. "Eu acompanhei a evolução do personagem praticamente da mesma forma que o público vai descobrir à medida que assiste ao longa."Também a relação entre a professora Verônica e o aluno Leandro foi estreitando ao mesmo tempo que Andréa Beltrão criava uma proximidade com Matheus de Sá, o menino escolhido para o personagem. "A gente se conheceu em um dia e, no outro, já estava filmando", lembra Andréa. "Isso foi bom, pois nosso estranhamento inicial é totalmente verdadeiro."Apesar da aparente aposta no imprevisível que parece marcar sua produção, Verônica chega hoje aos cinemas depois de uma série de avaliações e modificações. Maurício Farias conta que acompanhou a projeção do longa com diversas plateias, fazendo pesquisas que orientassem alguns possíveis ajustes. Em certos momentos, ficou surpreso com determinadas reações. "Uma pessoa chegou a escrever que Verônica devia ser presa por sequestro de criança. Assim, mexemos em algumas cenas para evitar esse mal-entendido. Minha pretensão com o filme sempre foi o de entreter."

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