Veneza: esgotamento ou tradição?

A Bienal italiana, em sua 53.ª edição, é a única que mantém um modelo centenário de representações divididas por países

Camila Molina, VENEZA, O Estadao de S.Paulo

17 de junho de 2009 | 00h00

Quando convidada a participar da mostra principal da 53ª Bienal de Arte de Veneza, inaugurada este mês e que ficará em cartaz até 22 de novembro, a artista francesa Dominique González-Foerster teve como ideia fazer o vídeo De Novo. Nesse trabalho, em preto e branco, exibido na seção de Fare Mondi/Making Worlds/Fazer Mundos..., com curadoria do sueco Daniel Birnbaum e do alemão Jochen Volz, no pavilhão Biennale, nos Giardini, a artista, que se divide entre Paris e Rio de Janeiro, é a protagonista. Durante 20 minutos ela fala do desafio de ser convidada, pela quinta vez, a participar da mais tradicional das Bienais e de uma certa sensação de frustração de estar numa mostra desse porte. Ao mesmo tempo, também, a narrativa das experiências de Dominique é entremeada por tomadas de Veneza filmada a partir dos característicos vaporetos, o meio de transporte comum da cidade sobre a água.Uma discussão sobre certo "diálogo impossível" entre participar da Bienal de Veneza e seu local - e seus deslocamentos - também se faz presente na obra da brasileira Renata Lucas como parte da mostra Fare Mondi, tanto no Arsenale quanto nos Giardini. Renata promove uma "manifestação" propositalmente imperceptível, ou seja, coloca faixas de asfalto por debaixo do piso de madeira do Arsenale em frente do pavilhão Biennale. É uma ação crítica, que também vai ao encontro das perguntas que estão às voltas nesse momento: Quanto há de peso para um artista estar neste tipo de exposição (sua obra será vista em meio à sua grande proporção?) e quanto há de crise ou esgotamento do modelo de Bienal de Arte?De um lado há a exposição feita a partir da mão dos curadores convidados pela Fundação Biennale di Venezia, se dividindo entre os galpões do Arsenale e um pavilhão nos Giardini - no caso desta edição, Fare Mondi, com curadoria de Birnbaum e de Volz. Formalmente, é uma exposição repleta de instalações, algumas de escala vultosa como a de Pascale Marthine Tayou, nascido em Camarões - entretanto, obra sobre a exploração do trabalho de atmosfera banal e literal com seus sacos de pó branco onde vemos escrito "cocaína" -, já que os curadores pediram aos artistas que pensassem suas obras a partir do espaço que teriam na Bienal. E houve também uma vontade curatorial de puxar a raiz da arte conceitual até os dias de hoje, mas de pouco viés político e com trabalhos de estruturas que remetem ao pictórico e ao escultórico - sendo assim, mostra pouco marcante.De outro lado, há as 60 representações nacionais, as mostras nos pavilhões pertencentes aos países abrigados por todo o espaço dos Giardini e alguns no Arsenale - e neles estão os artistas escolhidos por curadores convidados por cada nação. Quando se fala no modelo da Bienal de Veneza, com origem em 1895, pensa-se na pertinência ou não dos pavilhões nacionais.De alguma maneira, as representações nacionais podem ser um respiro ou espaço para se ver obras de artistas para além do tema curatorial do evento. "O importante é pensar nelas de uma maneira atualizada, não como uma apresentação de orgulho nacionalista da produção de um país. O modelo de Veneza é o único que percebe que todos nós vivemos em outras culturas, que é muito mais pluralista, muito mais interessante do que um mundo homogêneo", afirma Volz ao Estado. É impossível ver os pavilhões como uma afirmação única da produção de um país (e procurar apenas por frescor) - o da Itália, é desastroso, por exemplo, assim como do Egito, folclórico, e da Rússia, mas é válido destacar algumas das mostras organizadas pelas nações.O dos EUA, premiado como o melhor pavilhão da 53ª Bienal, apresenta a mostra Topological Gardens, de Bruce Nauman, organizada pelo Museu de Arte da Filadélfia e com curadoria de Carlos Basualdo e de Michael R. Taylor. A exposição, que chama grande atenção do público - há filas para entrar no pavilhão, perpassa obras do consagrado Nauman realizadas desde 1967 - e a exposição ainda se ramifica para a Universidade Luav de Veneza e para a Universidade Ca? Foscari. Destacam-se obras de sua pesquisa em que mistura mídias, o vídeo, as palavras ou frases em néon e as esculturas de bronze, plástico e cera de fragmentos do corpo, as mãos e cabeças, sempre na fronteira entre o conceitualismo e a performance.A Espanha também optou por levar obras de um consagrado, Miquel Barceló, representado por suas grandes pinturas realizadas nos últimos dez anos e que apresentam seu trabalho de densa estrutura matérica em que uma temática baseada nas figuras de gorilas, paisagens na neve e motes africanos quase se torna abstração. O mesmo fez a Polônia, que apostou em nome de peso, de Krzysztof Wodiczko. Sua videoinstalação Hóspedes, de viés político, trata da pertinente questão da imigração na Europa.Já um pavilhão intrigante é o da Austrália, com a mostra de Shaun Gladwell (nascido em 1972). Fora do prédio está o carro que remete ao filme Mad Max e, dentro dele, uma exposição de impacto e beleza visual com projeções de vídeo. A primeira delas, grande, é a tomada de uma paisagem desértica onde há sempre uma estrada com um canguru morto em sua beirada. Um motoqueiro entra na cena e, sempre num tipo de ritual, retira o animal daquele lugar, prendendo o espectador por mais de 20 minutos. Nessa e nas outras obras Gladwell parece tratar de uma relação intensa entre o homem e o ambiente, entretanto, indo ao encontro de algo arcaico e desértico. BrasilDESTAQUE: Dentro da mostra principal da 53ª Bienal de Veneza, o Brasil comparece com participações que ganharam peso. A de Lygia Pape é destaque inevitável com as instalações Ttéia e Livro das Criações - esta última tem diálogo interessante com vídeo do francês Philippe Parreno nos Giardini, assim como a inédita Pling Pling de Cildo Meireles no Arsenale. Também Ôyvind Fahlström, nascido em São Paulo, ganhou grande sala na seção da mostra nos Giardini. Já no Pavilhão Brasil, as pinturas de Delson Uchôa e as fotografias de Luiz Braga chamam a atenção para a cor. Para quem quiser ver melhor o trabalho de Braga, a Galeria Leme, em São Paulo, aproveita o ensejo da Bienal para inaugurar na próxima quarta uma individual do fotógrafo.

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