Valdomiro Silveira e a literatura caipira

Escritor paulista inovou ao transformar em narrador o homem interiorano

Francisco Quinteiro Pires, O Estadao de S.Paulo

23 de setembro de 2004 | 00h00

Valdomiro Silveira é considerado pela crítica o precursor do regionalismo. A afirmação é polêmica e se mostra frágil, sobretudo porque faltam provas cabais a respeito do pioneirismo. Mas a dúvida sobre ter sido mesmo o primeiro não lhe diminui a importância. Esse escritor paulista foi de fato inovador por dar voz narrativa, preservando o dialeto caipira, ao homem do interior do Brasil, no momento em que o País acusava o interiorano e, por extensão, sua linguagem de serem inferiores e de representarem um entrave ao progresso. ''''O conto inaugural Rabicho é muito primitivo'''', diz Enid Yatsuda Frederico, professora aposentada da Unicamp e organizadora de Leréias, (Martins Fontes, 232 págs., R$ 34,50). Embora haja marcas regionalistas em Rabicho (1894), como a preocupação em traçar as relações entre o caipira e a paisagem local, Enid aponta a separação literária entre norma culta e dialeto caipira. O narrador de Rabicho não seria o do livro Leréias (1945) que, oculto e mergulhado na oralidade, conta suas histórias e as alheias sem precisar de uma voz apoiada na gramática tradicional. É a mesma técnica potencializada por Guimarães Rosa, leitor de Valdomiro, em Grande Sertão: Veredas (1956), segundo a professora. Valdomiro nasce em Cachoeiro Paulista, em 1873, e passa a vida entre a capital e cidades do interior. Nomeado promotor público em 1895, muda-se para Santa Cruz do Rio Pardo, onde freqüenta festejos, pagodes e funções para recolher vocábulos e expressões caipiras. No entanto o rigor no registro da fala caipira e da fauna e flora interioranas por Valdomiro não tornava suas histórias provincianas. ''''A ele interessa mesmo é a figura humana, que em sua obra produz momentos líricos e trágicos muito bonitos'''', diz Enid. Ao mirar o meio rural, o escritor paulista acerta o que é universal. E Valdomiro Silveira, ao tentar compreender o ser humano e seus dramas, abre espaço para o caipira, considerado mão-de-obra imprestável, no lugar de quem se preferia o imigrante e contra quem o preconceito lingüístico era exacerbado. Não se pode esquecer que Monteiro Lobato, criador da imagem do Jeca Tatu, tratou a brasilidade como sinônimo de atraso, na qual o matuto não passava de um ignorante e preguiçoso, um parasita semelhante ao urupê. Além de superar a discriminação literária contra o caipira, o autor de Leréias abandonou as tintas ideais de que os românticos se valiam para caracterizar o sertão brasileiro. Ele se preocupou em fotografar a realidade rural com precisão máxima e sem receber a influência de valores europeus. Mas é bom ressaltar que esse processo de ruptura não é puro, pois certa idealização se identifica na prosa valdomiriana. ''''Tanto o propósito de fidelidade ao universo caipira como a sua idealização inconsciente se embaralham em Valdomiro'''', diz Célia Regina da Silveira, professora de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL). ''''Ao mesmo tempo em que os aspectos do código social desse universo são tratados com realismo, nota-se que na composição da trama está presente o caipira idealizado'''', continua. A representação rigorosa do mundo sertanejo em Valdomiro recebe a influência naturalista de Os Sertões, de Euclides da Cunha, que chamava de tempos em tempos o colega a sua casa em São José do Rio Pardo para ler capítulos finalizados de sua obra monumental ainda em produção. ''''Eles partilhavam de ferramentas mentais comuns, em que se privilegiava o sertão, em detrimento do litoral'''', diz Célia Regina da Silveira. Segundo a professora da UEL, Os Sertões oferece a compreensão do sertanejo nordestino como um tipo racial que poderia constituir o brasileiro. Valdomiro compara os paulistas a esses nordestinos e, assim, colabora para o advento do regionalismo paulista. E não só. ''''Para ele, o caipira do Estado de São Paulo teria parentesco com os antigos bandeirantes e, o mais importante, seria o responsável pela criação de uma língua nacional.'''' Euclides da Cunha desvendou um Brasil diferente daquele que se pautava pela Rua do Ouvidor, no Rio, onde se achava a última moda parisiense. Era uma estocada no francesismo reinante entre os séculos 19 e 20, que influenciou Coelho Neto e Olavo Bilac. Valdomiro Silveira percorre a mesma senda, e engrandece o passado e os valores brasileiros, dos quais sentia saudosismo. ''''No conto Pala Aberto, de Leréias, o passado figura como tempo feliz e o eu, protagonista da narração, encontra-se no presente em estado de desequilíbrio interior e desarmonia com o ambiente rural'''', diz Célia. Valdomiro percebera o início do processo de desestruturação da cultura caipira tradicional nos primeiros anos do século 20. A superprodução de café era um sintoma do capitalismo que avançava sobre o campo. ''''Valdomiro é um dos primeiros a identificar a desagregação do mundo rural, o tempo das coisas em harmonia estava condenado'''', explica a professora Enid Yatsuda. Segundo ela, o escritor paulista não pode, porém, ser considerado um crítico do ideário capitalista, já que sua crítica está fundada em critérios de natureza emotiva e instintiva. Em vida, Valdomiro publicou Os Caboclos (1920), Nas Serras e Nas Furnas (1931) e Mixuangos (1937), todos esgotados. As obras planejadas para publicação Mucufos, Caçadores e Sina de Nhara estão desaparecidas. Exerceu cargos públicos como o de deputado federal e secretário estadual no governo Armando Sales de Oliveira. Morreu em 1941, sem ver Leréias publicada, a obra que mais prezava.

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