Ute Lemper consagra todos os outsiders da canção e da literatura

Cantora alemã faz show hoje com um repertório baseado na obra subversiva de Kurt Weill, entre outros

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2009 | 00h00

Quem traçar uma linha imaginária unindo as músicas provocantes de Kurt Weill, a sedutora interpretação de Marlene Dietrich e as clássicas canções de musicais da dupla Kander e Ebb, certamente vai fechar o círculo com o nome de Ute Lemper. A cantora alemã que há mais de dez anos vive em Nova York tornou-se a mais fiel representante do cabaré operístico, aquele que une dança e voz cristalina na apresentação de canções sensuais e políticas. Esse é o repertório que vai marcar a única apresentação de Ute em São Paulo, hoje à noite, na Sala São Paulo.Trata-se do concerto que marca a abertura da temporada 2009 da Tucca, associação que trata de crianças carentes com câncer. Ute vai apresentar canções que se tornaram imortais na voz de Edith Piaf e Marlene Dietrich, mas, essencialmente será um concerto baseado na obra de Kurt Weill (1900-1950) - fiel parceiro de Bertolt Brecht, ele incendiou os palcos com uma escritura musical subversiva, confrontando especialmente o nazismo que abominava sua obra. Afinal, o que interessava para a dupla eram temas provocantes, como prostituição, jogatina, crise moral do capitalismo. "Como poucos, ele soube traduzir as paixões e as frustrações que assolavam a sociedade alemã que enfrentou a 2ª Guerra Mundial", disse Ute ao Estado, em entrevista por telefone desde sua casa, em Nova York. Totalmente adaptada à sociedade americana, ela se prepara para musicar a obra de outro famoso contestador, o escritor Charles Bukowski.Como vai ser o show em São Paulo?Vou me apresentar com uma orquestra (a Sinfônica Municipal de São Paulo) e o repertório vai trazer Kurt Weill, Bertolt Brecht, Edith Piaf e um pouco dos musicais, ou seja, união de canções alemãs, francesas e americanas. Estou muito motivada pois nem conheço a orquestra tampouco o regente (Rodrigo Carvalho). Vai ser muito emocionante.Mas, no momento, você vinha apresentando um show diferente em Nova York, não?Sim, chamava-se Last Tango em Berlin, no qual cantava para um público pequeno, cerca de 85 pessoas, no Cafe Carlyle. Era um show que eu descrevia como uma viagem entre passado e futuro (título, aliás, de seu CD com músicas próprias), pois unia meu repertório habitual (Weill, Piaf) com o tango de Astor Piazzolla, além de tratar de questões atuais (Ute fazia um monólogo em que brincava com a política mundial). Ao mesmo tempo, eu terminava os últimos detalhes do álbum que devo lançar nos Estados Unidos e Canadá até o fim de março, que é o mesmo que saiu na Europa no ano passado, com canções minhas. Não sei quando vai ser lançado na América do Sul, tenho feito o possível para isso acontecer. E, para não perder o fôlego, já iniciei a preparação do meu próximo projeto, que será inspirado na literatura de Charles Bukowski.Acredito, então, que você não tem mais tempo para pintar, outra de suas habilidades, não?Realmente, não tenho mais tempo. Pintei muito até há três ou quatro anos, até o nascimento do meu filho caçula, Julian, que passou a tomar mais do meu tempo. E, como comecei a compor, as poucas horas que me sobravam eram dedicadas às aulas de piano e à criação. Mas continuo admirando os expressionistas e surrealistas.Mas o que parece não ter mudado é sua intensa identificação com a obra de Kurt Weill.É verdade, especialmente por sua importância para a cultura alemã. Mas o repertório de Weill marca minhas raízes musicais. Foi um capítulo particular da música popular da Alemanha - muito breve, mas que compreendeu o nazismo, o final da República de Weimar e todas as transformações sofridas pelo país, especialmente por ele, chamado de macaco e negro pelos nazistas. Uma época que ele traduziu, de forma única, as paixões e as frustrações que assolavam a sociedade alemã. Quando eu tinha 17 anos, fiz um curso na Áustria no qual aprendi muito sobre a obra de Weill. Continuei interessada mesmo depois de me tornar profissional. Assim, ao longo dos anos, assumi como missão reviver esse repertório, dar-lhe vida novamente. O que não é tão difícil, já que as canções continuam atuais, pois tratam das rachaduras da democracia moderna como a corrupção, falam da liberdade sexual e de expressão. Mesmo assim você não pretende voltar a morar na Alemanha?Não, pois vivo em Nova York há 11 anos, estou ambientada aqui, uma sociedade moderna e internacional. Antes ainda, morei em Londres e Paris. Atualmente, a Alemanha é alemã demais para mim (risos). Acho que não me habituaria mais a viver lá. Toda minha família continua morando na Alemanha e, quando os visito, eu me sinto uma imigrante (risos).Você também deixou de dançar?Sim, desde o momento em que me concentrei em trabalhar com a voz. Participei de diversos trabalhos envolvendo a dança, especialmente os musicais que apresentei na Broadway e em Londres. Hoje, o ato de dançar continua apenas em minha mente. Até me mantenho em forma, teria condições de executar alguns passos, mas não faz parte dos meus planos.O mesmo se pode dizer de sua carreira no cinema?Sim, a produção de um filme normalmente consome várias semanas do tempo de um ator, o que implica se afastar de outros projetos e, especialmente, da família. E, francamente, não tenho mais disposição para ficar longe dos meus três filhos. É preciso que seja algo que realmente me interesse, como um filme que devo rodar em maio, na França, chamado Deauville, com direção de Miguel Cruz. Mas será uma exceção e não mais a regra - quando eu era jovem, eu participava de tudo (filmava, interpretava musicais, fazia shows, gravava CDs). Agora, prefiro focar no que mais me interessa, que é minha carreira musical.O que ela tem em comum com a obra de Charles Bukowski, que vai inspirar seu novo projeto?Na verdade, sempre considerei fascinante o fato de o próprio Bukowski não considerar seus escritos como literatura. Para ele, o que escrevia não passava de um relato de sua vida miserável, que não interessaria a quase ninguém. Mas essa sensação de ser um outsider permitiu que ele observasse a sociedade com um olhar crítico e original. Não há máscaras em sua escrita. Sabe, em alguns momentos me faz lembrar Bertolt Brecht, que também jamais pretendeu ser considerado um poeta. Ambos buscavam apenas retratar as dificuldades de se viver em sociedade. Foi justamente essa linguagem crua, suja, realista que me fascinou a ponto de me inspirar a criar uma melodia para essas palavras. Ainda não está pronto, mas tenho certeza que resultará em algo muito interessante. ServiçoUte Lemper. Sala São Paulo (1.484 lug.). Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elíseos. Ingressos só pelos tels.: 3057-0131, 3884-4921, 4003-1212. Hoje, às 21 horas. R$ 50 a R$ 120As Influências Da CantoraKURT WEILL: O compositor foi o fiel parceiro de Bertolt Brecht, com quem criou obras como A Ópera dos Três Vinténs, Réquiem Berlinense e Os Sete Pecados Capitais. Interessada em seu trabalho, Ute leu até os artigos desdenhosos dos nazistas sobre Weill.CHARLES BUKOWSKI: Cínico, anti-herói e dono de um desprezo militante contra instituições, o autor (1920-1994) deixou obra irregular, notadamente ególatra e escrita à base de muito álcool. A linguagem crua, no entanto, incentiva Ute a compor o próximo trabalho. MARLENE DIETRICH: Maior estrela do cinema alemão, crítica do nazismo, a atriz (1901-1992) foi transformada em mito da sensualidade pelo filme O Anjo Azul. Ute sempre a homenageia nos shows.Set ListPadam Padam (Henri Contet/Norbert Glanzberg)La Vie en Rose (Louisguy/Edith Piaf)Gershwin Medley (George Gershwin)Moondance (Van Morrison)Die Moritat von Meckie Messer (Kurt Weill/Bertolt Brecht)Song of Mandalay (Kurt Weill/Bertolt Brecht)Sourabaya Johnny (Kurt Weill/Bertolt Brecht)Pirate Jenny (Kurt Weill/Bertolt Brecht)J''attends un Navire (Kurt Weill/Jacques Deval)Youkali (Kurt Weill/Roger Fernay)Saga of Jenny (Kurt Weill/Ira Gershwin)I''m Stranger Here Myself (Kurt Weill/Ogden Nash)Milord (Margerite Monnot/Georges Moustaki)Cabaret (John Kander/Fred Webb)All that Jazz (John Kander/Fred Webb)Sujeito a alterações

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