Universos paralelos

Se você está lendo estas mal traçadas é porque o universo não foi sugado por um buraco negro. Avisaram na semana passada que poderia haver esse problema com a ativação do novo acelerador de partículas que passa debaixo da fronteira da Suíça com a França. Nada entendo de buracos negros, mas imagino que lá dentro seja, no mínimo, escuro.Outra possível seqüela de dar partida nessa máquina, menos grave, a meu ver, seria a criação repentina de um universo paralelo. Não sei como ficaria a leitura de crônicas, neste caso. Mas quero crer que daria ainda para comprar o Estadão.Embora minha compreensão do assunto seja mínima, no início dos anos 80 conhecia algumas das pesquisadoras empenhadas no estudo da física de altas energias. Trabalhavam no acelerador de partículas de Stanford (Slac), na Califórnia, precursor menor desse novo modelo europeu, e, vez ou outra, faziam festas na minha casa.Na época, éramos cinco morando em uma república de estudantes: eu, historiador, um economista hegeliano, Jeff, e três alunas de física de altas energias que davam expediente no acelerador. Umas figuras, todos eles. Bons tempos! Havia muitas regras na casa, experimentos em organização social. Tentávamos jantar juntos todos os dias. Cada um de nós cozinhava uma vez por semana. Minha especialidade era comida mexicana, mas cheguei a improvisar uma feijoada.Os assuntos à mesa eram variados. Nunca esqueço de um jantar em que Jeff contou da palestra que assistira na universidade durante a tarde com o economista Milton Friedman, ganhador do Prêmio Nobel e o mais famoso defensor do capitalismo sem restrições. "Se o mercado é tudo", perguntara Jeff ao Friedman, "quanto o senhor quer para mudar de idéia?" A platéia, disse, veio abaixo. Ponto para nossa república, que chamávamos, com certa pretensão juvenil, de Xanadu, uma citação do poema de Samuel Taylor Coleridge.Eu e o Jeff, os humanistas, cultivávamos algum ciúme das estudiosas de física da casa. Sempre que davam uma festa para os colegas do acelerador de partículas, tirávamos o maior sarro dos caras. Chegavam cedo, antes da hora marcada. Suas habilidades sociais eram nulas. Utilizavam protetores de plástico nos bolsos das camisas onde traziam, para a festa, canetas e lápis. Afinal, nunca se sabe quando será preciso resolver uma equação daquelas, não é? Se você já teve ocasião de assistir na TV a cabo ao seriado Big Bang Theory, bom, eram iguais. Chamávamo-nos de nerds. Hoje, creio que a palavra é geek.Lembrei-me disso tudo ao avançar pelo último livro do historiador Tony Judt, na semana passada. É uma pena que ele tenha desistido de vir à Flip este ano. Chama-se Reappraisals e é ótimo. Reúne ensaios, resenhas e passa em revista os autores que eu lia na época de Xanadu, marxistas ingleses e estruturalistas franceses, como Eric Hobsbawm, E.P. Thompson, Louis Althusser, coisas do gênero. Vistos hoje, parecem constituir um universo paralelo. Tive a sensação de que, se havia algum nerd nas festas de Xanadu, era eu. Não acredito que passei um ano da minha vida tentando entender a obra de Althusser.Judt separa os autores, claro, fazendo de cada um deles avaliações distintas. Mesmo assim, minhas preocupações de então com as contradições fundamentais do capitalismo me dão um pequeno calafrio. A ingenuidade era grande.Enquanto isso, as físicas trocavam mensagens via computador com os pesquisadores do outro acelerador de partículas dos Estados Unidos, a Fermilab, em Chicago. É um dispositivo novo, explicavam aos humanistas da casa durante o jantar, "espécie de correio eletrônico". A princípio, só deveria ser utilizado em serviço, "mas a gente acabava mandando uns torpedos de paquera". Ninguém é de ferro, afinal.Ou seja, elas investigavam as propriedades básicas do universo durante o expediente, inventavam a internet nas horas vagas, e chegavam em casa a tempo de cozinhar.Não imagino o que vão descobrir debaixo da fronteira da Suíça, mas desconfio que vá mudar nossas vidas. Xanadu, talvez?

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