Unindo o design e o ambientalismo

Sucesso do Triptyque se deve à combinação da linguagem contemporânea com a preocupação da sustentabilidade

Daniel Piza, O Estadao de S.Paulo

05 de setembro de 2009 | 00h00

Até há cinco anos o Triptyque era mais conhecido por sua estante "treme-treme", feita de módulos irregulares e curvos, adaptáveis a qualquer parede. A inspiração veio de construções populares de São Paulo e do conceito de "identidade tropical" segundo o artista e videasta francês Dominique Gonzalez Foester como "algo orgânico, intenso, sensorial, vegetal, pulsante, imaturo, fora de controle". Desde então o trabalho tem sido esse diálogo com elementos naturais, como na premiada loja da Farm na Rua Harmonia, com fachada móvel de madeira e envolvida por trepadeiras e canos de água que periodicamente lançam um vapor (o que implicou muita pesquisa de isolamento térmico) - "ecoarquitetura com estilo e humor", na opinião da revista Icon.

Dois outros trabalhos prestes a ser concluídos em São Paulo trazem essas características, mas não de forma repetitiva. Na Rua Fidalga, também na Vila Madalena, as obras de um atraente prédio residencial - que faz parte do Movimento Um, coordenado pela construtora Idea! Zarvos - ainda escondem o design ousado que, tão logo foi anunciado, fez vender todas suas unidades. É um prédio que faz pensar na influência do holandês Rem Koolhaas - que divide com os suíços Herzog & De Meuron e o francês Jean Nouvel as preferências dos quatro arquitetos do Triptyque - e que, a seus volumes roxos assimétricos e saguão de colunas em X, acrescenta um grande paredão recoberto por flora.

O outro trabalho em fase final é uma casa na Rua Alemanha, cuja fachada é uma superfície de azulejos ao estilo português desenhados pela artista plástica Adriana Varejão; vistos de longe, eles revelam um traçado "vegetal", sugerindo plantas em movimento. Esses dois projetos vão se somar ao da Rua Harmonia e a outros que já fazem parte da paisagem paulistana: o escritório de publicidade Celso Loducca, cuja fachada é um chanfrado sinuoso de madeira; e a loja MiCasa, junto à qual fizeram também a instalação batizada de "Pipe Light", uma construção preta em que os tubos galvanizados percorrem o exterior e o interior como se fossem trepadeiras.

Por falar na Idea! Zarvos, o Triptyque já projetou para a construtora um prédio comercial na Avenida Rebouças, com volumes deslocados, que deve ficar pronto apenas em 2012. Outro prédio comercial que desenhou em São Paulo foi para a fabricante de motos KTM, na Rua Francisco Leitão. E, por falar também em Adriana Varejão, mulher de Bernardo Paz, criador do Centro de Arte Contemporânea de Inhotim, em Minas Gerais, o Triptyque também trabalha atualmente no projeto de um pavilhão para o local, além de três "miniarquiteturas", pequenas moradias em verde.

Centros de arte e museus, não por acaso, estão cada vez mais na agenda do Triptyque. Agora em dezembro o escritório vai participar da Bienal de Shenzhen, na China, com o que chama de "criaturas" - pequenas moradas ovais suspensas a 12 metros de altura, sobre quatro longos pés de madeira, com ligações que se parecem com cordões umbilicais entre os habitantes e suas criaturas. Com este mesmo projeto, mas em fotos de grande porte, o Triptyque vai participar também de uma exposição comemorativa dos 50 anos do Museu Guggenheim de Nova York, arquitetado por Frank Lloyd Wright e famoso por sua forma espiral que cria um espaço interior de 25 metros de altura. "Pensamos em nossas criaturas a partir do vazio", conta Carolina Bueno.

Ela também conta que o Triptyque foi convidado pelo Victoria & Albert Museum para participar de uma exposição em que arquitetos do mundo todo - como o japonês Tenorubu Fujimori e o inglês Peter Hall - vão apresentar "abrigos mínimos", em junho de 2010. O escritório brasileiro pensou numa morada feita de palha inglesa compactada em torno de um nicho cilíndrico assimétrico e coberta por uma corrente de água pigmentada de branco. "Temos sempre a preocupação de usar materiais que, em vez de se degradarem com o tempo, se transformam e ficam ainda mais interessantes."

As novidades não devem parar por aqui. O Triptyque tem participado de concorrências em diversos países, não só na França. Para o museu KW, de Berlim, um instituto para arte contemporânea, apresentou um projeto para uma sala para cinema de arte, a ser construída em 2010. A projeção do filme seria feita por meio de espelhos distribuídos pela sala e todo o maquinário estaria aparente; os bancos seriam ondulações do chão de madeira. Mais ou menos como Renzo Piano fez no museu Beaubourg, o Triptyque é atraído pela ideia de revelar a engenharia oculta das obras arquitetônicas.

Outro resultado que aguarda é o da concorrência aberta para a construção da torre comercial nos arredores de Paris. Investimento de empreendores de diversos países, ela ficará num bairro (próximo ao 15º "arrondissement" de Paris) que o governo francês quer converter numa região de empresas de mídia, produtoras e escritórios de publicidade. Carolina Bueno mostra a maquete do projeto do Triptyque, uma torre com curvas revestidas de verde vegetal e "brise-soleils" que controlam luminosidade, calefação e refrigeração do prédio. A arquiteta diz que, graças aos avanços da engenharia de computação, a sustentabilidade energética de um prédio se tornou uma tendência irreversível, assim como maior liberdade para volumes ousados.

O sucesso ainda incipiente do Triptyque pode, assim, ser explicado por essa combinação de fatores: design de preocupação ambiental, ligado estilisticamente à vegetação tropical, com inventividade formal e equipe transnacional. Não se trata de "trópico para francês ver", mas de uma opção estética e técnica fortemente adaptada aos novos tempos da arquitetura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.