Unidos pelo sangue (e pela música)

Irmãos, Céu e Diogo Poças veem seus CDs chegarem ao mesmo tempo às lojas, mas com referências distintas. Ela ama Nina Simone, ele tem como ídolo Tom Jobim. Para ela, o desafio é se afirmar. Para Diogo, despontar sem comparações

Pedro Henrique França e Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

Diogo Poças talvez nem saiba, mas sua irmã Céu revelou, em conversa com o Estado, que o ?culpado? por fazê-la investir em música foi ele. Diogo queria testar um instrumento novo e pediu para a irmã acompanhá-lo em Por Causa de Você (Dolores Duran e Tom Jobim). "Depois, fiquei escutando e pensei ?poxa, eu gosto disso?."Por ironia do destino, quem saiu à frente foi ela. Enquanto o irmão mais velho se dedicava à publicidade, Céu decidiu vencer a timidez e encarar a carreira de cantora. Em 2004, lançou seu primeiro álbum. Com muitas referências da música negra e bases eletrônicas, foi um dos nomes mais falados naquele ano, quando se mostrava algo de novo na música brasileira. E ela manteve os pés no chão. "Claro que me surpreendeu (a repercussão), não sabia nem que podia compor. Mas de alguma maneira, não levei tudo aquilo a sério."Céu foi rodar o País, a Europa, os Estados Unidos. No meio do caminho, ela engravidou e teve uma filha. E quis se dedicar à pequena Rosa, hoje com 1 ano. A expectativa pelo segundo trabalho é testada somente agora, cinco anos depois, com Vagarosa, seu novo álbum independente que chegou esta semana ao mercado.Para ela, o intervalo não foi "tanto tempo assim". Céu diz que precisava de uma pausa para contar novas histórias. No disco, ela dá continuidade à unidade musical. Mas investe agora em uma "sonoridade mais tocada, orgânica, crua". As referências permanecem, mas para essa principal mudança entre um disco e outro, inspirou-se em Transa, de Caetano Veloso, e Revolver, dos Beatles. Foi um processo realizado aos poucos. Ela chegou a lançar o EP Cangote, com quatro faixas. Destas, apenas Visgo de Jaca não entrou no álbum. "Já vinha fazendo essa música nos shows há algum tempo. Ficou como um registro especial." Já Vagarosa, Sonâmbulo e Bubuia, que estavam no EP, tiveram espaço também no álbum oficial. Esta última, inclusive, é uma parceria, com Anelis Assumpção e Thalma de Freitas. E simboliza bem a forma de Céu levar a vida. O termo (do Norte, segundo ela) foi apresentado pelo padrasto, Sérgio Bandeira. Significado: uma espécie de espuma que borbulha sobre as ondas. "Achei bonito isso. É algo como ir ?na maciota?, devagar."De releituras, ela traz Rosa Menina Rosa, de Jorge Ben Jor - numa homenagem à filha e ao compositor que tanto admira. E convidou Luiz Melodia para dividir os vocais em Vira Lata.Desta vez, Céu não se juntou apenas a Beto Villares, produtor de seu primeiro álbum. Por conta de outros trabalhos, Villares participou mais do início do processo. Somam à dupla Gustavo Lenza e Gui Amabis.Como no álbum anterior, ela inicia com uma introdução (Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso). É uma forma de ela ?roteirizar? o conteúdo final. O conceito vem ao encontro da sua nova vontade: cinema. Céu, que já colaborou com Cidade Baixa, Filhos do Carnaval e Senhor das Armas, diz ter vontade de assinar uma trilha sonora. "Acho interessante sair do seu ponto de vista para entrar no que o diretor quer." E ela sonha alto. "Adoraria trabalhar com Pedro Almodóvar", diz, com sorriso entrecortado.Com patrocínio da Natura Musical, a turnê começa dia 27 em Porto Alegre. Aporta em São Paulo de 2 a 4 de outubro, no Auditório Ibirapuera. Sem pressa, na bubuia. ELE CHEGOU DEPOIS, CONFIANTE E CHEIO DE VONTADEA vida de Diogo Poças parecia predestinada. Filho do maestro Edgard Poças, sempre gostou de cantar. Tinha sólido suporte cultural em casa - e fora dela. "Ainda moleque", a mão do amigo Chico Pinheiro, "a Neusinha", incentivava Diogo a soltar a voz. Fez aulas de canto com Nancy Miranda e trabalhou como assistente de Rodolfo Stroeter na produtora Pau Brasil quando tinha "uns 18 anos". "De repente estava no estúdio, e nunca mais saí."Mas Diogo Poças andou distraído nos bastidores. Acompanhou de perto a irmã, Maria do Céu (ou só Céu), despontar com estardalhaço na mídia em meados desta década. Justo ela, que sempre foi mais quietinha. "Quando a Céu era molequinha achei que ela seria desenhista. Um dia ela apareceu e cantou. E ficou todo mundo assim (faz cara de ?queixo caído?)." Mergulhado em publicidade, a música para Diogo servia apenas de ferramenta. Até que, no ano passado, conheceu Pepe Cisneros - o produtor que faltava para o start. "Sempre gostei de cantar. E foi até estranho não ter ido por esse caminho." O resultado vem só agora, com Tempo, seu primeiro álbum, que ele lança dia 27, no Sesc Pinheiros. "Dentro de um momento nebuloso no mercado, encontrei uma gravadora (Warner) que me desse autonomia. Aos 35 anos, fiz um trabalho autoral - para mim."Numa fase em que as gravadoras não ditam o mercado há tempos, Diogo Poças se aliou a uma delas. "As gravadoras vão se adaptar à internet. Já sou um novo produto dessa realidade." Das 13 faixas, Diogo assina sete - sozinho ou em parceria com o pai e os amigos André Caccia Bava e Jessé Santos. Entre elas, desponta o sambalanço de Carioquinha e o reggae Pedacinho de Vida, registrado com Céu (que também comparece em Nada Que Te Diz Respeito). A temática romântica predomina ("não tem como não falar de amor"). Mas para o músico, escrever não é tanto sua área. "Não sou um cara que compõe muito. Sou brifado." E explica que A Vizinha da Frente foi composta para cantar - no sentido xaveco da palavra - sua atual mulher. Completam o disco versões para Vinicius de Moraes (Saudade do Brasil em Portugal), Gilberto Gil (A Linha e o Linho), Antonio Almeida e João de Barro (Felicidade) e Glenn Miller e Mitchell Parish (Moonlight Serenade). Sempre de sorriso aberto, Diogo agradece ao repórter, com abraço, o espaço na mídia. Aos possíveis ?cri-cri? de plantão, defende que o lançamento simultâneo com a irmã foi apenas coincidência. Reforça que as influências são "diferentes" ("ela ouvia Fela Kuti, eu, Dick Farney"). E tece elogios à irmã seis anos mais nova. Conta que, juntos, monitoram o que sai sobre eles em blogs e comunidades de relacionamento. Um dia deparou-se com um tópico que sondava onde sua irmã morava. Entre um chute e outro, surpreendeu-se com uma resposta: "Gente, vocês estão desligados. A Céu mora no prédio ao lado." Para Diogo, a frase representa a essência da sua irmã: "Ela é simples, possível. Ela está no prédio ao lado."Paulista da gema, Diogo sabe que está em uma profissão de risco. Reconhece que tem a voz ?pequena?, mas está surpreso com sua cara de pau. E estima conquistar um público diferente da irmã. "Meu show não é necessariamente para dançar. Quero que ele seja um acontecimento musical. E acho que estou chegando lá". IRMÃ ESTRELA DÁ LUSTRO NO VELHO REGGAETRANQUILA: Boteco de universitário com banda de reggae tocando sempre foi uma coisa a se evitar. Melhor ir até o Mosca Frita da esquina. Até que chegou a Céu: hippie chique da Vila Madalena, ela passa graxa e dá um lustro elegante no velho reggae de botequim, e isso já era visível em seu primeiro disco - o manifesto de sua paixão jamaicana era a sensual versão de Concrete Jungle, de Marley.Não é por acaso que seu disco novo é rasta até no nome, Vagarosa. Abre com um cavaquinho temperado, na faixa-introdução. O reggae domina já em Cangote, que vem a seguir, e cuja bateria está sendo tocada por uma figura lendária que a música brasileira perdeu recentemente: o baterista Gigante Brazil (morto no ano passado). O reggae é base (incluído até no arrasta-pé portenho da faixa Papa), mas Céu tem o samba como referência epistemológica. Às vezes suavemente electro, às vezes psicodelicamente sexy, a cantora reafirma um lugar original e tranquilo na MPB. O álbum traz um clássico de Jorger Ben Jor, Rosa Menina Rosa, revisado pela voz frágil mas firme de Céu. Tem um dueto perfeito para tocar no rádio com Luiz Melodia em Vira Lata. Ela põe condimentos especiais no disco, como mellotron no baião dub Comadi e trompete em Nascente (parceria com Siba). Los Sebosos Postizos, combo que toca em algumas faixas com a cantora, é na verdade um projeto paralelo do pessoal do Nação Zumbi. Parece uma referência ao grupo Los Cubanos Postizos, do guitarrista de Tom Waits, Marc Ribot. Vagarosa é um pouquinho lounge demais, mas tem duas ou três faixas que valem a viagem. IRMÃO DILETANTE PRECISA AFIAR AS GARRASZELIG: Diogo, o irmão mais velho da Céu, não canta mal. O repertório dele é chique, inclui Baden e Vinicius e Gil, Glenn Miller e Sidney Miller. Ele também compõe, e não o faz mal - muito bacana a letra de Carioquinha, dele e do pai de ambos, Edgard Poças. Então, o que falta a Diogo, por que ele não decola nessa estreia?Falta personalidade, talvez. Diogo transpira até um sotaque baiano quando canta A Linha e O Linho, de Gil, mas ele não é baiano. Diogo também soa meio fake na versão fadística de Saudades do Brasil em Portugal, de Vinicius, tão lusitana quanto o meio-campista Deco. Esse toque zelig na interpretação faz com que cada canção pareça cantada por um sujeito diferente, e termina que a gente não sabe quem é de verdade o Diogo.Cercado por instrumentistas de peso, como o violonista Chico Pinheiro, o baixista Sizão Machado e o pianista, arranjador (e produtor do disco) cubano Pepe Cisneros, Diogo estreia com uma produção caprichada. Mas suas escolhas traem equívocos que resvalam no brega, como em Vizinha da Frente, que parece algo do pior do Emilio Santiago, não de um garoto da Vila Madalena e adjacências.Outra coisa: o que faz ali o standard Moonlight Serenade, qual é o sentido? Exibir os dotes de crooner? Diogo não tem estatura para brincar de Michael Bublé de ocasião (nem de Jamie Cullum). Dispensável. Foi bem melhor a escolha de Felicidade, de João de Barro e Antônio Almeida. Curiosamente, o cantor se sai melhor justamente quando divide vocais com a irmã, Céu, no reggae Pedacinho de Vida e no sambinha Nada Que Te Diz Respeito. Visões um pouco mais leves da tradição, malandrinhas, menos reverentes.

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