Unidos pelo desenho e pelo design

Exposição no Instituto de Arte Contemporânea reúne 340 obras gráficas dos artistas mineiros Amilcar e Willys de Castro

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

06 de maio de 2009 | 00h00

Estranhos, embora íntimos, dois dos mais importantes representantes do movimento neoconcreto brasileiro, os mineiros Amilcar de Castro (1920 -2002) e Willys de Castro (1926-1988) estão reunidos num mesmo espaço a partir desta quarta-feira. No Instituto de Arte Contemporânea (IAC), a estranheza fica por conta das diferenças de procedimento artístico entre ambos, criadores de mesmo sobrenome - sem nenhum grau de parentesco - e signatários do mesmo Manifesto Neoconcreto, redigido há meio século pelo poeta e crítico maranhense Ferreira Gullar. A intimidade justifica-se pela convergência de linguagens aparentemente díspares que servem a um mesmo projeto - no caso, o construtivo. Por diferentes caminhos, ambos chegam a um resultado semelhante: o da valorização do vazio como força propulsora da criação gráfica, tema da mostra Desenho e Design: Amilcar de Castro e Willys de Castro no IAC.Uma extensa pesquisa nos arquivos do instituto, que reúne a obra de quatro vetores da arte contemporânea brasileira - Amilcar, Willys, Mira Schendel e Sergio Camargo - revelou que a afinidade entre os dois primeiros existe particularmente nas duas áreas contempladas pela exposição, a do desenho e do design. Com o trabalho de catalogação da obra do quarteto pelo Núcleo de Documentação e Pesquisa do IAC, ficou evidente para o curador da mostra, o crítico Lorenzo Mammì, que a obra gráfica de Amilcar e Willys ajuda a ver e entender melhor o trabalho artístico da dupla posterior à assinatura do Manifesto Neoconcreto, além de explicar a resistência de ambos aos preceitos concretistas - como o da compulsória redução da escala cromática dos concretos, rejeitada por Willys de Castro.Reunindo 340 objetos dos dois artistas, entre capas de livros, gravuras, esculturas, desenhos, maquetes de edifícios e até peças de vestuário, a exposição surpreende, revelando a origem tanto da escultura de Amilcar de Castro como dos "objetos ativos" e "pluriobjetos" de Willys de Castro - ação quase educativa que mostra como o trabalho de programação visual interferiu decisivamente no procedimento artístico de ambos. Assim, ao assinar o projeto de reforma gráfica do Jornal do Brasil, em 1957, cuja diagramação eliminou fios e valorizou áreas de "vazios ativos" (espaços em branco entre a ilustração e o texto), Amilcar de Castro encontrou o caminho para as "esculturas de corte" que o tornaram mundialmente conhecido - obras em chapa de ferro ou aço cor-ten, cortadas ou dobradas, em que formas geométricas dialogam com o espaço vazio, criando novas figuras.Do mesmo modo, ao renegar o principal mandamento dos concretistas e explorar as relações entre forma e cor, Willys chegou aos "objetos ativos" (1959) por meio da execução de marcas e logotipos de seu Estúdio de Projetos Gráficos, criado em 1954 com o parceiro Hércules Barsotti, hoje com 95 anos. Assim chamado por obrigar o espectador a se movimentar em volta dele para observar a obra em sua totalidade, o "objeto ativo" leva a uma nova percepção espacial que uma tela, limitada pela superfície bidimensional, não permite. Essa peças retangulares de madeira - batizadas de "objetos ativos" - provam que inexiste um posto ideal para o observador, submetido à instabilidade de seu ângulo de visão, questão formal - e filosófica - igualmente levantada pelas esculturas de Amilcar.O curador Lorenzo Mammì acha curioso o fato de dois signatários do movimento neoconcreto terem explorado a relação entre arte e design, tão cara aos artistas concretos da escola de Max Bill, resistentes à ideia da obra de arte como objeto autônomo e dissociada de uma realidade pós-industrial. Os neoconcretos, como se sabe, rejeitavam o extremo racionalismo dos seguidores da escola de Ulm e, no caso de Amilcar e Willys, segundo Mammì, houve um "afrouxamento da relação entre arte e design industrial". A diferença entre ambos, segundo ele, é que, no caso do primeiro, não houve praticamente um "projeto" de obra. "Ele passava sem grandes estudos de um modelo em escala reduzida para peças de grandes dimensões." Já na obra de Willys, meticuloso, tudo era planejado e medido antes de virar objeto. "Para Amilcar, tudo é coisa", diz Mammì, dando a entender que seus objetos gráficos não se diferenciam dos objetos artísticos - de fato, suas esculturas são ?desenhos? no espaço que apenas pesam algumas toneladas.Mammì, crítico de origem italiana, ficou impressionado quando conheceu a obra dos dois Castros ao desembarcar no Brasil, em 1986. Por essa época, ele mostrava mais interesse pelos artistas do grupo Fluxus e performáticos, até ser desafiado pela obra de Amilcar e Willys. "Acredito que a grande contribuição dos dois é ter provado que não se pode reduzir a forma à Gestalt", resume o crítico, diante dos últimos trabalhos de Amilcar - desenhos expressionistas surpreendentes para um artista neoconcreto. Mais surpresos ficarão os visitantes da exposição diante das estampas desenhadas por Willys para a Rhodia, nos anos 1970: tal orgia cromática faria corar concretos luteranos. ServiçoDesenho e Design: Amilcar e Willys de Castro. IAC. R. Maria Antonia, 242, 3255-2009. 10/ 19 h; dom., 12/17 h. Até 2/8

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