Unhas do pé

Só depois de começarem a viver juntos a Maura descobriu que o José não tinha unhas nos dedos do pé. Sem saber como abordar o assunto com o próprio José ("E por falar nisso, que fim levaram as suas unhas do pé?" não dava) Maura decidiu recorrer à sua melhor amiga, Franceline. Que, aliás, já tinha lhe alertado:- Esse José é meio esquisito...Maura não lhe dera atenção e ali estava a prova. Além do seu jeito paradão, de não piscar e de colocar sempre os pronomes no lugar certo, José não tinha unhas nos dedos do pé.Seria uma doença? Algo que lhe fizera perder as unhas? Não. A ponta dos seus dedos eram lisas como a cabeça de monges tibetanos, sem nem um vestígio de unhas. - Ele já nasceu sem elas - garantiu Maura.- Já nasceu... - disse Franceline, fechando um olho, como fazia sempre para mostrar que ninguém podia enganá-la - ou foi feito?- Feito? Você acha que...- Você é que vai ter que descobrir, filhota. A tese da Franceline era que José era um mutante ou um robô. Nenhum homem normal tinha um perfil como o dele, ou jamais perdia a calma e levantava a voz como ele. E a invariável correção gramatical? E a tabuada na ponta da língua? E a pizza sempre cortada em fatias exatamente iguais?- É... - concordou Maura.- Ele sua?- Pensando bem, não.- Tem mau hálito?- Não.- Arrota na mesa? Dá pum na cama? - Não que eu note - E o sexo de vocês, como é?- Meio mecânico.- Eu sabia! Franceline desenvolveu sua tese. José não era um homem, era um aperfeiçoamento. Saíra de algum laboratório onde se projetava um progresso programável da espécie, começando pela eliminação de tudo que era supérfluo e desnecessário no corpo humano. Como, por exemplo, as unhas dos dedos do pé. Que não serviam para nada, que só continuavam a existir por uma distração da evolução, que...- Espera aí - disse Franceline, interrompendo-se. - Ele tem mamilos?- Mamilos? Tem.- Hmmm. Isso destrói a minha teoria. Mamilos em homem também não servem para nada. Se minha tese fosse correta, também seriam eliminados. A não ser que tenham algo programado para eles no futuro... Aleitamento masculino. Homens parindo, para ver o que é bom. Sei lá. Ou então... Franceline parou porque viu que Maura estava sorrindo. Maura tinha o rosto iluminado. Franceline ia dizer que, em vez de um homem criado em laboratório ou um robô, José poderia ser um extraterrestre, pronto para impregná-la e começar a povoação da Terra por uma raça alienígena sem unhas no pé. Mas viu no rosto iluminado de Maura que ela estava em êxtase. Ainda tentou convencê-la:- Maura, é melhor largar esse cara. Seus filhos podem nascer com nadadeiras nos quadris, um olho na nuca e celular em vez de cérebro. Você corre sério risco!Mas Maura não estava ouvindo. Fosse quem fosse, José a escolhera. Ele era diferente, mas ela era a escolhida. O importante não era ele. Era ela! E, mesmo, a Franceline nunca aprovava os seus namorados.

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