Uma volta ao passado que diz muito sobre o presente

Foi durante a turnê latino-americana do conjunto Les Arts Florissants, dedicado à pesquisa da música barroca. Pouco depois da meia-noite, o lobby de um hotel em Montevidéu foi inundado por canções de Gershwin. Depois do estranhamento, a confirmação - os mesmos músicos que horas antes haviam dedicado um concerto à música de Charpentier agora improvisavam e se divertiam com standards da música americana. No dia seguinte, perguntei ao maestro do grupo, o norte-americano William Christie, como unir o rigor da música historicamente informada com a liberdade do jazz. "E por que não?", disse. A história revela um pouco das muitas facetas da corrente da música historicamente informada. Iniciado nos anos 50 e intensificado nos anos seguintes, o movimento significou a volta ao passado em um momento em que a música contemporânea afastava os intérpretes. Essa volta era incondicional - o que interessava, acima de tudo, era recuperar as técnicas de interpretação da época em que as obras eram escritas. Autenticidade foi palavra de ordem e, de uma hora para outra, tocar Bach, Mozart e Charpentier com instrumentos modernos passou a soar como heresia. Há um rigor subentendido nesse processo de pesquisa, em que o músico precisa se despir das técnicas, estilos e convenções de sua época e viver, ao menos musicalmente, em séculos passados. No entanto, estamos falando de aproximações. Fazer música é fazer escolhas - e o estudo da história apresenta lacunas que precisam ser preenchidas por quem hoje olha para trás. No melhor dos mundos, essa volta ao passado acaba dizendo muito sobre nossa própria época.

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

20 Agosto 2008 | 00h00

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