Uma vida ''imensa'', por Patricia Pillar

Atriz assina Waldick Soriano - Sempre em Meu Coração, resgatando a tragicidade do artista ?brega? que morreu em 2008

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

28 de agosto de 2009 | 00h00

Patricia Pillar admite que há tempos vinha desenvolvendo o desejo de passar à direção de cinema. "Selton Melo, Matheus Nachtergaele, Malu Mader, todos fizeram os filmes deles, surgidos quase ao mesmo tempo. Eu também queria e era uma consequência natural de estar atuando há tanto tempo. Para mim, atuar integra o esforço de contar uma história e ela sempre me interessou como um todo. O desejo havia - a surpresa, até para mim, foi estrear com um documentário. Achei que seria com uma ficção." Veja o trailer de Waldick Soriano Mas esse documentário faz sentido. Waldick Soriano - Sempre em Meu Coração tenta dar conta de uma vida imensa, com lances do mais puro folhetim. O garoto pobre do Nordeste trabalha nas funções mais humildes até ter chance de virar cantor e, mesmo aí, apesar do seu imenso sucesso, ainda tem problemas para ser aceito pelo público mais sofisticado e intelectual. É ?brega?. "A vida do Waldick tem lances da mais pura ficção. Comecei a colecionar seus discos, conhecia a obra de cor. De repente, percebi que não importa a música, mal ele começava a cantar eu já ia desenrolando a letra. Ao mesmo tempo, me incomodava a discriminação. Essas histórias de pessoas colocadas à margem mexem comigo. Isso estimulou meu desejo de fazer alguma coisa com ele."Mas, no início, não era um filme e sim um show, que Patricia dirigiu para que Waldick voltasse a cantar com grande orquestra. "Waldick não se encaixava no modelo vozeirão de Nelson Gonçalves e também não tinha o registro delicado de João Gilberto, mas tinha uma bela voz. Cantava com sentimento. Grandes maestros como Guerra Peixe orquestraram para ele e a ideia do show surgiu daí." A própria Patricia dirigiu o show num cinema de Fortaleza, posteriormente lançado em DVD. Ontem, ela voltou à capital do Ceará para a pré-estreia de Sempre em Meu Coração. "Já fizemos pré-estreias em Caetité, no interior da Bahia, onde ele nasceu, e depois no Rio, em São Paulo e Salvador. Quis encerrar aqui, antes do lançamento, como agradecimento à cidade que nos acolheu tão bem", disse a atriz e diretora numa entrevista por telefone, ontem.Patricia colheu, há pouco, o que talvez seja o maior sucesso de sua carreira, na novela A Favorita, da Globo. O repórter provoca. Waldick poderia ser a trilha da personagem que ela interpretava, a perversa Flora. Em que sentido? Novela é melodrama e ele cantava aquelas músicas bregas, num estilo derramado. Os críticos detestavam, como muitos ainda detestam o melodrama. Ela concorda e lamenta o preconceito contra o artista popular. Waldick viveu tanto que carregava uma tristeza, por tudo que sofreu, pelos problemas com as mulheres e o filho. "Era uma vida tão de ficção que me liberou para fazer o documentário."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.