Uma vida de verdade, e coragem

Morto este mês, Alexander Soljenitsyn deixou legado de luta contra totalitarismo

Elena Vássina, O Estadao de S.Paulo

10 de agosto de 2008 | 00h00

Já faz tempo, o escritor russo Alexander Soljenitsyn, Nobel de literatura e autor do lendário O Arquipélago Gulag, parecia imortal. Por isso, soou quase inacreditável a notícia de sua morte no domingo, 3 de agosto. Completaria 90 anos em dezembro e, até o último momento, trabalhava na edição de suas obras completas em 30 volumes.Os inúmeros necrológicos, as mensagens de condolências e a repercussão em todo o mundo, revelaram uma rara unanimidade a respeito do papel colossal desempenhado por Soljenitsyn ao longo de sua vida. "O último clássico da literatura russa, legítimo herdeiro de Dostoievski e Tolstoi, Soljenitsyn encerrou a fila dos titãs". "Grande escritor, grande homem, grande pensador. Só pode ser comparado a Tolstoi". "O Dante Alighieri de nossos tempos". "Profeta do século 20".Toda vida e obra de Soljenitsyn transcendem o princípio que ele achou primordial para a existência humana: "Viver sem mentira." É isso que sempre lhe deu a coragem de falar tudo aquilo que a maioria tinha medo até de pensar. No texto de discurso enviado ao comitê do Prêmio Nobel, Soljenitsyn assim falou: "É um ato simples de um simples homem corajoso não participar da mentira, não apoiar as ações mentirosas... Escritores e artistas conseguem ainda mais: vencer a mentira! Na luta contra a mentira, a arte sempre venceu e sempre vence!"Durante muitos anos, as obras de Soljenitsyn foram proibidas na União Soviética e em todos os países "do bloco socialista". Seu nome era pronunciado em voz baixa e a leitura samizdat (prática na qual textos e livros proibidos pelo governo eram copiados e distribuídos clandestinamente) de O Arquipélago Gulag era considerada crime que deveria ser punido com sete anos nos campos de trabalhos forçados. Cada um que conseguiu a cópia do livro de Soljenitsyn (só por alguns poucos dias, porque a fila dos leitores sempre era grande!) tinha plena consciência do risco que corria. Para a minha geração, a leitura de O Arquipélago Gulag tornou-se uma primeira experiência da coragem civil. Lembro-me que, em setembro de 74, o fotógrafo Felix trouxe à nossa casa duas caixas de sapatos que escondiam o tesouro: fotografias 10X15 de todas as páginas de O Arquipélago Gulag. Meus pais e eu tínhamos três noites para ler o livro e devolvê-lo a Felix. Não sei exatamente quantas pessoas mais tinham conseguido ler essas "fotografias", mas, no fim do ano, soube que Felix tinha sido preso pela KGB, acusado de propaganda anti-soviética.Parecia um eterno círculo vicioso: como se a história voltasse atrás, no fim da Segunda Guerra o jovem capitão de artilharia do Exército soviético Alexander Soljenitsyn foi detido e condenado a oito anos de trabalhos forçados no Gulag (sigla russa para Administração Geral dos Campos). A acusação baseou-se em carta enviada a um amigo na qual criticava Stalin. Soljenitsyn passou oito anos como prisioneiro do Gulag. Foi uma experiência de sofrimentos, porém decisiva na formação da personalidade e no amadurecimento do talento "cruel" do escritor que se tornou conhecido de um dia para o outro. A primeira novela, Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch, foi publicada em novembro de 1962 na revista literária Novy Mir (claro que essa publicação ocorreu graças à bênção de Nikita Kruchev, "pai" da época do "degelo" soviético que, dizem, chorou lendo a obra de Soljenitsyn). Esse relato, quase documental, recriou um dia na vida de um prisioneiro do Gulag, um simples camponês russo. Era a primeira obra literária que conseguia transmitir com impressionante força artística a verdade sobre os campos de concentração soviéticos. A realidade era chocante, violenta, incrível, dolorosa, mas absolutamente necessária para despertar a consciência de leitores e fazê-los sentir toda a dor do outro ou, melhor, de seu próximo, como se fosse a própria. A publicação obteve repercussão bombástica. Uma das mais importantes poetas russas, Anna Akhmátova, ao ler Um Dia na Vida de Ivan Denissovitch, disse: "Cada um dos 200 milhões de cidadãos da União Soviética está obrigado a ler e a decorar essa novela." Desde o início, Soljenitsyn representou uma poderosa força moral e conseguiu repassar a coragem aos leitores. Certamente, a publicação de Ivan Denissovitch era um dos vários milagres (basta só lembrar a milagrosa cura do câncer em 1953) na biografia de Soljenitsyn. Já a partir de 1964, o novo primeiro-secretário do PC da URSS, Brejnev, começa a "fechar a torneira", reduzindo ao mínimo a conquistada liberdade de expressão. A partir daí, e até o fim do regime soviético, todas as obras de Soljenitsyn (O Primeiro Círculo, O Pavilhão de Cancerosos) só seriam publicadas no Ocidente. Por mais de 10 anos (1958- 1968), Soljenitsyn dedicou-se à criação de O Arquipélago Gulag, sobre o qual afirmou: "Foi uma experiência de análise artística do sistema repressivo soviético de 1917 até 1959." O escritor recolheu depoimentos dos sobreviventes do Gulag e documentos que serviram de base para a narrativa, que evidencia um assustador painel histórico de repressão e violência do regime soviético. O Arquipélago Gulag, fiel ao gênero documental, apresentou os fatos e nada além dos fatos. E foram esses fatos que atraíram o leitor pelas veredas do terror stalinista e o fizeram descobrir o gosto pela verdade, liberdade interior, livre-arbítrio, compaixão, ou seja, todos aqueles "velhos" valores esmagados pelo poder totalitário. E talvez um dos traços mais geniais de Soljenitsyn seja sua enorme força moral que nos ajuda a superar a descida pelos vários círculos do inferno e a conseguir enxergar a luz divina. Em 1970, Soljenitsyn ganhou o Nobel de Literatura. A Academia Sueca citou "a força ética com a qual ele perseguia as tradições indispensáveis da literatura russa". Porém, perseguido e cercado por todos os lados pela KGB, o escritor não tinha a mínima possibilidade de viajar a Estocolmo para receber o prêmio. O Arquipélago Gulag foi publicado em Paris em dezembro de 1973. E, três meses depois, Soljenitsyn foi preso e expulso da União Soviética e foi morar na antiga Alemanha Ocidental. Desde então, o escritor passou 20 anos no exílio, primeiro na Suíça e em seguida nos Estados Unidos, levando uma vida de eremita e dedicando todo o seu tempo à criação literária. No exílio, foram escritos os quatro principais volumes da sua grandiosa epopéia histórica, A Roda Vermelha.Em 1994, Soljenitsyn, entusiasmado com o fim da era comunista, decidiu voltar à sua querida mãe Rússia que, até o fim de sua vida, não deixou de ser uma fonte de amargas decepções patrióticas. E ele ficava mais e mais isolado na sua casa nos arredores de Moscou. Como o verdadeiro profeta, sempre solitário. Elena Vássina é professora de literatura russa na USP

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