Uma viagem ao fundo do mar social

O acadêmico Sudhir Venkatesh narra sua experiência como integrante da gangue de traficantes Black Kings, de Chicago

Caio Blinder, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2008 | 00h00

Armado com uma prancheta, seu marxismo acadêmico e seu rabo-de-cavalo, o estudante de sociologia da Universidade de Chicago Sudhir Venkatesh, de 23 anos, chegou num sábado de novembro de 1989 para iniciar seu trabalho de campo nos ''projects'' (os conjuntos habitacionais subsidiados) da cidade. Era mais um exame da cultura da pobreza.O objeto do estudo eram os integrantes das gangues de traficantes negros no auge da epidemia de crack nos EUA. Para os incrédulos jovens dos Black Kings, aquele rapaz de classe média, nascido na Índia e criado na Califórnia, lançou a pergunta com múltiplas escolhas: como você se sente sendo pobre e negro? Muito mal, de alguma forma mal, nem mal nem bem, de alguma forma bem, muito bem?Venkatesh não esperava a sexta escolha de um dos jovens: ''F... you. You got to be f...kidding.'' Não era brincadeira. Por 17 horas, ele ficou retido, sem saber se morreria ou não. Havia suspeita sobre o tipo exótico, talvez um ''Julio'', integrante de gangues rivais de mexicanos. Venkatesh sobreviveu e nos sete anos seguintes ele fez parte do mundo dos Blacks Kings.Como um antropólogo de culturas indígenas que se torna cara-pintada, o sociólogo Venkatesh ficou ''nativo''. Ele cruzou a fronteira acadêmica e moral com sua imersão naquela universo do ''project'' Robert Taylor Homes, um favelão vertical com 28 arranha-céus. Daí o título do livro Gang Leader for a Day (The Penguin Press, 302 páginas, US$ 25,95). Um pouco sensacionalista, pois naquele dia, ele nem traficou nem matou. Apenas tomou algumas decisões no lugar de J.T. o carismático líder da gangue e personagem central do livro.Mas naqueles anos, Venkatesh foi cúmplice, instrumento e manipulador. Esteve implicado na brutalidade e na sordidez. Viu os gângsteres espancarem um velho e nada fez. Certa vez participou da surra dada em um sujeito que batera em uma mulher. Para melhorar seu acesso à gangue, Venkatesh passou informações sobre a renda dos moradores do ''project'', que serviram para intimidação e extorsão. Ele passou a ser chamado pelos gângsteres de Mr. Professor.O professor agora conta suas impressões de viagem ao fundo do mar social. Venaktesh já ganhara fama quando seu material sobre a estrutura econômica dos Black Kings foi usado no best-seller Freakonomics, de Steven Levitt e Stephen Dubner. No seu livro de hoje, há momentos em que as atividades da gangue são tratadas como um negócio como outro qualquer. E em uma história familiar de deliquentes, J.T. se considera e muitas vezes se comporta como um líder comunitário diante da ausência de governo.Há também o envolvimento emocional. Venkatesh escreveu que não podia deixar de sentir um ''senso de orgulho'' pelo sucesso profissional de J.T. E arremata que tais sentimentos eram acompanhados de ''vergonha'' pela prazer de acompanhar a ascensão de um gângster que traficava drogas. Mesmo assim, Venkatesh não largou o seu projeto no ''project'' de Chicago. Apesar das dúvidas de seus professoras a respeito da imersão, ele foi cada vez mais fundo e isto foi ótimo para sua carreira. Venkatesh tirou vantagem do ego de J.T. (dizendo que a pesquisa de campo serviria para uma biografia). Em 1996, Venkatesh ganhou uma bolsa em Harvard e mais tarde se tornou professor de Columbia, em Nova York.Uma justificativa de Venkatesh é que ele era muito jovem, sem um compasso moral muito preciso. E há a noção de que métodos tradicionais não funcionariam para o estudo. Sem a imersão naquele mundo brutal e sórdido, talvez fossem difíceis observações como a seguinte: as mães permitiam que os filhos fizessem xixi na escada do prédio para que as prostitutas não se congregassem por ali.Venkatesh assistiu a uma sessão de recrutamento de adolescentes pelos traficantes dos Black Kings. Um deles pergunta se há treinamento remunerado e se, em alguns dias da semana, ele poderia continuar no seu trabalho legítimo num lugar tipo McDonald''s, pois, em caso contrário, seria expulso de casa.Mas o negócio de J.T. não era como outro qualquer. O ''project'' Robert Taylor Homes era um atestado da falência da política assistencialista americana e foi demolido. Com a crise no seu próspero mercado, J.T. passou a ganhar menos dinheiro e se cansou de liderar uma gangue. Ele tentou algumas atividades legítimas e fracassou. J.T. ainda faz um trabalho de consultoria para os Black Kings e se reúne vez ou outra com Sudhir Venkatesh quando a estrela acadêmica em ascensão, e ex-líder da gangue por um dia, aparece por Chicago.

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