Uma verdadeira autora popular

Com cerca de 4.500 títulos publicados, Corín Tellado levou a milhões de leitores a maravilhosa experiência da ficção

Mario Vargas Llosa, O Estadao de S.Paulo

30 de maio de 2009 | 00h00

Por culpa dos antropólogos, o termo incultura desapareceu do vocabulário. No passado, a noção de cultura estava associada ao conhecimento elevado, humanístico e científico - ao domínio das artes, ao bom gosto e a uma sensibilidade refinada. A antropologia generalizou essa acepção, para abranger todas as manifestações da vida de uma comunidade, de modo que hoje encontramos na imprensa expressões como "a cultura de comer carne humana", a "cultura do contrabando", a "cultura do futebol", e coisas ainda piores. Ninguém é mais inculto, todos nos tornamos cultos de alguma maneira, no que se constituiu, sem dúvida, a apoteose desta civilização marcada pela tendência à frivolidade.Neste contexto não é errado dizer que Corín Tellado, que morreu no mês passado aos 82 anos, foi provavelmente o fenômeno sociocultural mais notável da língua espanhola desde o Século de Ouro. O que pode parecer uma heresia, e é de fato do ponto de vista qualitativo, mas não quantitativo. Porque nem Borges, nem Gabriel García Marques, Ortega y Gasset, ou algum outro dos mais originais criadores ou pensadores da nossa língua, alcançaram um público tão grande e nem influíram tanto na maneira desse público sentir, falar, amar, odiar e entender a vida e as relações humanas como María del Socorro Tellado López, apelidada de Socorrín por sua família e amigos, que, em 1946, com 19 anos, escreveu em Cádiz o seu primeiro romance, uma história angelical em que um jovem marinheiro aposta que conseguirá beijar uma garota. Corín Tellado deixou cerca de 4.500 romances, sem contar as peças de radioteatro, telenovelas, fotonovelas e filmes inspirados em suas obras que a deixaram célebre.Soube da existência dela em Paris, nos anos 60, quando uma sobrinha minha, que chegara de Lima, trouxe uma mala repleta de romances da sua autora favorita. Uma precaução inútil porque havia na Rue de la Pompe um quiosque dedicado exclusivamente a vender, alugar ou fazer intercâmbio de obras de Corín Tellado, cujas clientes eram principalmente as empregadas domésticas espanholas e hispano-americanas.Desde então fiquei tentado a conhecer essa extraordinária escritora que conseguira atingir um público jamais alcançado por livros de autores "cultos" da Espanha ou da América espanhola. Só consegui entrar em contato com ela em 1981, quando a entrevistei para um programa semanal, La Torre de Babel, que fiz por seis meses para a TV peruana. Não foi nada fácil conseguir a entrevista. Sua desconfiança era justificada, pois ela já tinha sido ridicularizada por alguns articulistas.Foi uma grande surpresa quando a conheci, na sua casa em Roces, próximo de Gijón. Tinha cerca de 50 e poucos anos. Era baixinha, simpática, modesta, tímida, mas desenvolta e não suspeitava nem um pouco da fantástica popularidade que desfrutava nas camadas média e popular de uma vintena de países de língua espanhola e nas comunidades "hispânicas" de Nova York, Miami, Texas e Califórnia. Era uma mulher do interior, cuja vida passou entre Astúrias, Cádiz e Galicia, dedicando-se manhã, tarde e noite a escrever histórias de amor e desamor. Do seu fugaz casamento teve os filhos Begoña e Domingo, mas, fora isso e a separação, durante toda a sua vida se dedicou a fantasiar e a escrever.Tinha uma rotina disciplinada e laboriosa. Sua governanta resolvia todos os problemas práticos e a acordava às 5 da madrugada. Imediatamente, ela se fechava no escritório, uma sala claustrofóbica, sem janelas, abarrotada de romances seus e ali permanecia dez horas escrevendo, com uma rápida pausa às 8 para o café da manhã. Escrevia sem parar e sem corrigir.Mas ao sair do escritório, no meio da tarde, já estava com 50 páginas ungidas e sacramentadas, metade do romance pronta. Escrevia dois por semana e, nesse ritmo, sua obra chegava a 3 mil volumes. Ela me disse que o seu problema como escritora era que a sua cabeça "funcionava mais rápido do que sua habilidade de datilógrafa". Fora essas dez horas diárias de trabalho, sua vida não podia ser mais monótona e frugal. Quatro jornais diários, uma boa sesta, alguma vez um livro, uma visita a uma amiga, de vez em quando um cinema. Algumas vezes ia a Gijón, para compras ou um restaurante. Mas para estar de volta em casa e na cama antes das 10 da noite. Nos meses de verão, banhos na piscina, uma ou outra partida de tênis. Quando lhe perguntei sobre seus autores favoritos, percebi um certo incômodo e mudei de assunto. Sua ocupação não era ler, mas escrever. E tinha uma facilidade tão grande, que as histórias saíam da sua máquina incansável, como as palavras e a sua respiração. Não conhecia esse súbito pânico paralisante diante de uma página em branco que, de vez em quando, toma conta dos escritores com falta de ideias. Escrever era tão fácil e natural como respirar.Sua absoluta falta de vaidade era assombrosa. Disse que sempre ficava maravilhada ao pensar que tanta gente lia seus romances e era evidente que falava a verdade. Seu editor a fez acreditar que imprimia somente 30 mil exemplares de cada um dos seus romances e, embora ela soubesse que aquele número não condizia com a realidade, não se importava. Se os editores apresentavam contas erradas, dava de ombros. Contou-me que, às vezes, as exigências que faziam eram mais incômodas do que as dos censores, na época de Franco, que muitas vezes passaram a tesoura em suas histórias. Mas isso também não a incomodava muito, porque os cortes suavizavam as frases incriminadas. E me revelou, como prova da sua paciência franciscana e seu espírito de compreensão diante das incompreensões do mundo que, num de seus romances, ela tinha inventado um personagem cego. O editor devolveu o manuscrito com uma ordem: "Opere-o." Ela, claro, o operou.Mesmo nunca tendo lido um livro de Corín Tellado, sempre a respeitei e a tratei com carinho e gratidão. Graças a ela, centenas de milhares, talvez milhões de pessoas que, de outro modo, nunca teriam aberto um livro, se emocionaram e por um momento viveram a experiência maravilhosa da ficção. Ela foi provavelmente a última escritora popular, no sentido mais exato da palavra, que levou uma variante (fácil, elementar, sentimental e truculenta) da literatura para um vasto público, aquele que jamais entra numa livraria e passa rapidamente pelas seções culturais das revistas, achando que literatura é algo maçante. É provável que, com ela, desapareça da nossa língua a literatura digna de ser chamada popular. O que existe já não o é e será cada dia menos, à medida que as telas dos computadores vão exterminando os livros, ou empurrando-os para as catacumbas. Amiga Socorrín, descanse em paz.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.