Uma trama feita de genética e de afeto

À Espera do Sol e Bem Que Eu Queria Ir mostram que a química cerebral e os fatores familiares se unem nos distúrbios

Sérgio Telles, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

É longo o trajeto que a loucura fez até ser compreendida como uma doença e, como tal , ter suas causas estudadas e estabelecidos seus tratamentos. Mesmo assim, a doença mental continua sendo vista como algo inquietante e assustador, causando medo e preconceitos. Dois livros agora lançados no Brasil ajudam na compreensão do transtorno psíquico, ao descrevê-lo de dentro, como experiências pessoais, pois seus autores o vivenciaram diretamente. Um deles é À Espera do Sol, de Michael Greenberg. Publicada no ano passado nos Estados Unidos por uma pequena editora, a obra foi um inesperado sucesso, logo traduzida para 16 idiomas. Nela, o autor relata com sensibilidade e acuidade psicológica o impacto causado em seu núcleo familiar pela eclosão de um violento surto psicótico em Sally, sua filha de 15 anos, no verão nova-iorquino de 1996. O outro trabalho é Bem Que Eu Queria Ir, de Allen Shawn. O livro narra as inúmeras e graves fobias do autor. Em seu testemunho, Shawn intercala material informativo sobre as causas das fobias com trechos autobiográficos, nos quais reflete sobre sua vida marcada pela existência de uma irmã gêmea autista e pela vida dupla do pai, que mantinha outra mulher. Ao discorrer sobre as causas do transtorno da filha, Greenberg fica incomodado com a posição que julga ver nos psiquiatras, pois ao mesmo tempo em que eles afirmam que a doença decorre de fatores genéticos condicionadores de alterações químicas no cérebro e dão pouca importância à história de vida do paciente e aos seus relacionamentos afetivos importantes, sub-repticiamente terminam por atribuir aos pais a responsabilidade pela doença dos filhos. Faz algum sentido a queixa do escritor. Talvez ela reflita alguns mal-entendidos decorrentes da dupla causalidade da doença mental. Sabe-se que os transtornos psíquicos se devem a dois fatores determinantes que não se excluem, pelo contrário, potencializam-se. Por um lado, a carga genética que determina o desequilíbrio dos neurotransmissores cerebrais, provocando alterações no funcionamento mental. E, por outro, o meio ambiente, que propiciará ou não o desenvolvimento destas tendências genéticas.O meio ambiente, por sua vez, pode ser entendido de duas maneiras. Uma, como o somatório das experiências concretas efetivamente vividas pelo sujeito na realidade externa e que o marcarão, eventualmente produzindo sintomas. A outra - própria da psicanálise - acredita que além da realidade externa deve ser levada em conta prioritariamente a realidade psíquica, geradora de traumas fantasmáticos, decorrentes dos conflitos inconscientes próprios do fluxo pulsional. São de máxima importância as relações primárias com a mãe e o pai, nas quais os desejos inconscientes de ambas as partes (pais e filhos) jogam papel determinante. Ao contrário do que acontecia alguns anos atrás, o aporte psicanalítico à compreensão da clínica do transtorno mental foi deixado em segundo plano pela psiquiatria norte-americana. Isto faz com que os psiquiatras já não procurem entender os quadros psíquicos à luz da história do paciente e de suas experiências emocionais e relacionais mais significativas, e os atribuam quase de modo integral às alterações dos neurotransmissores cerebrais, geneticamente determinadas. A abordagem psicoterapêutica preferencial deste enfoque psiquiátrico é a cognitiva, baseada na dimensão consciente do psiquismo e na informação racional de dados sobre a doença feita aos pacientes, treinando-os para conter seus sintomas. Vê-se que é uma forma diferente da abordagem psicanalítica, que parte do pressuposto de uma dimensão inconsciente da mente, organizada pela introjeção das relações primárias objetais (mãe, pai, etc.), razão do caráter simbólico, deslocado e descentrado do sintoma, que necessita ser interpretado.Por isso é muito interessante que tanto Greenberg como Shawn, quase à revelia dos psiquiatras, estabeleçam, eles mesmos, uma clara ligação entre a sintomatologia e as perturbações que constatavam nas relações familiares. No caso de Greenberg, somos informados que seu irmão, Steve, tem sérios problemas mentais. Quando sua filha Sally entra em surto, o escritor teme ver nisso a evidência de uma predisposição genética familiar. Na ocasião da internação de Sally, a mãe de Greenberg, com quem ele tinha uma relação difícil, vem cuidar da neta e faz ao autor confidências inusitadas. Ao tentar afastar o fantasma de uma predisposição hereditária, assegura-lhe que o caso de Sally nada tem a ver com o do tio, pois sabe exatamente o que provocou a doença dele. É quando revela ter rejeitado Steve, que teria nascido num momento difícil de seu casamento, motivo pelo qual não encontrou disposição emocional para abrigar aquele filho indesejado. Chegara ao extremo de "esquecer" o bebê ao relento num inverno rigoroso, numa possível tentativa inconsciente de deixá-lo morrer. Ao deslocar o foco da doença da filha Sally para a do irmão Steve e dar uma explicação tão taxativa sobre as origens da doença dele - ou seja, a ênfase na relação patógena da criança com a mãe, o que deixa em segundo plano a eventual predisposição genética -, Greenberg abre a porta para que se pense o mesmo em relação a Sally. Indiretamente reconhece que na instalação da doença da filha foram importantes os conflitos familiares, a ruptura de seu casamento e as características de sua ex-esposa - uma mulher mística, fantasiosa, voltada para as concepções new age, declaradamente incapaz de lidar com Sally.Da mesma forma, Shawn chega a conclusões parecidas. Transcendendo as explicações etológicas, neuroquímicas e cognitivistas, mostra a dimensão simbólica de seus sintomas ao ligá-los com sua história, suas fantasias, suas identificações com os pais também fóbicos.Os dois autores reafirmam aquilo que Sigmund Freud (1856 -1939) tinha estabelecido sobre os escritores, ao lhes atribuir uma fina percepção da dinâmica dos conflitos inconscientes. O reconhecimento da importância da trama familiar na evolução da enfermidade mental é uma questão delicada e que deve ser manejada com cuidado, para não ser precipitada e erroneamente entendida como uma acusação que confirmaria os sentimentos de culpa dos pais. Sérgio Telles é psicanalista e escritor, autor de Peixe de Bicicleta (EdUFSCar, 2002), entre outros livros

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