Uma surpreendente história de amor

Fagundes diz que Restos o atraiu pelo tema, pelo interessante jogo dramático que termina com uma grande reviravolta

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

20 de agosto de 2009 | 00h00

É a luz da chama de um isqueiro que primeiro ilumina Antonio Fagundes, depois de abertas as cortinas do teatro. Ele está em um cenário cru, com apenas cinco cadeiras e dois cinzeiros, tudo em tons negros. Fagundes não pisava em um palco fazia três anos, fato inédito em sua carreira. "Durante 35 anos, eu praticamente emendava um espetáculo no outro", explica ele que, depois de muita pesquisa ("li de Shakespeare a autores mais recentes"), descobriu Restos, monólogo escrito pelo cineasta e dramaturgo americano Neil LaBute, em 2005.Uma poderosa história de amor - eis o que motivou a escolha. "A peça tem um interessante jogo dramático que termina com uma grande surpresa (na verdade, algo realmente surpreendente), mas o que de fato fica é a paixão de um homem por sua mulher", conta Fagundes, que interpreta Edward Carr, homem que, naquele momento, está no velório da mulher, Mary Jo, com quem formou um casal durante mais de 30 anos e que morreu em consequência de um câncer.Fumante inveterado (sacar a cigarreira é quase um gesto de puro reflexo), Edward lamenta que justamente a mulher tenha se vitimado primeiro. "Doenças como essa ou qualquer outra, que devagar levam as pessoas da vida da gente - é que vão te comendo por dentro devagarzinho -, são ferrões traiçoeiros que merecem o ódio e o medo que sentimos", desabafa o personagem, em um dado momento, na tradução feita por Clarice Abujamra.Ao contrário de outros personagens criados por Neil LaBute que, em filmes como Na Companhia dos Homens e Enfermeira Betty ou em peças como Baque (encenada por Monique Gardenberg em 2005), solidificaram a fama de misógino graças aos dramas sem reservas ou moralismo, Edward Carr é essencialmente um homem apaixonado. "E de uma maneira tão extremada que, mesmo surpreso com a revelação no final, o público encontrará formas para entender sua atitude", comenta Fagundes.O mistério, de fato, é o chamado golpe de teatro, em que uma revelação inesperada suspende a respiração da plateia, que deixa a sala atordoada com a reviravolta da trama. "O ideal seria o segredo ser mantido, ou seja, quem assistir à peça não contar nada para ninguém", conta Fagundes. "Mas sei que isso não é fácil. Nesse caso, porém, a dramaturgia é sólida o suficiente para não se sustentar apenas na surpresa."Ora relatando o profundo amor, ora a grande perda, Restos sugere uma intimidade com o espectador pela franqueza de seu depoimento, ao mesmo tempo em que se torna profundamente provocador, sem se afastar da temática central, que é universal. Como o título original, Wrecks, permite diversas interpretações (desde ?destroços? até ?pessoa extremamente abatida?), a opção por Restos casa com a história de Edward Carr - junto da mulher, ele construiu uma rentável empresa de carros restaurados.No segundo solo de sua carreira (o primeiro foi Muro de Arrimo, de Carlos Queiroz Telles, em 1975), Fagundes busca uma interpretação pontuada, para estabelecer uma relação absolutamente direta com a plateia. "Para isso foi essencial o envolvimento com o Marcio Aurelio", conta o ator. "Há um ano que combinamos de trabalhar juntos e a estética refinada de sua direção está presente nos detalhes de meus gestos."Fagundes tem o controle total da produção: não usou leis de incentivo ("Cobro o valor que quiser de ingresso") e peitou a lei antifumo que, por isso, abriu uma brecha para personagens fumantes. Trecho Da PeçaDurante o fim de semana choveu a cântaros, na segunda também, mas a terça feira chegou ensolarada, e ela pode ver do seu quarto a beleza daquela manhã. Jo-Jo pediu para passar seus últimos dias aqui em casa, queria terminar aqui, não em algum maldito quarto de hospital e eu concordei. Os meninos discutiram comigo e discordaram até nesse assunto - ela estava deitada e a enfermeira lá embaixo descansando um pouquinho, eu estava sozinho com ela, as crianças dormindo ou ainda não tinha chegado em casa - e ela... ela se deixou ir. Chegou a hora e ela estava pronta, quer dizer, lúcida e... entregue. Distante. Foi uma batalha cruel.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.