Uma sociedade que não tem juízo

Nas bordas da ficção, novo documentário de Maria Augusta Ramos trata do tema da Justiça para menores infratores

Luiz Carlos Merten, RIO, O Estadao de S.Paulo

26 de setembro de 2007 | 00h00

Se não existisse, a juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho teria de ser inventada. Ela própria, livre da toga, teve seu momento de estrela e subiu ao palco do Cine Odeon BR, na segunda à noite, chamada pela diretora Maria Augusta Ramos, na apresentação de Juízo. Cabe observar que começa a se desenhar um diálogo muito interessante entre os filmes da Première Brasil, do Festival do Rio 2007. Juízo dialoga com Tropa de Elite, que abriu o evento, na semana passada, e esse diálogo não é alheio ao universo familiar em desintegração de A Casa de Alice, de Chico Teixeira.Em Justiça, seu documentário precedente, Maria Augusta Ramos havia dirigido a câmera para as varas criminais e seus personagens - juízes, advogados, criminosos de vários tipos e níveis, desde simples infratores até assassinos. Em Juízo, ela filma agora o Tribunal da Infância e Juventude, onde são apreciados os casos de menores infratores. Nenhum outro diretor ou diretora, seja no documentário ou na ficção, filma hoje, no Brasil, como Maria Augusta, o indivíduo e sua relação com as instituições. (É um pouco, também, o tema de Tropa de Elite, a crise do capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, perante o batalhão que ostenta a caveira como símbolo.) Maria Augusta segue os menores diante da juíza e também nas instituições que existem, teoricamente, para regenerá-los, mas na prática cumprem muito mais o princípio de vigiar e punir dissecado por Michel Foucault (e que também é discutido em Tropa de Elite.)Será Juízo o anti-Tropa de Elite? É muito provável que sim, mas seria uma surpresa se o belo documentário de Maria Augusta Ramos provocasse pelo menos parte do agito de público e mídia do thriller de José Padilha. O público encara o personagem de Wagner Moura como um herói, o herói que o Brasil exige hoje, face à crise de insegurança que assola o País (e, especialmente, o Rio). É discutível que Nascimento, ele próprio um homem em crise, seja esse herói - Wagner Moura diz que o heroísmo está no olho do espectador, é muito mais um desejo do público -, mas se o capitão do Bope é um herói, o que seria a juíza Luciana Fiala de Siqueira Carvalho? Uma heroína?Ao encarar o desafio de fazer este filme, a diretora defrontou-se com uma restrição da própria lei brasileira, que impede a exposição da imagens dos menores infratores. Maria Augusta filmou mais, mas selecionou uma meia dúzia de casos exemplares, desde o roubo de uma bicicleta até o parricídio, substituindo os menores em questão por jovens que vivem em circunstâncias de risco similares e cujas histórias poderiam ser aquelas retratadas em Juízo. Os menores escolhidos também não são atores. Todas as demais figuras em cena - juízes, promotores, defensores, familiares e policiais - são reais. A substituição dos menores, nos planos em que eles encaram a câmera - nos planos mais gerais, os personagens verdadeiros estão de costas -, colocou algumas dificuldades técnicas, principalmente no som. O filme trafega, portanto, nas bordas do documentário e da ficção. À falta de uma definição melhor para este híbrido, Maria Augusta diz que faz ''''cinema''''.Juízo marca uma virada importante na carreira do produtor Diler Trindade, ex-Xuxa. O próprio título é esclarecedor. A sociedade recomenda ''''juízo'''' a seus filhos, mas não o pratica, e a juíza durona sabe disso melhor do que ninguém. Luciana Fiala de Siqueira Carvalho tem consciência de que são mínimas as chances que o sistema oferece para a regeneração dos garotos e garotas que passam por sua mesa. Ela tenta persuadi-los, aplica broncas. No fim, a juíza ri do absurdo (digno de Kafka) do caso do menor que fugiu da instituição no dia em que recebeu a condicional porque ninguém se havia dado ao trabalho de explicar-lhe o sentido da expressão ''''liberdade assistida''''. Ao contrário do título, Juízo lida com a falta de juízo da sociedade e das instituições brasileiras.O repórter viajou a convite da organização do festival

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