Uma sátira para a vida de casado

Rita, de Donizetti, estréia hoje no Festival de Inverno, dirigida por Carla Camurati

João Luiz Sampaio, O Estadao de S.Paulo

21 de julho de 2007 | 00h00

Depois de recriar heroínas como Carmen e Butterfly, a diretora Carla Camurati está de volta à ópera. Desta vez, porém, nada de amores frustrados, destinos trágicos. Hoje, no Auditório Claudio Santoro, e domingo, na Praça do Capivari, ela apresenta em Campos do Jordão sua versão para Rita, comédia pouco executada de Donizetti, que ela define como ''''uma saborosa brincadeira sobre a complicada relação entre homens e mulheres''''. No elenco, o tenor Fernando Portari, a soprano Rosana Lamosa e o barítono Paulo Szot.Em Rita, ou o O Marido Que Apanhou, a protagonista é dona de uma hospedaria, que divide seu tempo entre os hóspedes e o marido, o tímido Beppe, com quem se comporta como uma esposa tirana e abusiva. Até seu primeiro marido, Gaspar, que ela acreditava estar morto, reaparecer - não apenas ele está vivo, como volta à hospedaria porque acredita que Rita está morta e quer obter uma certidão de óbito para poder casar-se novamente. Beppe, no entanto, vê a sua volta como uma oportunidade de se livrar da mulher que tanto o maltrata. Os dois maridos fazem uma aposta - e, quem perder, fica com a esposa.Carla diz que está muito feliz com o trabalho. ''''É a primeira vez que faço uma ópera dentro do contexto de um festival de música, é um ambiente muito estimulante. Você tem a chance de ir a concertos, conviver com os artistas'''', conta. Sua produção, explica, tem um caráter atemporal, não datado, que representa as características das personagens, marcando ainda mais os estereótipos.A concepção visual, no entanto, custou-lhe algumas noites de sono. ''''Não queria um cenário tipo gabinete ou mesmo uma hospedaria tradicional. Penei muito para chegar a uma conclusão, que veio a partir de um livro do Bispo do Rosário e sua idéia da multiplicação dos mesmos elementos. Em uma hospedaria, temos essa multiplicação: muitas camas, muitos copos, muitas mesas, muitos talheres.'''' Outra inspiração surgiu das gravuras do artista norte-americano Robert Rauschemberg, neodadaísta, inovador na arte contemporânea. ''''No fim, chegamos a um conceito visual bonito, interessante, que conceitua a hospedaria ao mesmo tempo em que serve bem às nossas marcações cênicas, que têm como objetivo ressaltar o caráter lúdico da ópera.''''E como ela percebe a diferença entre as óperas dramáticas, as grandes mulheres do repertório operístico com quem já trabalhou, e o repertório cômico. ''''O que acho interessante na ópera é a riqueza de personagens femininas, sempre com estruturas dramáticas muito ricas. E o mais rico é que essa densidade dramática é também musical, é um prazer enorme criar uma concepção para obras assim.'''' O espetáculo marca a primeira apresentação da Orquestra Acadêmica, formada por alunos e professores do festival. A regência estará a cargo da maestrina paulistana Debora Waldman, radicada em Paris, onde atua como assistente do maestro Kurt Masur à frente da Orquestra Nacional da França.FIM DE SEMANAAlém da ópera, a programação do terceiro fim de semana do Festival de Campos do Jordão tem outros bons destaques. Depois de se apresentar ao lado da Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília, sob regência de Ira Levin, a trompetista Alison Balsom volta a tocar, agora ao lado do pianista Richard Bishop, velho integrante do corpo docente do evento - no programa, que será apresentado no Palácio Boa Vista, amanhã, às 16h30, obras de Chopin, Debussy, De Falla e Gershwin, entre outros.Também amanhã, às 17 horas, na Praça do Capivari, os alunos de regência do festival se revezam à frente da Orquestra Acadêmica para interpretar obras de Copland, Beethoven, Dvorák e realizar a estréia mundial de Sun d''''Oro Suíte, de Silvia de Lucca, escrita especialmente para o festival (os alunos de canto também se apresentam amanhã, às 15 horas, na Igreja São Benedito, com Ricardo Ballestero ao piano). Amanhã à noite, no auditório, será a vez do concerto da Orquestra Sinfônica Municipal, que sobe a serra sob o comando de José Maria Florêncio - os destaques são a presença do pianista Jean-Louis Steuermann como solista do Concerto nº 1 para Piano e Orquestra, de Rachmaninov, e, na segunda parte do programa, a monumental Sinfonia Fantástica, de Berlioz.

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