Uma relação longa, estreita e entusiasmada com o cinema nacional

NA TELA: A versão para cinema de As Meninas (1995) era um projeto do diretor carioca David Neves (de Memória de Helena, Fulaninha, entre outros). Vindo do Cinema Novo, mas de sua vertente intimista, David seria o cineasta ideal para fazê-lo. Tinha o sentido da ambientação e era antenado na dinâmica das relações humanas. Como era amigo do casal Lygia Fagundes Telles e Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977), conseguiu facilmente a autorização da escritora para fazer o filme. Mas ficou doente e morreu em 1994, sem conseguir realizá-lo. Deixou um roteiro escrito, utilizado por Emiliano Ribeiro, seu diretor assistente, que assumiu o projeto.Vendo-se o filme, percebe-se que Emiliano conseguiu dar seguimento às ideias de David Neves. Respeita o tom narrativo da escritora, uma paixão serena, contida, nem por isso menos intensa, que determina a vida das personagens. Além disso, coloca a história contra o pano de fundo político que impregna a ciranda de sentimentos mostrados. São três moças que convivem num pensionato durante a ditadura militar. Uma delas é uma jovem rica, infeliz e inexperiente (Adriana Esteves). Outra (Drica Moraes) é militante política, namorada de um guerrilheiro. Claudia Liz vive a modelo de cabeça complicada e consumidora de drogas. Nessa pequena história, resumem-se as atitudes possíveis durante uma época autoritária - a perplexidade, a negação, o comprometimento. As relações de Lygia com o cinema vão muito além dessa versão delicada. Com Paulo Emilio, que foi seu segundo marido, escreveu a adaptação de Dom Casmurro, filmada por Paulo César Saraceni com o título de Capitu. Gentil ao extremo, Lygia evita comentar essa versão cinematográfica, que tem poucos admiradores, em especial porque a atriz principal, Isabella, não tinha physique du rôle para viver a cigana de olhos oblíquos e dissimulados de que falava Machado de Assis.Após longos anos de convivência com Paulo Emilio, fundador da Cinemateca Brasileira, era natural que Lygia fosse próxima da instituição, que presidiu durante quatro anos e de cujo conselho faz parte. Seu filho único, fruto do primeiro casamento, Goffredo da Silva Telles Neto (1954-2006), também se tornou cineasta.

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